Nova pesquisa mostra que eleição para governador está indefinida e não há certezas

A eleição para governador de Brasília continua indefinida e sem favoritos, e agora quem confirma isso é o instituto O&P, que tem credibilidade, diferentemente de outros. Uma pesquisa quantitativa, neste momento, apenas indica tendências altamente volúveis dos eleitores e teria de ser analisada a partir da série histórica, para que se possa avaliar a evolução ou involução de cada candidato. Basta ver pesquisas feitas no mês de junho em eleições anteriores para verificar as mudanças nos índices, e que levaram favoritos a sequer ir para o segundo turno e colocaram “azarões” em primeiro lugar.

O dado mais relevante da pesquisa O&P é que 49,5% dos eleitores brasilienses não têm candidato. Diante dos nomes apresentados, 40,1% não optam por nenhum deles, e a esses se somam os que não sabem ainda em quem votarão ou não responderam. Isso comprova o que mostram as pesquisas qualitativas: nenhum dos candidatos apresentados preenche, ainda que por não ser conhecido, os requisitos que os eleitores desejam para um governador: honesto, ficha limpa, distante das velhas práticas políticas, de preferência sem mandato, competente como gestor e com capacidade de articulação política.

Para esse índice elevado contribuem também, naturalmente, o desalento e a desesperança do povo, aos quais se soma o descrédito dos políticos e das instituições. Há a percepção, entre os eleitores, de que nada mudará com seus votos, pois continuarão nos executivos e legislativos os mesmos corruptos, picaretas e demagogos de sempre, que se preocuparão apenas com seus interesses pessoais e com a preservação de seus poderes e privilégios.

Se examinamos os índices dos candidatos apresentados, podemos chegar a uma conclusão simplista: haverá segundo turno entre Jofran Frejat e qualquer um dos demais. Simplista por ser resultado de uma leitura rápida e porque entre essa pesquisa e o dia das eleições haverá a definição do quadro de candidatos e coligações e, principalmente, uma campanha eleitoral. Nada do que a O&P apresenta pode ser tomado como definitivo e servir para as argumentações panfletárias do tipo “fulano é imbatível” ou “já ganhou” (há jornalistas, acreditem, que ainda recorrem ao velhíssimo recurso do “pode mandar fazer o terno da posse”), “sicrano está derrotado” ou “beltrano não tem a menor chance”.

Frejat, com 17,3% das intenções de voto, realmente apresenta hoje mais condições de ir para o segundo turno. Mas, com tanto tempo exposto, não parece ter um teto muito maior do que os índices que alcança e, como mostra a pesquisa, terá de convencer os eleitores de que a turma que o apoia, composta de presos, denunciados e condenados, não terá qualquer interferência em sua gestão. O que, em uma campanha, é difícil, mesmo tentando fazer uma maquiagem na chapa ao colocar para disputar o Senado políticos aparentemente limpos e que foram, ou se apresentavam, como de esquerda.

O governador Rodrigo Rollemberg, com escassos 9,5%, seria o concorrente natural de Frejat no segundo turno. Mas esse índice é extremamente baixo para um governante, que tem um nível de rejeição altíssimo. Todos estarão contra o governador na campanha e os demais candidatos, ainda mais com uma margem de erro de 3,1 pontos percentuais, estão na cola de Rollemberg: Eliana Pedrosa (6%), Izalci Lucas (4,7%), Paulo Chagas (4,6%), Fátima Sousa (3,1%) e Alexandre Guerra (3%). É preciso considerar que Chagas, Fátima e Guerra são praticamente desconhecidos e, embora seus partidos tenham poucos recursos, podem crescer na campanha.

Mas, paradoxalmente, também não dá para dizer que Rollemberg não tem chances. Sua situação é crítica, mas uma movimentação dos eleitores que rejeitam os candidatos que simbolizam a volta do esquema Roriz-Arruda (Frejat, Pedrosa e Izalci) ao Buriti pode levar ao “voto útil” no governador, se Chagas, Fátima e Guerra não conseguirem se colocar como alternativas reais de vitória. O PT ainda não disse quem será seu candidato. E por enquanto há um grande eleitor que se mantém em silêncio, mas que pode desbalançar o quadro para o lado que pender: o senador José Antonio Reguffe.

