Rollemberg pensa que consegue enganar alguém ao propor eleições de administradores em 2022

É preciso ser ingênuo, burro ou nada conhecer sobre os políticos para acreditar no ridículo motivo dado pelo governador Rodrigo Rollemberg ao justificar a demora de três anos para apresentar o projeto instituindo eleições diretas para administrador regional. A versão apresentada por ele: antes de fazer as eleições é preciso realizar concurso para contratar servidores de carreira para as administrações regionais, hoje repletas de funcionários de livre provimento — leia-se, apadrinhados por deputados distritais, outros políticos e amigos dos governantes. E o concurso não foi ainda realizado porque a Lei de Responsabilidade Fiscal impedia.

Fico imaginando se essa desculpa esfarrapada foi bolada pelo governador ou por algum de seus assessores mais próximos, para saber quem é que faz pouco da nossa inteligência. É muito bom que sejam contratados servidores concursados para trabalhar nas administrações regionais, acabando assim com o notório cabide de emprego no governo e exemplo do toma lá dá cá que prevalece na gestão de Rollemberg. Mas a impossibilidade de realizar o concurso não impedia que o projeto fosse apresentado há muito tempo.

Tanto não impedia que com um ano e quatro meses de governo um projeto semelhante foi enviado à Câmara Legislativa. Naquela ocasião, nem se falou na importância de ter servidores de carreira nas administrações. O projeto do governo era muito ruim em todos os aspectos e previa que as eleições diretas seriam realizadas com o pleito de 2018. Foi retirado e só agora foi apresentada a nova versão, marcando as eleições para 2022 — ou seja: mesmo que fosse reeleito, Rollemberg não teria de conviver com os administradores eleitos diretamente.

Tudo isso mostra que o projeto só está sendo apresentado para que o governador possa dizer que cumpriu sua promessa de campanha e tenha uma explicação — ainda que fajuta e ridícula — por ter demorado mais de três anos para propor a medida que só será aplicada cinco anos depois. Como se alguém fosse cair na esparrela eleitoreira e oportunista.

Seria bom que a Câmara Legislativa recusasse esse projeto e deixasse essa decisão para os próximos legisladores. É preciso discutir com mais profundidade e abrangência, com a sociedade, o papel, a estrutura e o grau de autonomia das administrações regionais, a composição e funcionamento dos conselhos comunitários e se eleições diretas de administradores são mesmo o melhor método para democratizar o processo, aumentar a participação popular no governo e acabar de vez com as nefastas práticas da velha política executadas pelos governos anteriores e continuadas pelo atual.

 

 

Nem Rollemberg nem distritais têm legitimidade agora para propor eleições nas administrações

A Câmara Legislativa pode prestar dois grandes serviços aos brasilienses, ainda que essa não seja sua prática rotineira: manter o veto do governador Rodrigo Rollemberg ao projeto do deputado Chico Vigilante que estabelece eleições e mandatos de quatro anos para os administradores regionais; e rejeitar liminarmente o projeto do governador estabelecendo que os administradores serão eleitos diretamente a partir de 2022.

São dois projetos oportunistas, demagógicos e nocivos para Brasília. A discussão sobre o assunto é importante e o processo de nomeação de administradores regionais deve mudar, mas não em ano eleitoral, sem debate com a população e com governador e distritais em fim de mandato. Essa discussão tem de ser levada à sociedade e não pode se limitar ao método de escolha dos chefes das administrações regionais — é muito mais profunda.

O governador levou três anos e um mês para apresentar o projeto de eleição direta dos administradores, promessa feita pelo então candidato Rodrigo Rollemberg. Nesses três anos usou as administrações como moeda para negociatas políticas com distritais, entregando a eles a indicação dos administradores e dos ocupantes de cargos comissionados. Não teve qualquer preocupação com a eficiência das gestões e com a boa prestação de serviços à população. Agora, no fim da gestão, apresenta o projeto para não dizer que não cumpriu a promessa eleitoral. Mas para vigorar em 2022…

Em 16 de maio de 2016 escrevi em minha coluna no Jornal de Brasília:

“A participação da comunidade na escolha de administradores regionais é fundamental. O que não pode é continuar o velho sistema de sempre: as administrações entregues a deputados distritais e a outros políticos como moeda de troca. A sociedade, por isso, tem de discutir intensamente qual a melhor maneira de assegurar essa participação da comunidade. Já que o Distrito Federal não tem municípios e prefeituras, a fórmula a ser adotada terá de ser inovadora.”

