Ibaneis até tem o perfil desejado, mas já se enreda na velha política

O perfil de governador que os eleitores de Brasília desenham não é muito diferente do definido em todo o país: honesto, ficha limpa, bom gestor, com experiência, e com capacidade de diálogo e articulação política. Os eleitores rejeitam os políticos tradicionais e seus velhos métodos e práticas, assim como os partidos políticos artificiais e envolvidos com a corrupção. Na verdade, nada há de novo nisso e é por causa desse quadro que tanto se fala em outsiders para disputar a presidência da República e os governos estaduais e do Distrito Federal.

Em Brasília, o advogado Ibaneis Rocha tem o perfil do outsider: não é um político tradicional, não há denúncias contra ele, é um advogado bem-sucedido, comandando um grande escritório, e foi vice-presidente e presidente da seccional da Ordem dos Advogados. Consta até que faz um curso de gestão pública para melhor se habilitar à disputa pelo governo.

Mas Ibaneis está errando feio ao se colocar como um “não político” que parece ansioso por entrar no antiquado e surrado jogo da politicagem como se isso fosse a verdadeira e necessária política. A pretexto de formar uma aliança que torne Brasília governável e para viabilizar sua candidatura, Ibaneis tem conversado com políticos de todos os matizes e correntes, mostrando falta de identidade e passando a imagem de oportunismo. Transmite a ideia de um “não político tradicional” sem partido que precisa dos velhos políticos e dos velhos partidos para chegar ao poder.

Matéria de Helena Mader no Correio Braziliense conta que além de negociar com o PPS e com o PDT, Ibaneis “mantém tratativas” com Tadeu Filippelli, que admira “pela capacidade de gestão”. Ibaneis chega a defender uma “união partidária mais ampla”, com PDT, PPS e PMDB, formando uma “coalizão para dar governabilidade”. Não importa se nessa coalizão estejam Filippelli e o corrupto PMDB e o PPS seja hoje um partido que abriga os denunciados Celina Leão e Raimundo Ribeiro.

Não se fala disso na matéria, mas Ibaneis também tem conversado com políticos do PTB, PP e PR, entre outros. Nada disso cai bem para quem diz pretender mudar de verdade os métodos de governar. Não é esse tipo de articulação política que os eleitores desejam. O que se quer é um governador que saiba dialogar e articular com a sociedade e com os distritais em torno de projetos e ações de governo e não se renda às práticas da velha política.

Ou seja, que faça política, mas não a velha política.

 

 

 

 

 

Há novidades no quadro eleitoral de Brasília, mas…

Estou há mais de uma semana sem escrever neste blog, por falta de tempo para pensar no cotidiano e na realidade de Brasília e encontrar assunto todo dia. Ao retomar, vejo algumas novidades em relação às eleições para governador em 2018:

1 – O advogado Ibaneis Rocha tornou pública sua pretensão de se candidatar ao governo de Brasília, o que vem planejando desde o ano passado. Ibaneis, que presidiu a OAB-DF e é secretário-geral adjunto da OAB nacional, tem em tese o perfil do outsider que tanto se busca. Mas já está cometendo erros que podem comprometer essa imagem.

2 – O PT, em busca de retomar o espaço eleitoral perdido e se diferenciar da política tradicional, abriu um processo de discussão antes de definir seu candidato ao governo: “O DF e o Brasil que o povo quer.” Os petistas estão animados com o desempenho de Lula nas pesquisas para presidente, apesar dos desgastes, mas não têm quadros com força para disputar o governo e a rejeição ao partido é grande.

3 – O governador Rodrigo Rollemberg conta com a folga financeira que obteve com as mudanças na previdência e com a superação dos limites da Lei de Responsabilidade Fiscal para dar a largada em sua tentativa de reeleição. Conta, também, com a ausência de candidatos fortes para disputar com ele. Está cumprindo agenda de candidato, mas enfrenta uma deterioração de imagem que pode inviabilizar seus planos.