A eleição está aberta, não há certezas. Terão melhores chances de crescer os que se preocuparem menos com coligações a qualquer custo, tempo de TV, dinheiro e cabos eleitorais e se voltarem prioritariamente para traçar e executar as melhores estratégias, usar corretamente as redes sociais e se sair bem nos debates na televisão.

 

Velhos políticos (entre eles alguns que se fingiam de novos) se articulam para impedir mudanças

Os trechos abaixo foram retirados de um artigo publicado hoje em O Globo e intitulado “A falência das elites”. O autor, de quem costumo discordar e que representa um pensamento de direita liberal, é o historiador Marco Antonio Villa. Ele fala do cenário nacional e das eleições para presidente, mas suas frases servem perfeitamente para caracterizar o que vemos hoje em Brasília.

  • A maioria dos eleitores não encontra um candidato que esteja sintonizado com o sentimento das ruas. Alguém que possa entusiasmar o país. Que pense o novo. Que elabore propostas originais. Que consiga expô-las e mostrar sua viabilidade. Que rompa com o senso comum, com o mesmismo, com a obviedade que acabou virando sinônimo de político brasileiro.
  • As possibilidades de mudanças reais estão vedadas. A petrificação da estrutura é evidente. Não há sequer brechas, mesmo que mínimas. A eficácia para a preservação do mesmo desmoralizou a democracia. A desilusão do eleitor é a resposta a tudo isso.
  • A falência das elites e a petrificação das estruturas de poder são as principais responsáveis pela crise estrutural. O processo eleitoral é apenas sua face mais visível.
  • Os candidatos e as lideranças partidárias estão desconectados do Brasil real. Vivem em outro plano. Não entendem que as ruas querem uma profunda transformação. Permanecem no passado.

As articulações políticas que vemos em Brasília, em busca da formação de chapas para disputar o governo e as cadeiras do Senado, aumentam o desalento dos eleitores e as intenções de se abster, anular o voto ou votar em branco. São articulações feitas por velhos políticos com os velhos métodos de sempre. E entre esses políticos distantes do eleitor se incluem alguns que posam de novos e renovadores, mas que se desmascararam na defesa de seus interesses pessoais acima de tudo. Não há debate de programas e intenções, o que se discute são as verbas eleitorais, os cargos e os “e$paço$” de poder.

Esses velhos políticos sabem que irão se eleger mesmo que a maioria dos eleitores não vote em nenhum deles, pois a absurda legislação eleitoral brasileira considera votos nulos e em branco como inválidos. E até contam com a alta abstenção, para se elegerem com menos votos. Não disfarçam o cinismo e não escondem que ligaram o f***m-se.

 

 

Sem democracia interna, partidos se afastam cada vez mais dos eleitores e perdem representatividade

Os filiados e simpatizantes da Izquierda Unida, na Espanha, serão consultados entre os dias 12 e 17 sobre uma questão importante: se aceitam ou não se aliar ao Podemos e ao Equo (partido verde)  para disputar as eleições parlamentares de 2019. Não serão os “donos” do partido, ou o limitado número de integrantes da direção partidária, que tomarão a decisão, mas todos os que estão filiados ou simpatizam com a IU. Isso é o que se chama democracia partidária, instituição muito pouco conhecida no Brasil.

Nossos vizinhos Argentina e Uruguai, para falar apenas dos mais próximos,  realizam eleições prévias oficiais — e obrigatórias — para que os partidos indiquem seus candidatos. Não são encontros de cúpula, almoços, jantares e reuniões de 10 ou 15 pessoas que escolhem quem vai representar o partido nas eleições, pois são os simpatizantes da legenda que votam e decidem. Ao instituir essas prévias na Argentina, em 2009, a presidente Cristina Kirchner disse que dali em diante ninguém poderia dizer que “há dirigentes e candidatos escolhidos a dedo”. Os partidos argentinos que não conseguem 1,5% dos votos nas prévias não se habilitam a participar das eleições.

Na Alemanha, o Partido Social Democrata (SPD) realizou uma consulta interna a seus 463 mil filiados (378 mil votaram) para saber se poderia ou não formar uma coalizão com a União Democrata Cristã (CDU) e com a União Social Cristã (CSU) para governar o país. Se a maioria dos filiados fosse contra, a direção — favorável ao acordo — não poderia firmá-lo. Nos Estados Unidos, os partidos Republicano e Democrata definem seus candidatos em eleições prévias.