” O primeiro debate tem de ser sobre o que deve ser uma administração regional, qual o seu papel, como deve se organizar, como se relaciona com as secretarias e empresas públicas e que território deve abarcar. Esse, obviamente, precede a discussão sobre a eleição do administrador.” (ambos os trechos estão em meu livro Assim é a Velha Política)

Nem os distritais no último ano da legislatura nem o governo no último ano de mandato têm legitimidade para estabelecer o que vigorará para os futuros ocupantes da Câmara Legislativa e do Buriti. Esperaram três anos, um ano a mais não fará diferença. Podem continuar com o toma lá dá cá até dezembro.

 

É mais fácil e cômodo aceitar os números oficiais do que apurar e contestar

Informação oficial: 750 mil pessoas participaram do carnaval de rua em Brasília, “um público abaixo do esperado”, segundo um jornal, pois no ano passado foram 1,5 milhão de pessoas. A imprensa brasiliense, como de costume, não se deu ao trabalho de checar a informação fornecida pelo governo e repetiu os números como se fossem verdadeiros. Mas tudo indica que não são. Nem havia 1,5 milhão de pessoas em 2016 nem 750 mil neste ano.

Na véspera da entrevista, último dia de carnaval, a própria Polícia Militar falava em 330 mil pessoas. Pode ter sido mais, mas esse número foi inflado de um dia para outro para não ficar ainda mais distante dos “quase dois milhões de pessoas” anunciados festivamente, antes do carnaval, por secretários do governo de Brasília. A Agência Brasília repetiu o número obedientemente e a imprensa o agasalhou festivamente.

Não é incomum que governos inventem números que por alguma razão lhes sejam interessantes e que a imprensa os publique como se fossem reais, na condenável prática de não apurar e simplesmente atribuir a informação a uma fonte. Isso vale para informações mais relevantes ou menos importantes. Essas do carnaval são irrelevantes, mas se jornalistas se derem ao trabalho de somar os números apresentados pela PM para cada bloco e dar uma boa margem de acréscimo, porque nem todos os blocos foram computados, não chegarão aos 750 mil. Se tivessem checado as informações em 2016 veriam que as pessoas nas ruas não chegavam aos alardeados 1,5 milhão.

A “frustração”, como disse outro jornal, não significa que o carnaval de rua de Brasília não tenha sido bem sucedido. Ter cerca de 400 mil pessoas nas ruas brincando carnaval em uma metrópole (Brasília e municípios vizinhos) de 4,5 milhão de pessoas é relevante. Não significa também que os blocos não devam ser incentivados como manifestações culturais ou que proporcionam prazer e diversão aos brasilienses e aos que vêm para a cidade. Aliás, talvez tenham vindo mesmo 25 mil pessoas de fora, como diz a Secretaria de Turismo, mas por que nenhum repórter pede para ver a íntegra da pesquisa que dizem ter sido feita? Não é descartável a possibilidade de esse número também ser um chute.

Em minha coluna no Jornal de Brasília em 28 de junho de 2016, e que está no livro Assim é a velha política,  falei da absurda previsão do governo de que 300 mil pessoas viriam a Brasília para assistir a 10 partidas de futebol dos Jogos Olímpicos. Ao apresentar esse número obviamente inflado, mas repetido pela maioria da imprensa brasiliense, o governo procurava justificar o excessivo gasto de R$ 32 milhões com o evento — que, depois, comprovou-se ser um caso exemplar de fracasso de público e dinheiro jogado fora. Os turistas não vieram.