4 – O PDT finalmente formalizou o que está fazendo na prática há muito tempo: descolar-se de Rollemberg e viabilizar candidatura própria ao governo. O distrital Joe Valle é uma alternativa e o partido conversa com Ibaneis Rocha e Jofran Frejat. Mas cada um deles tem seus problemas.

No mais, tudo igual, inclusive os lobbies de candidatos em blogs patrocinados e colunas e as matérias óbvias nos jornais. Nas próximas notas vou procurar explicar melhor os “mas” que ainda mantêm o quadro eleitoral em Brasília totalmente indefinido e sem favoritos.

A farsa da reforma política e o exemplo catalão

Não havia mesmo a ilusão de que deputados e senadores aprovassem uma reforma da legislação que efetivamente aperfeiçoasse o processo eleitoral. O que os parlamentares fizeram foi apenas garantir dinheiro para suas reeleições e que o fundo partidário e os horários na TV serão apenas para os grandes partidos.

Apartados do mundo real, com medo das operações policiais e das investidas do Ministério Público e preocupados em assegurar os mandatos que lhes garantem alta renda e foro privilegiado, deputados e senadores levaram o Congresso Nacional ao fundo do poço. As negociatas para salvar Michel Temer são só parte da desmoralização do Legislativo.

As regras eleitorais vigentes, agravadas pela campanha mais curta, favorecem os que têm mandato e estão nos maiores e mais corruptos partidos. Só haverá renovação política de fato — e não mudanças de seis para meia dúzia — se o povo sair da letargia e do comodismo e fizer das eleições de 2018 um momento de ruptura em favor da democracia real e contra corruptos, picaretas e demagogos.

A mobilização pacífica, firme e decidida dos catalães poderia servir de inspiração para os brasileiros.

Distritais “pagam” para divulgar a própria inutilidade e inoperância (quem paga mesmo somos nós)

A Câmara Legislativa divulgou sua agenda da semana em peças publicitárias publicadas em jornais locais. A agenda é uma demonstração clara, e paga pelos contribuintes, da inutilidade de nossa casa legislativa. O trabalho real, e assim mesmo há controvérsias sobre isso, limita-se a duas sessões plenárias ordinárias, a partir de 15 horas de terça e de quarta, e uma reunião ordinária da Comissão de Constituição e Justiça, terça às 10h30. Vejamos a agenda:

Na segunda, abertura de exposição e sessão solene para entrega de título de cidadão brasiliense.

Na terça, além da reunião da CCJ e da plenária, abertura da feira do livro e duas audiências públicas: defesa do serviço público e Samu.

Na quarta, uma audiência pública (metas fiscais) e outra sessão solene para entrega de título, além da plenária.

Na quinta, duas audiências: primeira infância e valorização do biólogo.

Na sexta, três sessões solenes, uma delas em homenagem aos empregados da Terracap, e uma audiência pública sobre alfabetização de jovens e adultos.

Antes que os distritais digam que as audiências públicas são importantes: à maioria delas comparecem poucos deputados e escasso público, a não ser que seja em defesa de algum interesse corporativista. E geralmente são apenas palcos para a demagogia parlamentar. Levam a nada.

A Câmara gasta inutilmente muito dinheiro, os deputados distritais têm privilégios e mordomias demais e, no conjunto, são improdutivos e demagogos: raramente aprovam medidas positivas para a população; defendem prioritariamente corporações empresariais, sindicais e religiosas e grileiros de terras; grande parte das leis votadas é declarada inconstitucional; e fazem acordos entre amigos para derrubar vetos do governador, sem nenhum critério. Para o governo conseguir aprovar leis que considera importantes precisa aumentar ainda mais o já elevado nível de toma lá dá cá com cargos, emendas e verbas.

Os brasilienses deveriam constituir uma CPI para investigar a Câmara, mas não uma comissão parlamentar inútil como as montadas pelos distritais — uma Comissão Popular de Inquérito.