Institucionalizadas ou dependendo da decisão de cada partido, as prévias são um importante elemento da democracia, especialmente em países, como o Brasil, cuja legislação proíbe as candidaturas independentes ou avulsas. Aqui, contrariando claramente o dispositivo constitucional que assegura ao cidadão o direito de eleger e ser eleito, os partidos — com seus caciques, donos e panelinhas — são filtros que impedem, autoritariamente, que seus filiados se lancem candidatos ou pelo menos disputem a indicação submetendo-se ao voto dos filiados.

Ou seja, o cidadão brasileiro, para ser candidato, tem de se filiar a um partido pelo menos seis meses antes das eleições. Mas dentro do partido sua candidatura dependerá da aprovação de um grupinho que tem seus protegidos e seus interesses, legítimos ou ilegítimos. Em alguns partidos, os interessados em se candidatar têm de pagar para isso. Em outros, há negociatas mesmo. E, filiado, o candidato não tem para onde correr, pois está impedido de se candidatar por outro partido.

A falta de democracia na quase totalidade dos partidos brasileiros explica, em parte, o desprestígio, a desconfiança e a rejeição dos eleitores, que cada vez questionam mais a importância dessas agremiações no processo eleitoral. Os partidos perderam sua representatividade — fenômeno que, a bem da verdade, não ocorre só no Brasil — e uma maneira de tentar recuperá-la é se democratizando.

Ciro Gomes complica ainda mais as alianças partidárias em Brasília

O já confuso cenário para as eleições de outubro ficou ainda mais confuso com a declaração de Ciro Gomes, candidato a presidente da República pelo PDT, de que trabalha por uma aliança nacional com o PSB. Ciro pediu aos dirigentes do partido em Brasília, ansiosos por se juntar a Jofran Frejat, do PR, que aguardem uma definição da coligação presidencial antes de fechar qualquer acordo. Ou seja, se der certo a aliança com o PSB, o PDT — no qual a maioria dos dirigentes  quer o distrital Joe Valle com Frejat e a maioria da militância defende a candidatura própria — poderá ser levado a apoiar o governador Rodrigo Rollemberg.

Não será fácil essa articulação. Há, no PDT brasiliense, forte rejeição a Rollemberg, maior do que a rejeição a Frejat e sua turma. Valle, que fingiu ser candidato a governador para se cacifar ao Senado, tem sido um dos maiores críticos de Rollemberg e de seu governo. Isso apesar de o PDT ter apoiado a candidatura de Rollemberg e participado por mais de dois anos e meio de seu governo, e de Valle ter sido secretário e comandado depois, com um indicado, a poderosa área social. Os pedetistas consideram que não foram valorizados pelo governador e dois fatos, entre outros, são sempre lembrados: o veto à construção do Memorial João Goulart no Eixo Monumental e o apoio ao distrital Agaciel Maciel (PR), contra Valle, na eleição para presidente da Câmara Legislativa, em 2017.

Valle também se ressente do apoio dado por Rollemberg à então pedetista Celina Leão na eleição para a presidência da Câmara, em 2015. Pesou, na época, o empenho de Celina pela eleição de Rollemberg e a falta de apoio de Valle, que preferia ter seu partido apoiando o então governador Agnelo Queiroz. Celina, com poucos meses de governo, rompeu com o governo e se tornou uma das mais ferrenhas oposicionistas, tendo se filiado ao PPS e agora ao PP. Valle era um dos fortes críticos de Rollemberg na Câmara, mas aceitou participar do governo e deixou para pregar o rompimento quando ficou claro que a impopularidade do governador dificultaria a reeleição.

E para tornar o cenário ainda mais confuso, Ciro Gomes quer como seu candidato a vice-presidente o empresário Benjamin Steinbruch, filiado ao PP — partido que em Brasília é controlado, de fora, pelo ex-vice-governador Tadeu Filippelli, que é do MDB. O PP está apoiando Frejat e terá Celina Leão como candidata a deputada. Não dá para imaginar o PP e Celina apoiando Rollemberg.

Tudo isso mostra que em boa parte as indefinições do quadro eleitoral em Brasília devem-se às indefinições nacionais. Ciro, por exemplo, já falou também em ter Josué Alencar, do PR — o partido de Arruda e de Frejat — como seu vice. Isso facilitaria a composição desejada por Valle. Mas o PR pode apoiar Geraldo Alckmin, do PSDB ou Jair Bolsonaro, do PSL, o que pode influir, aqui, nas candidaturas do tucano Izalci Lucas e do general Paulo Chagas (PRP).

