Paralisação de caminhoneiros é corporativista, perigosa e prejudica a população

Não pude escrever nos últimos dias, ocupado com o trabalho e com os eventos que, na sexta, no sábado e no domingo, reuniram aqui em Brasília mais de 150 ex-alunos do Ciem — o emblemático Centro Integrado de Ensino Médio da Universidade de Brasília, escola que funcionou de 1964 a 1970 e que continuaria moderna e revolucionária nos tempos de hoje. Alguns desses ex-alunos não se viam desde os anos 1960 e 1970 e o reencontro foi emocionante, 50 anos depois do para nós marcante ano de 1968 e do privilégio que é ter estudado no Ciem.

A falta de tempo me ajudou a ganhar alguns dias para compreender melhor e poder escrever sobre a mobilização de caminhoneiros que ainda paralisa o país. Mobilização que em parte é um locaute de empresários do setor, em parte é uma greve consentida de seus empregados e em parte é uma paralisação de motoristas autônomos. Os empresários, os motoristas empregados e os autônomos têm interesses comuns, mas, como é natural, também têm contradições entre eles. Isso se reflete em vários aspectos do movimento, inclusive na falta de um comando centralizado. As lideranças são diversas em termos de entidades representativas, posicionamentos políticos e concepções estratégicas da mobilização — ou da falta de estratégia.

O movimento dos caminhoneiros é corporativista e voltado especialmente para os interesses dos empresários do setor, com reivindicações que atendem também a seus empregados e aos caminhoneiros autônomos. A redução do preço do óleo diesel e a fixação de uma nova política de reajuste, não vinculada às variações do dólar, interessa a todos eles, pois aumenta o lucro das empresas e assegura o emprego e a ocupação dos trabalhadores. Da mesma forma, outras medidas, como a redução das taxas de pedágio e a garantia de mercado para autônomos, são positivas para o conjunto do setor.

Apenas alguns segmentos dos caminhoneiros deram ao movimento um caráter político, uns defendendo a intervenção dos militares, outros pregando a derrubada de Temer, poucos vendo na paralisação nacional uma possibilidade de greve geral de trabalhadores. E todos se aproveitando da total falta de apoio popular ao presidente da República e ao governo, que mostraram claramente fragilidade política e de gestão e incapacidade para administrar a situação crítica, negociar com os manifestantes e encontrar soluções viáveis. Um governo sem legitimidade e incompetente não é capaz de enfrentar com sucesso uma crise dessas proporções.

Setores de esquerda, que se encantam magicamente com a palavra greve e acham que trabalhadores estão sempre lutando pela revolução social, apoiam a mobilização corporativista como se estivéssemos às vésperas da tomada do Palácio de Inverno. Parecem ver no fechamento de rodovias, no desabastecimento de combustível e outros produtos essenciais, nos prejuízos causados aos deslocamentos da população e no fechamento de escolas e postos de saúde um sinal de que vivemos uma greve geral revolucionária. E, raciocinam, se é contra o golpista Temer, é bom.

Esses “esquerdistas” (sim, como as aspas colocadas por Lênin ao falar da doença infantil do comunismo) não enxergam os verdadeiros objetivos da paralisação nem os males que causa à população, direta e indiretamente. É natural que muita gente justamente indignada e revoltada com a situação do país, com a corrupção, com os políticos demagogos e ladrões, com os péssimos serviços públicos, com a alta carga de tributos e com os constantes aumentos nos preços dos combustíveis veja o movimentos dos caminhoneiros com simpatia e aprovação. Afinal, alguém está se mexendo. Mas isso não quer dizer que o locaute-greve-paralisação seja necessariamente positivo para o país e para a população. E, na verdade, não é.

