Blocos de carnaval não precisam de dinheiro público para sair às ruas

O Pacotão foi o primeiro grande bloco de carnaval de Brasília. Fundado por jornalistas, saiu às ruas pela primeira vez em 1978. A concentração foi no extinto Chorão, na 302 Norte, e o trajeto foi pela W-3, na contramão. Já no ano seguinte, o Pacotão estourou, com a marchinha do Aiatolá. Depois vieram outros blocos, mas o Pacotão continuou sendo o grande bloco da cidade durante muitos anos, até meados dos anos 1990.

Em todo esse período, os organizadores do Pacotão nunca pensaram em conseguir dinheiro público para seus desfiles. Jamais admitiriam isso, seria uma ofensa. Eram eles próprios e os foliões de modo geral que arcavam com as despesas: a banda do maestro Celso, as faixas criativas e politizadas, as cartolas e coletes que identificavam o “politiburo”. Um livro de ouro passava pelas redações e bares para arrecadar o dinheiro necessário.

Realmente faziam muita falta os banheiros públicos, pois as filas que se formavam nos bares e restaurantes do percurso eram enormes e a maioria resolvia o problema na rua mesmo. Havia policiamento, pequeno mesmo nos tempos da ditadura, mas não havia a violência que existe hoje na cidade e as raríssimas brigas internas eram resolvidas pelos próprios participantes do bloco. Ninguém imaginaria que o Pacotão precisasse contratar seguranças.

Os tempos são outros e hoje é natural que o poder público se mobilize para dar apoio aos blocos que fazem o carnaval de rua de Brasília. É preciso definir trajetos e mediar limites razoáveis para a folia, para que nem os blocos nem os moradores se sintam prejudicados. O Estado deve assegurar o policiamento adequado, incluindo o de trânsito, e mobilizar assistência médica de urgência e a proteção de bombeiros. Para não transformar a cidade numa lixeira mal cheirosa, o governo deve montar banheiros químicos nos locais de maior concentração e os garis devem estar em ação assim que terminam os desfiles.

E é tudo. Essas medidas que cabem ao Estado são suficientes para garantir o carnaval de rua. Cabe aos blocos conseguir os demais recursos para a festa popular: músicos, veículos, adornos, fantasias, seguranças privados e todo o mais que considerem necessário. O governo não deveria gastar um só real para “patrocinar” o carnaval de rua ou os blocos, ainda mais quando faltam recursos básicos para o atendimento a necessidades vitais da população. Não tem nenhum sentido o governo de Brasília estar gastando R$ 5 milhões com o carnaval.

A cobrança por recursos públicos para financiar blocos de rua mostra a que ponto chegou a visão distorcida de que o Estado tem um cofre abarrotado de dinheiro para distribuir e que tem obrigação de arcar até com o que deveria ser uma festa popular, espontânea. Perdeu-se a ideia de que, se não há como pagar, pode-se brincar carnaval na rua sem trios elétricos e que há como evitar despesas que não são essenciais.

E as escolas de samba? Uma coisa é carnaval de rua, outra são os desfiles, que precisam ser abordados em um outro texto e contexto, numa das próximas notas.

 

 

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