Não há vínculo obrigatório entre as chapas para presidente e para governador, mas enquanto as composições nacionais não forem definidas o quadro em Brasília tende a continuar incerto.

Prever resultado das eleições agora ainda é precipitado, imaginem em 2016

Ainda em 2016, analistas amadores e profissionais precipitados faziam especulações sobre as eleições para governador em 2018. No dia 7 de novembro de 2016 publiquei em minha coluna no Jornal de Brasília a seguinte nota, que está  no meu livro Assim é a Velha Política – http://www.heliodoyle.com.br/assimeavelhapolitica/

“Sete perguntas ainda sem respostas, entre tantas que poderiam ser feitas, mostram como é precipitado estar já agora fazendo previsões para as eleições de 2018 em Brasília:

1 – Tadeu Filippelli vai passar incólume pelas delações premiadas?

2 – Rogério Rosso será presidente da Câmara dos Deputados?

3 – Celina Leão voltará à presidência da Câmara Legislativa?

4 – Quantos e quais distritais serão denunciados pelo Ministério Público a partir da Operação Drácon?

5 – Izalci Lucas e Alberto Fraga escaparão dos inquéritos e processos contra eles?

6 – Rodrigo Rollemberg conseguirá, em um ano e meio, dar uma virada em seu governo?

7 – Os partidos à esquerda conseguirão se unir em torno de um candidato viável?”

Com exceção da pergunta 4, que é aberta, a resposta para todas as demais é “não”. Filippelli, Rosso, Celina, Izalci, Fraga e Rollemberg eram então considerados fortes candidatos ao governo. Só Izalci e Rollemberg permanecem na disputa, ambos enfraquecidos, e ainda não se sabe sequer se o deputado federal pelo PSDB será mesmo candidato ao Buriti.

Já estamos a quatro meses das eleições e o cenário ainda está confuso. Há algumas certezas, mas nem todos os candidatos foram definidos e coligações ainda estão sendo negociadas. Quem diz ou escreve que fulano está eleito, ou que sicrano é imbatível, está fazendo propaganda de candidato, não análise política. Em 2016 e agora.

 

Legislação e caciques partidários impedem a renovação e velhos políticos são eleitos

Menos de 30% dos eleitores de Tocantins votaram nos dois candidatos que vão para o segundo turno nas eleições extemporâneas para governador. Cerca de 80% dos eleitores não queria nenhum dos dois mais votados, velhos e antiquados políticos, um deles com acusações de corrupção, e que são o oposto da renovação desejada pela população. O único candidato que poderia representar essa renovação, o juiz Márlon Reis, da Rede, teve apenas 9,9% dos votos. O deputado Mauro Carlese teve 30,31% dos votos válidos e o senador Vicentinho Alves teve 22,22%.

O que ocorreu em Tocantins não é muito diferente dos resultados em eleições para prefeitos, realizadas no mesmo dia, e na também eleição extemporânea no Amazonas, no ano passado: metade dos eleitores rejeitando todos os candidatos e eleição, com minoria de votos, de velhos e, alguns, corruptos políticos tradicionais. Os dois candidatos que vão para o segundo turno em Tocantins têm, juntos, menos de 30% dos votos dos eleitores aptos (17% e 12%). O mesmo, se permanecer o quadro atual de candidatos, poderá acontecer nas eleições de outubro em Brasília.

Não é difícil entender a contradição entre os desejos dos eleitores e os resultados das urnas:

  • A legislação eleitoral aprovada pelo Congresso Nacional foi feita sob medida para beneficiar os atuais detentores de mandato e os partidos maiores, com redução dos períodos de campanha e de programa gratuitos na TV, liberação de “pré-campanha” (na qual quem tem recursos do Estado e de corporações sindicais e empresariais leva vantagem), distribuição desigual dos tempos dos programas de TV e restrição à participação de partidos pequenos em debates.
  • Os caciques dos partidos maiores prestigiam seus políticos tradicionais e impedem a apresentação de candidatos que representem a renovação, os chamados outsiders, para manter suas estruturas de poder. Uma exceção foi o PSB, que admitiu a candidatura de Joaquim Barbosa para presidente. Um exemplo contrário foi o MDB de Brasília, que filiou o advogado Ibaneis Rocha mas impediu sua candidatura.
  • Os outsiders têm de se filiar a partidos menores, que têm pouco ou nenhum tempo de televisão, poucos recursos dos fundos eleitoral e partidário e alguns sequer têm direito a participar dos debates nas emissoras de TV. A desvantagem é gigantesca, mesmo com a possibilidade de utilização das redes sociais. Esses candidatos, geralmente, não conseguem a visibilidade suficiente para ter uma boa votação.
  • Desiludido, desesperançado e sem acreditar nos candidatos e nos partidos, metade dos eleitores prefere não ir votar ou anular o voto. Em Tocantins, a abstenção foi de 30,14%, os votos nulos foram 17,13% e os em branco foram 2,66%. Total: 49,33%.
  • Os votos nulos e brancos e as abstenções, que poderiam ser carreados para a renovação, acabam beneficiando os políticos tradicionais, que se elegem com poucos votos.

Em Brasília os candidatos que fogem aos padrões da velha política estão no PSol (Fátima Souza), no Novo (Alexandre Guerra) e no PRP (Paulo Chagas). Os demais candidatos já colocados — Jofran Frejat, Rodrigo Rollemberg, Izalci Lucas, Alírio Neto, Eliana Pedrosa – são a encarnação dos velhos métodos e práticas que a maioria dos eleitores rejeita. A questão é que PSol, Novo e PRP são partidos pequenos, com poucos recursos e prejudicados pela legislação, e seus candidatos, desconhecidos do eleitorado, dificilmente terão condições de superar essas deficiências no curto período da campanha. Além do que, por estarem nos extremos do espectro político,  PSol e PRP terão dificuldades também em empolgar os eleitores hoje claramente tendendo a um perfil mais centrado.

Um candidato representativo da nova política teria chances melhores se concorresse por um partido ou coligação que lhe desse mais visibilidade perante o eleitorado. Mas, aos velhos políticos que dominam esses partidos não interessa renovação, e sim manter tudo como está. Ainda que elegendo governadores rejeitados pela maioria real dos eleitores, pois o que interessa é ganhar e manter o poder.

 

Os painéis não deveriam estar lá, mas governo só os retirou para impedir críticas do Metrópoles

Nenhum posicionamento político, ou sobre qualquer assunto, tem de ser maniqueísta, alinhado com o que os outros pensam e muito menos sintonizado com a polarização tão em voga. É verdade que tomar posições que não o colocam de modo automático em um campo ou em outro não é fácil: quem se posiciona sem alinhamento total com um dos lados sofre muitas críticas, quando não ofensas e ataques baixos, dos dois lados.

É o caso da retirada, pelo governo de Brasília — a Agefis é apenas um instrumento — dos paineis de publicidade instalados nas empenas dos prédios situados na área central do Plano Piloto. A legislação não permite e urbanistas criticam isso há anos, mas os painéis continuavam lá, impunemente, protegidos pela conivência do Executivo, omissão do Legislativo e liminares do Judiciário. Aliás, alguns juízes e desembargadores têm, ao longo da história de Brasília, sido protagonistas ativos, por incompetência ou má-fé, de agressões causadas à cidade.

Mas é óbvio que a retirada apenas agora, às vésperas da eleição, é uma ação política do governo, incomodado pelo painel do portal Metrópoles. O painel, em local de grande movimento, vinha expondo críticas ao governador Rodrigo Rollemberg e a sua gestão — o que, além de ser um direito do portal é o que fazem nove entre dez brasilienses. Como não tem como enquadrar o Metrópoles como faz com outros veículos de imprensa, algum gênio sugeriu ao governador que aproveitasse para aplicar a lei há tantos anos esquecida.

Se não fosse o painel do Metrópoles, o governo, depois de esperar três anos e meio, nada faria contra os demais. Foi, assim, uma clara ação contra a liberdade de expressão e de imprensa, cometida por um governo que recorreu por diversas vezes à Justiça para impedir que seus adversários políticos o criticassem em programas partidários no rádio e na televisão — e, o pior, que incrivelmente conseguiu decisões favoráveis a essa tese no Tribunal de Justiça do DF. E no qual um secretário dá broncas e faz ameaças a repórteres e editores quando não gosta do que publicam.

