Na Alemanha o eleitor sabe em que programa está votando

Cobri duas eleições nacionais na Alemanha. A de 1976, pela Rede Globo; a de 1998, pelo Correio Braziliense. Na primeira, o grupo brasileiro convidado pelo governo alemão era integrado também por Carlos Castello Branco (Jornal do Brasil), Oliveiros Ferreira (O Estado de S. Paulo), José Augusto Ribeiro (O Globo) e D´Alembert Jaccoud (Veja). Na segunda, meu colega brasileiro era Jaime Spitzcovsky, da Folha de S. Paulo e nosso grupo foi completado por colegas de Angola, do México, do Chile e do Peru. Havia, em ambas as eleições, jornalistas de inúmeros países.

Em 1976, quando ainda existia a Alemanha Oriental, entrevistei para a Globo os líderes dos quatro partidos que tinham representação no Parlamento e a manteriam: o reeleito Helmut Schmidt, social-democrata (SPD); Helmut Kohl, democrata-cristão (CDU); Hans-Dietrich Genscher, liberal (FDP); e Franz Strauss, social-cristão (CSU), o mais à direita. A CSU é um partido que só existe na Baviera e sempre se aliou à CDU, que não disputa eleições naquele estado.

Em 1998, quando Gerhard Schröder, do SPD, elegeu-se chanceler — o nome que lá se dá ao primeiro-ministro –, a Aliança90/Os Verdes já tinha representação no Parlamento e, pela primeira vez, o Partido do Socialismo Democrático, sucedâneo do partido comunista da extinta Alemanha Oriental, conseguiu mais do que os 5% dos votos necessários para ganhar cadeiras no Bundestag. Nesta viagem não tive os privilégios que haviam sido concedidos à Globo em 1976 e só participei de entrevistas coletivas.

Agora é a extrema-direita que consegue entrar e são sete os partidos representados no Parlamento — 10% dos cerca de 70 partidos que existem na Alemanha. É interessante observar como o sistema eleitoral alemão, com o chamado voto “distrital misto”, que na verdade é proporcional, e cláusula de barreira elevada (5%), fizeram com que cada um dos partidos tenha um perfil ideológico bem definido. A Alternativa para a Alemanha (AfD) é extrema-direita fascista; a União Cristã Democrata (CDU) e a União Social Cristã (CSU) são direita; o Partido Liberal Democrático (FDP) é centro-direita; Os Verdes, centro, ecologistas; o Partido Social Democrata (SPD) é centro-esquerda; A Esquerda (que sucedeu os socialistas democráticos, é, como o nome diz, esquerda.

Os eleitores, ao votarem em um desses partidos, sabem exatamente em que plataforma e em que ideias estão votando. E sabem que a aliança para governar, pois nenhum deles conseguiu maioria de cadeiras, será feita em bases programáticas e com debates públicos.

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