Basta ver que as soluções apresentadas pelo governo para acabar com o movimento, e que beneficiam os empresários e autônomos,  vão prejudicar, e muito, os brasileiros e brasileiras. Para reduzir os preços do diesel e dar outras vantagens ao setor de transporte rodoviário de cargas, sem prejudicar a Petrobrás, haverá queda de arrecadação e, consequentemente, menos dinheiro ainda para saúde, educação e outras áreas. Quando se diz que o Tesouro irá arcar com os prejuízos, leia-se: os cidadãos irão arcar com os prejuízos. Uns poucos ganham, muitos perdem.

Assim tem sido o Brasil, há anos. Os empresários, os servidores públicos e corporações mais bem organizadas e com maior poder de pressão — como igrejas, por exemplo — conseguem mais benefícios (desonerações, subsídios, isenções tributárias, benefícios de todo tipo, aumentos salariais, redução de carga de trabalho e por aí adiante) e isso tem um alto preço, pago pelos cidadãos com menos ou nenhum poder de pressionar os governos. Entre os quais estão, obviamente, os mais pobres e os miseráveis.

O poder de pressão dos caminhoneiros, em uma sociedade democrática, é enorme. Sim, porque se houvesse a intervenção militar que alguns deles pedem, os blindados e os fuzis das Forças Armadas já teriam acabado com o movimento e vários deles estariam presos e provavelmente seriam torturados, ou mortos. Uma paralisação de caminhoneiros, com intenção política e articulada com outros segmentos empresariais, pode derrubar um governo. Os “esquerdistas” que apoiam a atual mobilização deveriam se lembrar do que aconteceu com Salvador Allende.

 

 

Militantes contemporâneos têm o que aprender com maio de 68 e com a Casa de Papel

Fui convidado pelo cineclube da Aliança Francesa para debater o documentário francês Maio 68, uma estranha primavera, de Dominique Beaux. Procurei responder às perguntas dos presentes com objetividade, pois eram muitas questões colocadas e já estava tarde quando a exibição terminou. Mas em dois ou três minutos, por maior que seja a capacidade de sintetizar, muitas vezes não é possível justificar adequadamente uma ideia. Acho que foi o que aconteceu quando uma aluna da UnB perguntou como eu vejo as ocupações e as greves na universidade. Como não houve réplica, não sei o que ela achou — mas deixou o auditório logo depois.

Como disse algumas vezes no debate, cada luta tem de estar contextualizada em seu momento. Não tem sentido parar no tempo e querer repetir, 50 anos depois, sem avaliação crítica e análise da conjuntura e das condições atuais, as formas de luta dos estudantes franceses que ocuparam universidades e foram às ruas em maio de 1968. Os cenários internacional e nacional eram outros, as motivações se adequavam àqueles tempos, os tempos mudaram. Não que essas formas tenham perdido a validade, o que não pode é serem adotadas mecanicamente.

Eu disse, no debate, que não sou favorável a greves de estudantes e ocupações de prédios universitários sem um objetivo claro e eficaz. Não concordo com a greve pela greve, com a ocupação pela ocupação. Não podem ser apenas para autossatisfação da militância ou para cumprir um ritual, tem de haver um resultado, ainda que seja apenas a divulgação do movimento. Disse ainda que não vejo nada positivo em manifestações que prejudicam e irritam a população que, em vez de simpatizar com o movimento, acaba o repudiando e isolando. E apoio da população, como até os ocupantes da fábrica de dinheiro em Casa de Papel mostraram, é fundamental.

Não vejo sentido em fazer greve em uma universidade pública em situação financeira crítica, porque essa greve só prejudicará ainda mais os estudantes e em nada contribuirá para salvar a instituição. Há diversas outras formas de luta, mais eficientes, para protestar e ganhar apoio da população contra as políticas de governo que asfixiam a UnB e para  manter a universidade em funcionamento.  Os que querem acabar com a universidade pública e gratuita devem ficar muito satisfeitos quando veem professores, funcionários e estudantes contribuindo involuntariamente para o objetivo deles de desgastar a instituição.

