A política é diálogo e negociação transparente, não é conchavo e negociata

Uma tática dos velhos políticos para manter seus esquemas de poder e impedir a renovação é dizer que não há como governar sem entregar secretarias e empresas públicas a políticos e distribuir cargos na administração. O tradicional toma lá dá cá, dizem eles, é essencial para a governabilidade. Alguns até tentam elaborar argumentos pretensamente sofisticados para justificar as práticas e métodos da velha política, mas a maioria cai logo nos lugares-comuns e em explicações rasteiras.

Não é preciso lotear o governo e entregar cargos a afilhados de políticos, geralmente desqualificados e preguiçosos, para governar e ter o apoio do Legislativo. Isso é o que fazem os velhos políticos que tantos males têm causado ao Brasil e a Brasília, pois quem perde com o toma lá dá cá é a população, que vê os órgãos do governo dirigidos por pessoas incompetentes e sem qualquer compromisso público, e ainda por cima envolvidos em irregularidades e corrupção. O Estado perde em eficiência e os serviços públicos são prejudicados por essa prática.

O Executivo precisa do Legislativo e o diálogo e a negociação são partes integrantes da política. Mas isso não precisa levar à promiscuidade entre os dois poderes e à troca de favores ilícitos que, na verdade, desvalorizam a política e o próprio Legislativo. Há como negociar politicamente em outro nível, em torno de programas e ações de governo, atendimento a pleitos legítimos das comunidades e até mesmo com a participação de partidos aliados no governo — mas com base em acordos públicos e transparentes e indicação de pessoas com competência e qualificação para os cargos. Isso é bem diferente do loteamento criminoso que há hoje nos governos de Michel Temer e de Rodrigo Rollemberg.

As relações entre Legislativo e Executivo são naturalmente conflituosas, mas podem ser harmônicas, republicanas e produtivas para a sociedade. No presidencialismo, os três poderes são independentes e por isso tem razão o senador José Antonio Reguffe quando defende que parlamentares não possam ser nomeados para cargos no Executivo, a não ser que renunciem ao mandato. Tem razão também ao dizer que parlamentares não deveriam fazer indicações para funções no Executivo, nem os governantes deveriam aceitá-las, pois isso viola a independência dos poderes.

Os velhos políticos detestam essas ideias e tentam desmoralizá-las como se fossem próprias de ingênuos e sonhadores inconsequentes. Têm horror ao novo, ou porque perderão poder, privilégios, negócios e dinheiro, ou porque não saberão trabalhar em bases sérias, legítimas e republicanas e serão superados. Os velhos políticos, obviamente, preferem continuar no pântano em que estão acostumados a viver.

 

 

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1 comentário

  1. O resultado concreto domodelopolítico adotado no Brasil pode ser visto nas páginas policiais dos jornais, nos seguidos escândalos de corrupção, na compra de votos de parlamentares, e tudo mais. E assim continuará a ser enquanto não mudarmos a prática política, enquanto acharmos que política é a arte da enganação, dos mais espertos. Não, o político tem a obrigação de trabalhar pela e para a sociedade, e não aprovar um projeto porque o líder do partido “acertou” com o governo, com a empreiteira…

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