É bom refletir sobre os resultados das eleições no Chile, pensando no Brasil

Um brasileiro não pode contar com a chamada grande imprensa brasileira se quiser ter informações relevantes e análises aprofundadas sobre eleições em países da América do Sul. As informações são apenas as mais básicas e as análises são superficiais e geralmente com viés ideológico. Os jornalistas, escrevendo ou falando daqui do Brasil ou mesmo dos países em que se realizam as eleições, acham que cumprem suas missões entrevistando alguns acadêmicos e “especialistas” e conversando com motoristas de táxi (ou uber), garçons e porteiros do hotel. E, claro, dando, se possível, uma passadinha nas entrevistas dos candidatos.

Está sendo assim, agora, com as eleições presidenciais no Chile. Mas, os que estudam os temas eleitorais e os que de alguma maneira estão envolvidos ou se envolverão nas eleições brasileiras em 2018 deveriam verificar o que ocorreu ontem no país vizinho, embora não limítrofe. Em suma, o primeiro turno das eleições presidenciais chilenas dá algumas indicações relevantes a partir de fatos que têm se repetido em outros países e de situações mais específicas, e que podem se repetir no Brasil:

  • Os institutos de pesquisa erraram feio, mais uma vez. Chegaram a prever 45% dos votos para o candidato da centro-direita, o ex-presidente Sebastián Piñera, que teve 36,6%. E prejudicaram a candidata da Frente Ampla, de esquerda, Beatriz Sánchez, para quem previam cerca de 10% dos votos e que teve 20,2%, quase superando o socialista Alejandro Guiller, que teve 22,7. Beatriz diz que poderia ter ido para o segundo turno se os institutos tivessem mostrado que disputava voto a voto com Guiller.
  • O voto não é obrigatório no Chile e a abstenção tem sido alta nos últimos pleitos. Ontem foi de 54%. Como vai votar quem quer, os votos em branco e nulos foram dados por apenas 0,59% e 0,98% dos que compareceram. Por isso se fala no Chile em “democracia de minorias”, pois o mais votado teve menos de 20% dos votos dos 14.347.288 eleitores.
  • Pela primeira vez desde que se restaurou a democracia, os partidos de centro-esquerda não formaram a Concertación que venceu todas as eleições presidenciais, menos uma — a vencida por Piñera. Dos seis principais candidatos, dois situam-se à direita e quatro à esquerda, aí incluída a democrata-cristã Carolina Goic (5,8%), pois esse partido sempre esteve aliado aos socialistas. Para muitos analistas, a esquerda poderia ser derrotada até no primeiro turno devido à ascensão da direita no continente. Para outros, a divisão seria fatal para a esquerda. Mas, os candidatos da esquerda somaram 54,4% dos votos e os da direita tiveram 44,5%.
  • O segundo turno, daqui a um mês, é uma nova eleição, agora polarizada entre a esquerda, na situação (Guiller, do partido da presidente Bachelet) e a oposição de direita (Piñera). O candidato da extrema-direita, José Kast (7,9%), defensor de Pinochet, já deu apoio incondicional a Piñera. Guiller já recebeu apoio do progressista Marco Enriquez-Ominami (5,7%), mas ainda precisa obter o apoio da Frente Ampla e dos democratas-cristãos.

A realidade do Chile não é a mesma do Brasil, que não é a mesma da Argentina, do Uruguai e da França, mas é interessante ver como se comporta o eleitorado em outros países e como algumas situações se repetem. Institutos de pesquisa, por exemplo, têm errado em inúmeros países — será que os métodos de pesquisa quantitativa não precisam ser renovados? Essas pesquisas ainda são relevantes?

Os chilenos são tidos como conservadores, mas deram maioria de votos para a centro-esquerda e para a esquerda. Será que no Brasil isso não pode acontecer? A abstenção no Chile é grande, mas permanecerá em um segundo turno polarizado entre situação e oposição, entre centro-esquerda, possivelmente com apoio da esquerda, e centro-direita com apoio da direita pinochetista? Aqui no Brasil a disputa com vários candidatos à esquerda ou à direita inviabiliza a vitória desses segmentos?

Não custa refletir sobre os resultados no Chile, pensando no Brasil. E em Brasília.

 

 

 

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