Ademais, greves podem ser por tempo determinado, curtas, acompanhadas de manifestações com repercussão na opinião pública, e não por tempo indefinido, atrapalhando os estudos e o calendário de vida dos estudantes (formatura, estágio, intercâmbio, viagem). Portanto, não sou contra greves em si, discordo quanto à oportunidade e eficácia real de algumas delas. Também não sou contra ocupações, mas não vejo sentido em ocupar prédios e instalações administrativas da UnB, prejudicando os serviços e impedindo os professores e servidores de trabalhar — ainda mais quando a universidade está sob fogo cerrado de seus adversários. É melhor ocupar as faculdades e institutos.

Quando ocupamos o prédio do Elefante Branco, em 1968, em uma sexta-feira, bloqueamos o acesso às salas de aulas, à biblioteca e à sede do grêmio, no primeiro andar. Não entramos nas salas administrativas e da direção, no térreo. As barricadas eram na escada. Não destruímos nada, pelo contrário: fizemos uma limpeza geral no colégio — piso, paredes, carteiras —  e colocamos para funcionar a biblioteca, fechada há meses. E, ainda sob nossa ocupação, permitimos que alunos e professores tivessem aulas normalmente na segunda-feira — apenas nos dividimos para fazer pequenos discursos antes do início da primeira aula em cada sala. Tivemos apoio dos alunos e a direção negociou, não pediu à polícia que nos retirasse.

Não sou contra greves e ocupações de estudantes, mas formas de luta têm de ser avaliadas em cada circunstância. Sou, sim, contra greves indiscriminadas em serviços públicos, e que causam prejuízos à população, especialmente aos mais pobres e que mais precisam de saúde, educação, transporte e segurança. Acho também um grave erro fechar o trânsito e impedir a circulação, irritando motoristas e passageiros, quando uma grande manifestação pode ser feita sem recorrer a isso.

Sindicatos e entidades estudantis não podem se estagnar e agir como se estivéssemos em outras épocas e outras realidades, e muito menos deveriam se isolar em pequenos grupos militantes distanciados da maioria. Há diversas formas de luta que podem ser mais eficazes e eficientes para os objetivos buscados e para receber apoio da população. Uma boa e aprofundada discussão política e criatividade ajudam a sair da mesmice e encontrá-las.

A “direita” se apresenta dividida agora como estratégia para se unir depois

O senador Cristovam Buarque, do PPS, preocupado com sua reeleição, anunciou hoje que estará numa chapa na qual o deputado Izalci Lucas (PSDB) será o candidato a governador. Não se falou em candidato a vice-governador e à outra cadeira do Senado que estará em disputa. Essa chapa, segundo eles, juntará também PSD (Rogério Rosso), PRB (Igreja Universal e Sara Nossa Terra) e os inexpressivos PMB, PSDC, PSC, Patriota e PSL.

Não é uma plataforma de governo, ou pelo menos diretrizes para um programa, que unem Izalci, Cristovam e esses partidos — são os interesses políticos e pessoais de cada um dos personagens envolvidos. Quem duvidar, pergunte a eles o que farão no governo. As respostas serão óbvias e demagógicas, a mesmice de sempre. Vão criticar o governo de Rodrigo Rollemberg e dizer que é preciso impedir a reeleição dele. E não passarão disso.

O lançamento da chapa Izalci-Cristovam está obviamente identificado com a candidatura a presidente do tucano Geraldo Alckmin, mas o anúncio de hoje cumpre uma estratégia combinada com o candidato Jofran Frejat, que é do PR, partido que ainda não definiu quem apoiará na eleição nacional. Os dois blocos continuarão a conversar, enquanto aguardam as definições de alianças para presidente da República, mas praticamente já acertaram a união em uma chapa que terá Frejat para governador, Izalci como seu vice e Cristovam e Alberto Fraga (ou Paulo Octávio) para o Senado. Não é à toa que não se falou em vice e na outra cadeira ao Senado. Estão fora dessa articulação, por enquanto, Alírio Neto (PTB) e Eliana Pedrosa (Podemos), ambos autoproclamados candidatos a governador.