PS: se uma pessoa vai a três blocos, na estatística é contada como três pessoas. Também é bom saber disso.

 

Opiniões: imprensa, redes, política, eleições, MP e Lava-Jato

O Panorama Mercantil publicou uma entrevista minha ao seu diretor e editor Eder Fonseca, que reproduzo. O sítio é http://panoramamercantil.com.br.

Política e imprensa estão mais para água e óleo ou sal e água no Brasil atual?

Sal e água, e água e óleo. A política e a imprensa se completam, uma não existe sem a outra, especialmente se considerarmos a política em sua dimensão mais ampla. Mas é natural que haja conflitos e que muitos políticos não entendam o papel da imprensa ou não aceitem as críticas. É importante que, na interdependência que as une, política e imprensa mantenham seus espaços próprios, sem se misturar. Imprensa é imprensa, política é política…

O senhor acredita que alguns veículos estão fazendo o papel de verdadeiros partidos políticos?

Sem dúvida muitos veículos deixaram de lado os critérios da objetividade e da imparcialidade na apresentação dos fatos para fazer política e proselitismo político, em alguns casos política partidária. Não falo dos espaços de opinião, que devem ser respeitados. Falo dos espaços do noticiário e do debate, que deveriam seguir outra lógica. Veja os convidados da GloboNews, por exemplo: sempre do mesmo lado. Se o veículo tem posição política ou partidária deve deixar isso claro a seus leitores e espectadores, e não fingir imparcialidade. Não gosto de ver veículos presumivelmente isentos dando manchetes e textos editorializados em seus espaços noticiosos. Há outro aspecto, que não é novo na História de nosso país: a imprensa sendo fundamental para a vitória de uma corrente política. Tem sido assim, pelo menos, desde a Proclamação da República, passando por eleições, golpes militares e impedimentos de presidentes pelo Congresso.

As redes sociais trouxeram um novo jeito de fazer jornalismo ou simplesmente reverberam aquilo que já está pautado pelos grandes órgãos da imprensa nacional?

As redes sociais têm um dinamismo e uma interação com o público que os grandes órgãos não têm, mas o que trouxeram para o jornalismo não foi bom: notícias mal apuradas e não devidamente checadas, declarações e descrições superficiais no lugar da apuração e da investigação, textos mal escritos e cheios de erros, falta de contextualização e análise. Além de títulos sem criatividade, burocráticos, preguiçosos. A vantagem das redes sociais é dar a notícia com rapidez e permitir que a audiência interaja, mas o jornalismo tem de ser muito mais do que isso.

O velho jeito fazer política se sofisticou ou teve alguma perda com o avanço da internet e dos seus microblogs como o Twitter?

O velho jeito de fazer política está sendo mais questionado pelas pessoas, que estão mais atentas e críticas, e a internet tem um papel nisso. Os fatos e atitudes que caracterizam a velha política, como a corrupção, o clientelismo e o loteamento da administração pública, são denunciados com mais intensidade e rapidez pelas redes, ganhando grande e imediata repercussão.

Como analisa a Operação Lava Jato?

A corrupção tem de ser investigada, os suspeitos têm de ser processados e os culpados têm de ser condenados. Não interessa quem são, a que partido pertençam, se são ricos ou pobres. A Lava Jato, como as demais operações policiais e do Ministério Público, são positivas e necessárias, desde que realizadas de acordo com o disposto na Constituição e nas leis e respeitando os Direitos Humanos. Aí começam os problemas da Lava Jato, que merece críticas: a espetacularização e os excessos das autoridades, especialmente nas conduções coercitivas, por um lado, e a clara parcialidade política do juiz Moro e dos procuradores, que parecem obcecados em ter provas para condenar Lula ou condená-lo mesmo sem as provas. Não estou dizendo que Lula e outros são inocentes, mas essa parcialidade visível prejudica a credibilidade da operação e leva a questionamentos que colocam em risco o combate à corrupção.

Quais os erros e os acertos da mídia na cobertura desta Operação?

