Maioria da população ainda não entendeu as mudanças na previdência

A maior parcela dos brasilienses não entendeu o significado das mudanças na previdência dos servidores propostas pelo governo de Brasília. Há até muitos servidores, que de alguma maneira são afetados pelas medidas, que não entenderam o que realmente mudará em suas vidas. Mesmo assim o projeto quase foi votado ontem pela Câmara Legislativa e seria aprovado ou derrotado por um ou dois votos. Assim é a “democracia” brasileira.

Governantes e parlamentares, no Brasil e em Brasília, acham que podem tudo e se aproveitam do desconhecimento e da desmobilização da população para impor suas vontades e se acertar quanto ao que pensam ser bom ou ruim para os cidadãos. Para não perder esse poder de decisão absoluta, não fazem qualquer esforço para informar a população, ouvi-la e levar em consideração o que pensa. Nada de democracia participativa, ao povo cabe apenas eleger.

O governo não soube, até agora, mostrar quais são os benefícios reais das mudanças para os brasilienses. Fala genericamente de saneamento das contas, possibilidade de pagar em dia os salários dos servidores e as dívidas com fornecedores. Seu principal argumento é “ou aprovam as mudanças ou vamos parcelar salários”. A oposição às mudanças, política e sindical, também faz um discurso genérico de prejuízo para os servidores, sem explicar qual é exatamente esse prejuízo. São pronunciamentos vazios de conteúdo e fortemente demagógicos. E as pessoas continuam sem entender.

Tem sido assim em todos os projetos que, por iniciativa do governo ou de parlamentares, tramitam e são aprovados ou rejeitados na Câmara. Políticos, tecnocratas e burocratas decidem o que é bom ou ruim, o que querem e o que não querem, sem a menor preocupação de explicá-los à população e saber o que pensam aqueles a quem teoricamente representam ou para quem teoricamente trabalham. Limitam-se, em alguns casos, a “audiências públicas” formais às quais comparecem apenas militantes de alguma força política ou causa social e um pequeno número de interessados no que está sendo debatido.

É comum ouvir dizer que as pessoas não vão às audiências porque não querem, então nada há a fazer. É um argumento falso e tendencioso. Cidadãos não organizados não têm vez nessas discussões, dominadas pelos adeptos do governo (muitas vezes servidores comissionados) e militantes que lá estão, disciplinadamente, para ser a favor ou contra.

Nunca houve em Brasília ação de governo no sentido de incentivar a organização da população e a participação ativa nas decisões que lhe interessam. Nem mesmo os conselhos de representantes comunitários, previstos na Lei Orgânica de 1992, foram estruturados. A escolha democrática dos administradores regionais sempre foi só discurso. Muitos “líderes comunitários” são apenas cabos eleitorais de políticos, muitos deles com cargos comissionados em gabinetes do Legislativo e do Executivo.

Prevalecem nas discussões de projetos, assim, o governo, os distritais e as corporações sindicais, de empresários e de trabalhadores, em muitos casos pouco representativas de suas próprias categorias e dominadas ou por correntes políticas ou por interesses meramente economicistas e individuais. Os meios de comunicação refletem apenas as posições desses segmentos, no máximo realizando enquetes sem qualquer base científica e também vulneráveis à interferência manipuladora de grupos organizados.

E assim os iluminados governantes, políticos e tecnocratas decidem o que é bom ou é ruim para o povo.

 

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