Continuam, pois, as negociações no bloco político que tem sua origem em Joaquim Roriz e José Roberto Arruda, identificado como a “direita” em Brasília, e que agora ganhou a adesão do ex-petista e ex-pedetista Cristovam Buarque. Espera-se que eles, depois de acertarem seus projetos pessoais, digam aos brasilienses, na campanha, o que pretendem fazer no governo e no Senado.

Em tempo: o governador Rodrigo Rollemberg diz que não quis passar a impressão de que em sua visita ao senador Reguffe recebeu o apoio dele, nem “plantou” nota sobre isso em coluna. Acredito e retifico o que publiquei.

 

E lá vai Cristovam atrás de nova coligação, tudo por sua reeleição

Os políticos tradicionais de Brasília, apegados a seus interesses particulares e exercendo plenamente o que aprenderam nas escolas da velha politicagem, correm de um lado para outro procurando formar coligações para disputar as eleições de outubro. Devem estar engordando, tantos são os cafés da manhã e da tarde, almoços e jantares que fazem para dividir os cargos em disputa. Precisam simular seriedade e posar bem para as fotos que enviam para colunas e blogs amigos, tentando passar a impressão de que estão debatendo temas importantíssimos para a cidade.

Pois não estão. As discussões que fazem são em torno de pessoas, nomes. Quem vai ser candidato ao governo, quem vai para o Senado, como serão as chapas para deputado federal e deputado distrital. Nada falam de programa ou plataforma de governo, de metas, de ações. Em alguns casos, já estão loteando o “futuro” governo, definindo a quem caberão indicações, especialmente para secretarias e empresas rentáveis — acho que dá para entender para quê.

O senador Cristovam Buarque, do PPS, está fazendo um papel ridículo, correndo como barata tonta em torno de possíveis candidatos ao governo para viabilizar sua reeleição. Sem nenhuma experiência como articulador político, pois sempre teve quem articulasse para ele, tentou a farofada que juntava do PCdoB ao PRB, buscou o grupo que presumivelmente juntaria Alírio Neto (PTB) com Izalci Lucas (PSDB), agora tenta se unir a Jofran Frejat (PR). Tem de garantir sua reeleição a qualquer custo, até mesmo de sua coerência. Afinal, posa de padrão de honestidade.

Em torno de que se aliam esses políticos? De seus projetos pessoais, principalmente. Só sabem fazer o discurso fácil de que é preciso derrotar o governador Rodrigo Rollemberg e “salvar” Brasília. Rollemberg, por sua vez, dedica-se a aproveitar a estrutura de governo para fazer campanha antecipada, com muita demagogia, e também sem dizer o que fará para não repetir o mau governo por mais quatro anos. Já sabe que estão sobrando poucos partidos para apoiá-lo.

A verdade é que os velhos políticos continuam com suas práticas nefastas e não se atualizaram. Cada um cuida de seu projeto pessoal e os partidos não têm nenhum significado para eles, a não ser a sustentação financeira de suas campanhas. Não estão entendendo o que acontece no país e em Brasília e acham que o desalento da população levará o eleitor à inércia e assim se elegerão. O pior é que isso pode dar certo para eles, e errado para os brasilienses.

Em tempo: Rollemberg, em sua pré-campanha pela reeleição, visitou o senador José Reguffe em casa e divulgou texto simpático a ele. Quis passar a impressão de que Reguffe o apoia. Valeu até publicar foto de quatro anos atrás. Demagogia e enganação também são típicos da velha política.