Os maiores erros não são novos, apenas ganharam dimensão maior: confiar totalmente no que dizem as autoridades e reproduzir as declarações e falas em off como se fossem verdades absolutas, sem apurar e investigar, às vezes sem sequer questionar; divulgar imagens e áudios de gravações feitas judicialmente e delações como se já fossem condenações definitivas. Outro erro, menor, é endeusar juízes, procuradores e até o japonês da Federal como celebridades, acima do bem e do mal – o que não são. A imprensa séria não deveria fazer oba-oba. Mas, no meu balanço, os aspectos positivos pesam mais e a imprensa tem um grande papel no combate à corrupção no país. Um papel até pedagógico.
O seu livro

Imprensa: Hélio Doyle com o seu livro “Assim é a Velha Política” (Foto: Divulgação)

Torna-se mais complexo em lidar com os fatos noticiados na imprensa, quando se está envolvido em um cargo público?

O cargo público lhe dá responsabilidades maiores e daí os fatos noticiados na imprensa ganham uma repercussão maior. O problema é que a maioria dos que ocupam cargos públicos não entende ou não quer entender o papel da imprensa em uma sociedade democrática e a dinâmica do jornalismo, sem falar que sequer sabem como um jornal, um portal, um telejornal ou um programa de rádio são preparados e produzidos. Rejeitam as críticas e veem fantasmas onde geralmente eles não estão.

Depois que o senhor participou da política, sua visão a posteriori como jornalista mudou em algum ponto?

Sim, porque vi os fatos a partir de outra perspectiva, do outro lado do balcão, como se diz. Eu considero um privilégio ter sido repórter, editor e colunista, por um lado; assessor de imprensa e consultor de comunicação, por outro; e também fonte, como estudioso de alguns temas, dirigente sindical e partidário, coordenador de campanhas eleitorais em períodos de transição e secretário de governos distritais. Conheci todos os lados e isso influencia, hoje, minha maneira de ver as coisas. E ainda pude ser professor universitário.

A imprensa é o quarto poder ou esse posto foi substituído pelo Ministério Público Federal?

Quando eu era ainda estudante, nos anos 1970, ajudei meu pai, advogado, a preparar uma conferência sobre o jurista Alfredo Valadão, que defendia a tese de que o Ministério Público deveria ser o quarto poder. A partir da Constituição de 1988 o Ministério Público passou a ser efetivamente o quarto poder. A imprensa tem poder, mas não é nem o quinto poder. É bom que o Ministério Público tenha autonomia e poder, mas é necessário também que esteja submetido a controle social, o que não está sendo feito, como deveria, pelo Conselho Nacional do Ministério Público.

Para onde o senhor acredita que caminha o jornalismo brasileiro?

O jornalismo existirá sempre, o problema é que há menos veículos em que o jornalismo é realmente exercido. Bons e experientes profissionais têm dado lugar a jovens nem sempre talentosos e preparados, e muitos veículos estão sendo diminuídos ou fechados. Imagino que teremos um jornalismo de notícias imediatas e entretenimento, superficial e imediatista, por um lado, e um jornalismo de análise e opinião, mais aprofundado, por outro. Os veículos impressos devem desaparecer, mas o jornalismo para ser bom não depende do meio.

O que o senhor espera das eleições presidenciais de 2018 e qual será o papel que considera fundamental por parte da imprensa nesta cobertura em especial?

Nas eleições de 2018 poderemos eleger um presidente capaz de dialogar com o país e retomar o desenvolvimento, mas poderemos também eleger alguém que mantenha o Brasil no atual estado, ou até piore a situação em que vivemos. Seria muito bom que a imprensa pudesse fazer uma cobertura profunda, mostrando quem são os candidatos, o que pensam e o que propõem para o país. Mas investigando, apurando, questionando, não contando só o que vestem e o que comem e publicando declarações vazias e demagógicas. Seria bom também que a imprensa adotasse o modelo estadunidense, pois nem tudo que vem de lá é ruim: posicionamento nos editoriais e noticiário isento e igualitário. A imprensa, se quiser, pode ter um papel muito importante para evitar e denunciar as notícias falsas propagadas pelas redes sociais.