Não sou favorável aos painéis com publicidade nas empenas dos prédios e não acho que caibam comparações com outras cidades que têm desenho urbano completamente diferente do projeto do Plano Piloto. Se acham que a lei deva ser alterada, para permiti-los, que se inicie um processo de debate para que a Câmara Legislativa decida, ainda que decisões de deputados distritais sejam sempre um perigo para os brasilienses.

A atitude de retirá-los agora, porém, mostrou que o governo não quer ser criticado e está muito mal assessorado na política e na comunicação.

Paralisação de caminhoneiros é corporativista, perigosa e prejudica a população

Não pude escrever nos últimos dias, ocupado com o trabalho e com os eventos que, na sexta, no sábado e no domingo, reuniram aqui em Brasília mais de 150 ex-alunos do Ciem — o emblemático Centro Integrado de Ensino Médio da Universidade de Brasília, escola que funcionou de 1964 a 1970 e que continuaria moderna e revolucionária nos tempos de hoje. Alguns desses ex-alunos não se viam desde os anos 1960 e 1970 e o reencontro foi emocionante, 50 anos depois do para nós marcante ano de 1968 e do privilégio que é ter estudado no Ciem.

A falta de tempo me ajudou a ganhar alguns dias para compreender melhor e poder escrever sobre a mobilização de caminhoneiros que ainda paralisa o país. Mobilização que em parte é um locaute de empresários do setor, em parte é uma greve consentida de seus empregados e em parte é uma paralisação de motoristas autônomos. Os empresários, os motoristas empregados e os autônomos têm interesses comuns, mas, como é natural, também têm contradições entre eles. Isso se reflete em vários aspectos do movimento, inclusive na falta de um comando centralizado. As lideranças são diversas em termos de entidades representativas, posicionamentos políticos e concepções estratégicas da mobilização — ou da falta de estratégia.

O movimento dos caminhoneiros é corporativista e voltado especialmente para os interesses dos empresários do setor, com reivindicações que atendem também a seus empregados e aos caminhoneiros autônomos. A redução do preço do óleo diesel e a fixação de uma nova política de reajuste, não vinculada às variações do dólar, interessa a todos eles, pois aumenta o lucro das empresas e assegura o emprego e a ocupação dos trabalhadores. Da mesma forma, outras medidas, como a redução das taxas de pedágio e a garantia de mercado para autônomos, são positivas para o conjunto do setor.

Apenas alguns segmentos dos caminhoneiros deram ao movimento um caráter político, uns defendendo a intervenção dos militares, outros pregando a derrubada de Temer, poucos vendo na paralisação nacional uma possibilidade de greve geral de trabalhadores. E todos se aproveitando da total falta de apoio popular ao presidente da República e ao governo, que mostraram claramente fragilidade política e de gestão e incapacidade para administrar a situação crítica, negociar com os manifestantes e encontrar soluções viáveis. Um governo sem legitimidade e incompetente não é capaz de enfrentar com sucesso uma crise dessas proporções.

Setores de esquerda, que se encantam magicamente com a palavra greve e acham que trabalhadores estão sempre lutando pela revolução social, apoiam a mobilização corporativista como se estivéssemos às vésperas da tomada do Palácio de Inverno. Parecem ver no fechamento de rodovias, no desabastecimento de combustível e outros produtos essenciais, nos prejuízos causados aos deslocamentos da população e no fechamento de escolas e postos de saúde um sinal de que vivemos uma greve geral revolucionária. E, raciocinam, se é contra o golpista Temer, é bom.

Esses “esquerdistas” (sim, como as aspas colocadas por Lênin ao falar da doença infantil do comunismo) não enxergam os verdadeiros objetivos da paralisação nem os males que causa à população, direta e indiretamente. É natural que muita gente justamente indignada e revoltada com a situação do país, com a corrupção, com os políticos demagogos e ladrões, com os péssimos serviços públicos, com a alta carga de tributos e com os constantes aumentos nos preços dos combustíveis veja o movimentos dos caminhoneiros com simpatia e aprovação. Afinal, alguém está se mexendo. Mas isso não quer dizer que o locaute-greve-paralisação seja necessariamente positivo para o país e para a população. E, na verdade, não é.

