A desqualificação do crítico é tática medrosa para evitar o debate qualificado

É comum, infelizmente, a prática de responder a uma crítica desqualificando o crítico. A desqualificação tenta esconder a dificuldade de responder e dá menos trabalho do que debater. Alguns desqualificam o autor da crítica alegando que ele não está apto a falar ou escrever sobre o assunto. Por exemplo: quem critica uma peça de teatro sem nunca ter estudado ou trabalhado na área. É um argumento válido, mas seria melhor contestar a crítica sem recorrer a ele.

Há, porém, os que desqualificam os críticos — e os que fazem denúncias — com alegações subjetivas, dizendo que são movidos por sentimentos de mágoa, raiva, rancor, despeito, inveja. Dizem que alguém critica, ou denuncia, porque está magoado, ou com raiva, ou porque foi contrariado, não gosta pessoalmente do criticado e coisas assim. Com esse “elevado” nível de argumento, consideram-se liberados de responder e contestar.

Vez ou outra, e ultimamente com mais frequência, algumas críticas que faço têm sido atribuídas a uma presumível mágoa ou outros sentimentos meus em relação ao governador Rodrigo Rollemberg — já falaram até em “dores pessoais”. Estou acostumado: a mágoa também foi apresentada como explicação para as denúncias que apresentei em 1996 e para as críticas que fiz e faço ao então governador e hoje senador Cristovam Buarque.

Então, como gosto de deixar as coisas claras, vou esclarecer alguns pontos:

  • As situações que me levaram a deixar a Secretaria de Governo na gestão de Cristovam e a Casa Civil na de Rollemberg são completamente diferentes, nos antecedentes, nas causas e nos desfechos. Cristovam me “fritou” quando eu estava viajando e anunciou meu substituto em entrevista coletiva, pois não teve coragem de me demitir cara a cara em seu gabinete, onde tivemos uma conversa dura pouco antes. Eu pedi a Rollemberg para deixar o governo, depois de muitas conversas amigáveis.
  • Não tenho mágoas nem de um nem de outro. O sentimento que tive ao ser demitido por Cristovam foi de revolta diante das circunstâncias em que isso ocorreu. Eu já estava preparado para deixar o governo, ou pelo menos a secretaria, e nós tínhamos conversado sobre isso antes de eu viajar. Não havia a menor necessidade da “fritura” e dos métodos nada éticos utilizados por ele e auxiliares próximos para forçar meu pedido de demissão — que, para frustração deles, não apresentei, para que o então governador assumisse a demissão.
  • Não tenho motivo para ter mágoa de Rollemberg. Ao pedir demissão, imaginava estar ajudando o governo. Achei melhor também não trocar a Casa Civil por outra pasta, como ele propôs, pois continuaria a ser alvo dos que viam em mim um obstáculo às suas pretensões ilegítimas. Em janeiro de 2017 o governador me convidou para voltar ao governo e recusei, mostrando a ele os motivos. Por que teria mágoas?
  • Tenho, sim, sentimentos de decepção e frustração. Empenhei-me e me dediquei integralmente a um projeto de governo que poderia ter sido um marco em Brasília, mas não foi executado como proposto e prometido. Acreditei que teríamos uma gestão moderna e eficiente, com novos métodos e novas práticas de governar e de fazer política, mas não é o que acontece. Não nego os méritos e realizações do governo, nem qualidades positivas de Rollemberg. Mas o que esse governo fez e promete fazer é bem pouco diante do que planejamos e do que poderia ter feito, apesar das grandes dificuldades. E os erros políticos e de gestão são muitos.

Exerço, neste blog, no twitter, em artigos publicados, nas palestras que faço, nas entrevistas que dou e nas conversas e debates de que participo, meu direito de ter opinião e expressá-las. Tenho convicções e as tenho escritas, publicadas e gravadas. Nunca me recusei a participar de uma discussão pública e não me incomodo de rever posições e retificar ideias equivocadas que tive ou posso ter.

Argumentem, pois, em vez de, com simplismo, tentarem desqualificar meu pensamento e minhas críticas atribuindo-os a “mágoas” ou outros sentimentos. Estou sempre aberto ao debate — de preferência, qualificado.

 

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