Louca cavalgada em busca de coligações… Para quê? Pode ser para nada

As eleições de outubro, no Brasil e em Brasília, ocorrerão em um ambiente político e social diferente do que existia em pleitos anteriores, e com novidades na legislação eleitoral que criam situações novas para candidatos e eleitores. As consequências disso são imprevisíveis, ainda mais porque as indefinições ainda são grandes. As referências mais próximas são as eleições municipais de 2016 e as eleições extemporâneas para governador, no Amazonas, em 2017.

Parece, porém, que os políticos que se colocam como possíveis candidatos a cargos majoritários em Brasília não estão entendendo esse novo cenário. Há exceções, claro, mas são muitos os políticos continuam raciocinando como se estivéssemos em 2006, 2010 ou 2014. O tempo está passando na janela e eles não estão vendo, absorvidos ainda por velhas fórmulas e velhos paradigmas eleitorais.

A busca desenfreada por coligações partidárias é uma das consequências dessa visão equivocada. Não que a soma de partidos não tenha vantagens: aumenta o tempo de programas e inserções na televisão e no rádio e, para usar a linguagem eleitoral, oferece mais “estrutura” e “capilaridade” aos candidatos. A questão é até que ponto, no atual quadro, vale a pena formar coligações que o eleitorado identifica com a velha politicagem para obter tempo de TV e rádio. Pode ser melhor estar sozinho do que mal acompanhado.

As movimentações de possíveis e candidatos e partidos em busca de alianças a todo custo só provocam a rejeição dos eleitores. “Já está se juntando para nos ferrar”, “os bandidos estão se unindo”, “o que este partido tem a ver com aquele?”, “olha os ladrões unidos” são algumas das frases, com ligeiras variações, ditas pelos eleitores quando veem as notícias e imagens das farofadas políticas e das reuniões de políticos que parecem mais os célebres jantares da cosa nostra.

Esses políticos valorizam excessivamente os horário gratuitos, como se ainda não existisse internet e não houvesse uma clara tendência à queda de audiência. Não que tempo no rádio e na TV não seja importante, mas tudo indica que isso não será decisivo na eleição em Brasília, um território pequeno com apenas dois milhões de eleitores. A rigor, quem realmente precisa de horário gratuito será, para se defender, o governador Rodrigo Rollemberg, óbvio alvo de todos os demais candidatos.

Dois casos nas eleições municipais devem ser lembrados, ambos em metrópoles: Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Alexandre Kalil foi para o segundo turno em Belo Horizonte com apenas 20 segundos na TV e no rádio, enquanto seu opositor, João Leite, tinha 2 minutos e meio – ou 150 segundos. Kalil juntou três partidos pequenos (PHS, PV e Rede), João Leite era apoiado por PSDB, DEM, PPS e PP. No segundo turno, com tempo igual para os dois, Kalil venceu.

Marcelo Freixo, do PSol, coligado com o PCB, foi para o segundo turno, no Rio, com 11 segundos de tempo. Disputou e perdeu para Marcelo Crivela, que tinha três partidos coligados  (PRB, PTN, PR) e 1 minuto e 11 segundos. Ambos foram para o segundo turno derrotando quatro candidatos com tempo maior que os deles: Pedro Paulo (PMDB e mais 15 partidos), 3´30; Jandira Feghalli (PCdoB e PT), 1´27; Indio da Costa (PSD, PMB, PSB), 1´24; Carlos Osório (PSDB, PPS), 1´16.

Pode de nada adiantar ficar juntando partidos em busca de muito tempo na TV, “estrutura” e “capilaridade”. Essa eleição, provavelmente, não será como aquelas que passaram em 2014, 2010, 2006…

 

 

A boa política é necessária, os velhos políticos são todos dispensáveis

Há quem considere que a demagogia é inerente à política. Como há quem entenda que sem loteamento de órgãos e cargos seja impossível governar. E que sem mordomias e privilégios não valha a pena assumir uma função pública. Ou, pior: há quem assegure que todo político e todo governante são corruptos, e os que não são fazem vista grossa.