Basta ver que as soluções apresentadas pelo governo para acabar com o movimento, e que beneficiam os empresários e autônomos,  vão prejudicar, e muito, os brasileiros e brasileiras. Para reduzir os preços do diesel e dar outras vantagens ao setor de transporte rodoviário de cargas, sem prejudicar a Petrobrás, haverá queda de arrecadação e, consequentemente, menos dinheiro ainda para saúde, educação e outras áreas. Quando se diz que o Tesouro irá arcar com os prejuízos, leia-se: os cidadãos irão arcar com os prejuízos. Uns poucos ganham, muitos perdem.

Assim tem sido o Brasil, há anos. Os empresários, os servidores públicos e corporações mais bem organizadas e com maior poder de pressão — como igrejas, por exemplo — conseguem mais benefícios (desonerações, subsídios, isenções tributárias, benefícios de todo tipo, aumentos salariais, redução de carga de trabalho e por aí adiante) e isso tem um alto preço, pago pelos cidadãos com menos ou nenhum poder de pressionar os governos. Entre os quais estão, obviamente, os mais pobres e os miseráveis.

O poder de pressão dos caminhoneiros, em uma sociedade democrática, é enorme. Sim, porque se houvesse a intervenção militar que alguns deles pedem, os blindados e os fuzis das Forças Armadas já teriam acabado com o movimento e vários deles estariam presos e provavelmente seriam torturados, ou mortos. Uma paralisação de caminhoneiros, com intenção política e articulada com outros segmentos empresariais, pode derrubar um governo. Os “esquerdistas” que apoiam a atual mobilização deveriam se lembrar do que aconteceu com Salvador Allende.

 

 

Militantes contemporâneos têm o que aprender com maio de 68 e com a Casa de Papel

Fui convidado pelo cineclube da Aliança Francesa para debater o documentário francês Maio 68, uma estranha primavera, de Dominique Beaux. Procurei responder às perguntas dos presentes com objetividade, pois eram muitas questões colocadas e já estava tarde quando a exibição terminou. Mas em dois ou três minutos, por maior que seja a capacidade de sintetizar, muitas vezes não é possível justificar adequadamente uma ideia. Acho que foi o que aconteceu quando uma aluna da UnB perguntou como eu vejo as ocupações e as greves na universidade. Como não houve réplica, não sei o que ela achou — mas deixou o auditório logo depois.

Como disse algumas vezes no debate, cada luta tem de estar contextualizada em seu momento. Não tem sentido parar no tempo e querer repetir, 50 anos depois, sem avaliação crítica e análise da conjuntura e das condições atuais, as formas de luta dos estudantes franceses que ocuparam universidades e foram às ruas em maio de 1968. Os cenários internacional e nacional eram outros, as motivações se adequavam àqueles tempos, os tempos mudaram. Não que essas formas tenham perdido a validade, o que não pode é serem adotadas mecanicamente.

Eu disse, no debate, que não sou favorável a greves de estudantes e ocupações de prédios universitários sem um objetivo claro e eficaz. Não concordo com a greve pela greve, com a ocupação pela ocupação. Não podem ser apenas para autossatisfação da militância ou para cumprir um ritual, tem de haver um resultado, ainda que seja apenas a divulgação do movimento. Disse ainda que não vejo nada positivo em manifestações que prejudicam e irritam a população que, em vez de simpatizar com o movimento, acaba o repudiando e isolando. E apoio da população, como até os ocupantes da fábrica de dinheiro em Casa de Papel mostraram, é fundamental.

Não vejo sentido em fazer greve em uma universidade pública em situação financeira crítica, porque essa greve só prejudicará ainda mais os estudantes e em nada contribuirá para salvar a instituição. Há diversas outras formas de luta, mais eficientes, para protestar e ganhar apoio da população contra as políticas de governo que asfixiam a UnB e para  manter a universidade em funcionamento.  Os que querem acabar com a universidade pública e gratuita devem ficar muito satisfeitos quando veem professores, funcionários e estudantes contribuindo involuntariamente para o objetivo deles de desgastar a instituição.

Ademais, greves podem ser por tempo determinado, curtas, acompanhadas de manifestações com repercussão na opinião pública, e não por tempo indefinido, atrapalhando os estudos e o calendário de vida dos estudantes (formatura, estágio, intercâmbio, viagem). Portanto, não sou contra greves em si, discordo quanto à oportunidade e eficácia real de algumas delas. Também não sou contra ocupações, mas não vejo sentido em ocupar prédios e instalações administrativas da UnB, prejudicando os serviços e impedindo os professores e servidores de trabalhar — ainda mais quando a universidade está sob fogo cerrado de seus adversários. É melhor ocupar as faculdades e institutos.