Pois é possível fazer política sem demagogia, governar sem toma lá dá cá, acabar com as mordomias e privilégios e ser político e governante sem se corromper e sem fingir que não vê a corrupção. Os que dizem que a política é assim mesmo e não há como mudar são os que não querem mudar, pois são os que se beneficiam desses males.

O exercício da política é necessário em qualquer sociedade democrática, mas não a política fundada na demagogia, no patrimonialismo, no fisiologismo, nas mordomias e privilégios e na corrupção. Essa é a má política, que precisa ser combatida e expurgada, e as eleições de outubro são uma boa oportunidade para começar esse processo. Os que praticam a má política são hoje os principais inimigos da boa e necessária política, e têm como aliados os que gostariam de substituir a convivência democrática pelo autoritarismo e pelo domínio da “eficiência” tecnocrática a serviço de elites econômicas.

“A política é o único poder ao alcance dos que não têm poder”, escreveu o jornalista e escritor espanhol Josep Ramoneda. “Não há pior fantasia do que uma sociedade sem política”, diz ele. A política não pode ser jogada no lixo porque muitos a sujaram e ainda a sujam. A superação da má política não será obra dos maus políticos, mas dos que estiverem dispostos a enfrentar os obstáculos por eles colocados para impedir que as coisas mudem e percam seus poderes.

A nova e boa política poderá ser implantada por bons políticos já em atividade e por outros que ousarão enfrentar as barreiras e armadilhas colocadas pelos demagogos, fisiológicos e corruptos para impedir a renovação. O filósofo basco Daniel Innerarity escreveu em A política em tempos de indignação: “Ninguém é intruso por ser um desconhecido no sistema político. Aquilo que pode converter alguém num intruso, no pior sentido do termo, é caso ele pretenda comportar-se na política com outra lógica e tente convertê-la num assunto midiático, num exercício de gestão empresarial ou numa atividade justiceira.”

Ele fala da Europa, mas a frase serve para o Brasil e para Brasília.

 

A via é do DER, o viaduto é da Novacap. Eixão é do DER, Eixinho é do Detran…

Segundo servidores do Departamento de Estradas de Rodagem (DER), não cabe ao órgão, e sim à Novacap, a manutenção do viaduto que desabou no Eixão Sul. Por isso, argumentam, foi injusta a demissão do diretor do DER, Henrique Luduvice. Tanto é que foi a Novacap que assinou, em 2013, um contrato para a restauração do viaduto e da Galeria dos Estados.

De acordo com essa interpretação, o DER é responsável pelas superfícies das vias consideradas rodovias, como o Eixão, mas a Novacap é que tem de cuidar das pontes e viadutos. Lembram que os futuros viadutos na Estrada Parque Taguatinga (EPTG) e na Estrada Parque Indústrias Gráficas (Epig) são de responsabilidade da Novacap.

Quem deveria ser demitido, assim, é o presidente da Novacap, Julio Menegotto. Os servidores do DER reclamam que, além de tudo, Luduvice será substituído justamente por um diretor da Novacap.

Se for assim, a confusão é ainda maior do que a que já envolve o DER e o Detran: o Eixão, por exemplo, é responsabilidade do DER; já os eixinhos. do Detran.

 

Roriz e Arruda nada fizeram. O TCDF avisou. Paulo Tadeu protelou. Agnelo e Rollemberg ignoraram

Demagogia e oportunismo são características da velha política e dos velhos políticos. Esses dois ingredientes, como era inevitável, estão presentes em muitos dos discursos, comentários e entrevistas que têm sido feitos a respeito do desabamento do viaduto no Eixão Sul. Tenta-se “faturar” politicamente o desastre, especialmente para desgastar, em ano eleitoral, o governador Rodrigo Rollemberg e sua gestão. Da parte de políticos, há poucas análises e avaliações sérias e muita retórica vazia.

Tanto o governador quanto seus auxiliares responsáveis pela área têm, sim, responsabilidade pelo que ocorreu. As obras em pontes e viadutos deteriorados e que são riscos para as pessoas não foram priorizadas e não mereceram a atenção necessária. Faltou ao governador reconhecer publicamente esse grave erro, antes de anunciar as tardias medidas posteriores ao desastre. Um governante tem de ter coragem de se autocriticar. Faltou também anunciar uma rigorosa e rápida investigação interna para apurar as responsabilidades, mesmo tendo o diretor do Departamento de Estradas de Rodagem, Henrique Luduvice, sido corretamente demitido.

As pontes e viadutos, porém, não estariam na situação em que estão se os governos anteriores tivessem se preocupado em fazer a manutenção e os reparos necessários. Por isso caem na vala da demagogia e do oportunismo as críticas vindas de políticos que estão e estiveram profundamente vinculados aos ex-governadores Joaquim Roriz, José Roberto Arruda e Agnelo Queiroz. Todos eles optaram por fazer novas obras — que rendem mais popularidade e, como se tem visto, muito dinheiro — e desprezaram as reformas que prejudicariam o trânsito e poderiam causar aborrecimentos à população.

Não tem muito sentido também a exaltação ao Tribunal de Contas do Distrito Federal. A pedido do Ministério Público de Contas, em 2011, os técnicos do tribunal realmente fizeram um ótimo trabalho de levantamento dos problemas nas pontes e viadutos. O governo da época, de Agnelo Queiroz, foi alertado para os riscos, mas pouco fez, a ponto de ser repreendido pelo tribunal. O TCDF, porém, enredou-se em seu formalismo burocrático e não tomou medidas eficazes para exigir dos governos de Agnelo e de Rollemberg a realização das obras. Ficou no cômodo “eu avisei…”

E tem mais: em 19 de fevereiro de 2014 o conselheiro Paulo Tadeu pediu vistas do processo, impedindo sua tramitação. Tadeu só o devolveu no dia 10 de outubro de 2014, dizendo, em poucas linhas, concordar com o voto do relator, Renato Rainha. Passou quase oito meses com o processo na gaveta. Tadeu, antes de assumir a cadeira no TCDF, era deputado pelo PT e secretário de Governo de Agnelo. Pediu vistas no ano eleitoral, quando Agnelo disputava a reeleição, e devolveu o processo cinco dias depois da votação em primeiro turno. Mera coincidência?

 

 

 

 

Dinheiro para manutenção de pontes e viadutos tem, o que faltou e falta é priorizar

Um relatório de auditores do Tribunal de Contas do DF, de 2011, alertou o governo sobre o péssimo estado de viadutos e pontes em Brasília. Em alguns, como o que desabou parcialmente hoje, a necessidade de reparos era considerada urgente. Antes de o TCDF se manifestar vários engenheiros já haviam avisado, pela imprensa, que a população corria riscos devido à falta de manutenção de vias de grande movimento. Mas nem o governo anterior, de Agnelo Queiroz, nem o atual, de Rodrigo Rollemberg, cuidaram do viaduto no início do Eixão Sul.

Rollemberg, em pífia entrevista coletiva, informou que fez o serviço em alguns viadutos, mas não todos, pois não tinha recursos nos três primeiros anos de gestão, corroborando a desastrada fala do diretor do Departamento de Estradas de Rodagem, Henrique Luduvice, que justificou a sua omissão com falta de dinheiro. O governador disse que o governo gastou R$ 67 milhões na reforma de pontes e viadutos, como se isso fosse um grande feito.