Quando ocupamos o prédio do Elefante Branco, em 1968, em uma sexta-feira, bloqueamos o acesso às salas de aulas, à biblioteca e à sede do grêmio, no primeiro andar. Não entramos nas salas administrativas e da direção, no térreo. As barricadas eram na escada. Não destruímos nada, pelo contrário: fizemos uma limpeza geral no colégio — piso, paredes, carteiras —  e colocamos para funcionar a biblioteca, fechada há meses. E, ainda sob nossa ocupação, permitimos que alunos e professores tivessem aulas normalmente na segunda-feira — apenas nos dividimos para fazer pequenos discursos antes do início da primeira aula em cada sala. Tivemos apoio dos alunos e a direção negociou, não pediu à polícia que nos retirasse.

Não sou contra greves e ocupações de estudantes, mas formas de luta têm de ser avaliadas em cada circunstância. Sou, sim, contra greves indiscriminadas em serviços públicos, e que causam prejuízos à população, especialmente aos mais pobres e que mais precisam de saúde, educação, transporte e segurança. Acho também um grave erro fechar o trânsito e impedir a circulação, irritando motoristas e passageiros, quando uma grande manifestação pode ser feita sem recorrer a isso.

Sindicatos e entidades estudantis não podem se estagnar e agir como se estivéssemos em outras épocas e outras realidades, e muito menos deveriam se isolar em pequenos grupos militantes distanciados da maioria. Há diversas formas de luta que podem ser mais eficazes e eficientes para os objetivos buscados e para receber apoio da população. Uma boa e aprofundada discussão política e criatividade ajudam a sair da mesmice e encontrá-las.

A “direita” se apresenta dividida agora como estratégia para se unir depois

O senador Cristovam Buarque, do PPS, preocupado com sua reeleição, anunciou hoje que estará numa chapa na qual o deputado Izalci Lucas (PSDB) será o candidato a governador. Não se falou em candidato a vice-governador e à outra cadeira do Senado que estará em disputa. Essa chapa, segundo eles, juntará também PSD (Rogério Rosso), PRB (Igreja Universal e Sara Nossa Terra) e os inexpressivos PMB, PSDC, PSC, Patriota e PSL.

Não é uma plataforma de governo, ou pelo menos diretrizes para um programa, que unem Izalci, Cristovam e esses partidos — são os interesses políticos e pessoais de cada um dos personagens envolvidos. Quem duvidar, pergunte a eles o que farão no governo. As respostas serão óbvias e demagógicas, a mesmice de sempre. Vão criticar o governo de Rodrigo Rollemberg e dizer que é preciso impedir a reeleição dele. E não passarão disso.

O lançamento da chapa Izalci-Cristovam está obviamente identificado com a candidatura a presidente do tucano Geraldo Alckmin, mas o anúncio de hoje cumpre uma estratégia combinada com o candidato Jofran Frejat, que é do PR, partido que ainda não definiu quem apoiará na eleição nacional. Os dois blocos continuarão a conversar, enquanto aguardam as definições de alianças para presidente da República, mas praticamente já acertaram a união em uma chapa que terá Frejat para governador, Izalci como seu vice e Cristovam e Alberto Fraga (ou Paulo Octávio) para o Senado. Não é à toa que não se falou em vice e na outra cadeira ao Senado. Estão fora dessa articulação, por enquanto, Alírio Neto (PTB) e Eliana Pedrosa (Podemos), ambos autoproclamados candidatos a governador.

Continuam, pois, as negociações no bloco político que tem sua origem em Joaquim Roriz e José Roberto Arruda, identificado como a “direita” em Brasília, e que agora ganhou a adesão do ex-petista e ex-pedetista Cristovam Buarque. Espera-se que eles, depois de acertarem seus projetos pessoais, digam aos brasilienses, na campanha, o que pretendem fazer no governo e no Senado.

Em tempo: o governador Rodrigo Rollemberg diz que não quis passar a impressão de que em sua visita ao senador Reguffe recebeu o apoio dele, nem “plantou” nota sobre isso em coluna. Acredito e retifico o que publiquei.