Não há desculpa nem para Rollemberg nem para Agnelo, e os conselheiros do TCDF deveriam ser chamados a explicar porque nada fizeram diante da desatenção dos governadores às recomendações de seus auditores. Mas se os engenheiros, pelo menos desde o início deste século, e o tribunal, em 2011, constataram a falta de manutenção, a responsabilidade vem de longe: os governadores anteriores – especialmente José Roberto Arruda e Joaquim Roriz — também não cuidaram das pontes e viadutos. Se tivessem se preocupado com a manutenção, elas não chegariam à situação apontada no relatório. Espera-se que o ex-vice-governador Tadeu Filippelli, que durante 15 anos comandou direta ou indiretamente a Secretaria de Obras em três governos, não venha a fazer demagogia às custas do desabamento.

Quanto à alegada falta de dinheiro, vale uma comparação, ainda que com as devidas limitações: os donos de um imóvel são alertados por especialistas de que a casa está com problemas em algumas vigas e corre o risco de desabar. A reforma vai ser cara, mas os proprietários têm o dinheiro para realizá-la. Eles preferem, porém, gastar em outras coisas. Consertam uma das vigas e deixam as outras para depois, pois querem construir um novo salão, promover festas, comprar carro novo, pagar um professor particular para os filhos e por aí vai. Acontece que um dia uma das vigas não resiste e há o esperado desmoronamento. Felizmente ninguém estava em casa na hora, mas a família poderia ter morrido.

Pois é: não haveria riscos e desabamentos se este governo e os anteriores tivessem aplicado na manutenção de pontes e viadutos o dinheiro que gastaram em residências oficiais e outras mordomias, carros oficiais, inaugurações e eventos eleitoreiros, publicidade ufanista, carnaval de rua, eventos pretensamente “culturais” para agradar distritais, remuneração de servidores comissionados inúteis indicados por deputados, alugueis dispensáveis, viagens de secretários e outros servidores ao exterior e coisas assim. Sem falar no gasto com megalomanias lucrativas (para alguns) como o estádio para 70 mil pessoas.

 

 

Candidatura de Frejat se fortalece e a farofada política-ideológica pode ser ainda maior

Só os rótulos separam os dois grandes blocos de partidos que tentam impedir a reeleição do governador Rodrigo Rollemberg: embora se apresentem como dois grupos com diferenças políticas e ideológicas, os principais líderes de ambos querem mesmo é estar juntos nas eleições de outubro. O problema maior que têm é como acomodar tantos postulantes em uma só chapa.

Um bloco, chamado de direita, reúne PR (Jofran Frejat), MDB (Tadeu Filippelli), PSDB (Izalci Lucas), PTB (Alírio Neto) e DEM (Alberto Fraga). Outro, uma farofada político-ideológica, junta Cristovam Buarque (PPS), Joe Valle (PDT), Rogério Rosso (PSD) e as legendas de esquerda PCdoB e PPL. Navegando entre ambos, mas próximos de Rollemberg, estão o PRB, o PV e o Pros.

O bloco de “direita” parece se encaminhar para uma chapa com Frejat para governador, um vice do MDB, indicado por Filippelli, e Fraga para o Senado, ficando outra candidatura a senador a ser definida. O candidato a governador do outro bloco seria Joe Valle, com Cristovam tentando a reeleição para o Senado. Valle e Cristovam, porém, têm o desejo de estar na chapa de Frejat, como candidatos a vice-governador e senador, respectivamente. Rosso também gostaria de estar, como candidato a deputado federal ou vice-governador, na chapa liderada por Frejat.

A Frejat agrada a ideia de ampliar seu espectro, mas ele não tem como deixar de fora os aliados históricos do tronco Roriz-Arruda. Como a prioridade do MDB é eleger Tadeu Filippelli para a Câmara dos Deputados, para esse partido não seria tão complicado, mas a Fraga e a Alírio não agrada essa composição heterodoxa. Não seria muito estranho, porém, que nas atuais circunstâncias as cadeiras no Senado fossem disputadas, na mesma chapa, por Cristovam e Fraga.

Todo o castelo que está sendo armado pelos caciques partidários de Brasília pode ruir quando os partidos definirem seus candidatos a presidente da República. Afinal, embora irrelevante eleitoralmente em termos nacionais, Brasília não estará à margem da disputa presidencial.