 

 

Possibilidade de reeleição deveria acabar, para o bem do povo e dos maus governantes

A possibilidade de reeleição para presidente, governador e prefeito surgiu no Brasil, em 1997, como um casuísmo para beneficiar o então presidente Fernando Henrique Cardoso. Foi aprovada no Congresso graças à pressão dos aliados do governo e à compra de votos de parlamentares. Até então, os mandatos nos executivos eram de cinco anos, sem reeleição. Agora são de quatro anos, renováveis por mais quatro.

Há diversas propostas para acabar com a reeleição e esse poderá ser um dos temas para debate depois das eleições de outubro. Embora possa ser defendida em tese, pois a recondução do governante depende do voto popular, a reeleição tem inúmeros aspectos negativos. A começar pelo fato de que, no primeiro mandato, os presidentes, governadores e prefeitos se dedicam mais a preparar suas reeleições do que a governar efetivamente. Já tomam posse de olho nas urnas.

Ao se candidatar à reeleição, um governante já sai com grande vantagem sobre seus oponentes, mesmo que sua gestão esteja sendo um desastre. Pode nomear e exonerar, liberar (ou não) verbas, assinar (ou não) contratos, cumprir agendas eleitoreiras, fazer demagogia com dinheiro público, montar equipe disfarçada de campanha com servidores pagos pelo Estado, e aí por adiante. Tem a “máquina” e a “caneta”, como se diz na linguagem dos políticos.

Seria muito bom que acabasse a possibilidade de reeleição e os mandatos voltassem a ser de cinco anos. Bom para a democracia, para a igualdade de oportunidades entre os candidatos, para a gestão pública e para a população. E bom também para os governantes que não conseguem se reeleger, pois a derrota é um atestado público de mau governo. O então governador Agnelo Queiroz sequer passou para o segundo turno. O presidente Michel Temer dificilmente se arriscará a disputar a reeleição. O governador Rodrigo Rollemberg deveria pensar bem nisso, ainda há tempo.

Em tempo: em 1997 eu era filiado ao PT e me opus à reeleição de Cristovam Buarque — por ser contra o instituto e por considerá-lo um mau governador. Defendia, então, a candidatura da vice-governadora Arlete Sampaio. Deixei o PT em 1998, quando a candidatura de Cristovam foi definida pelos iludidos petistas que contavam com mais quatro anos de governo. A derrota foi o castigo ao oportunismo.

Ao frustrar desejo de renovação, grandes partidos se afastam ainda mais dos eleitores

A manchete de O Globo de hoje mostra uma realidade do momento político em que vivemos: “Partidos frustram demanda por renovação”. Segundo a chamada, “forças tradicionais da política e clãs regionais dominam o pleito, apesar da busca do eleitorado por caras novas”. Entre os tradicionais que disputam as eleições para governador estão 15 que disputam a reeleição e 23 senadores. Em resumo: os partidos, em sua maioria esmagadora, estão aumentando ainda mais a distância deles em relação aos eleitores. Podem ter vitórias de Pirro em outubro.

Na matéria de Silvia Amorim e Sérgio Roxo o primeiro parágrafo diz tudo:

“As forças partidárias tradicionais ignoraram a demanda popular por renovação na política e vão oferecer aos eleitores este ano os candidatos de sempre a governador. A exemplo da disputa presidencial, os outsiders — nomes de fora do mundo político profissional e tradicional — serão minoria nas disputas estaduais e vocacionados  a figurantes pelo baixo potencial competitivo”.

Isso porque os candidatos que realmente podem representar a renovação de práticas e métodos, à esquerda, no centro e à direita, estão em partidos menores ou recém-criados, como o PSol, a Rede e o Novo, que têm pouco dinheiro e estrutura, escasso tempo na TV e, alguns, sequer participarão dos debates.

A matéria cita o cientista político Carlos Melo, do Insper: “Há demanda por renovação, mas a questão é que as regras do nosso sistema político não foram renovadas.” Outro cientista político, Sérgio Praça, da FGV, coloca como fator limitativo o custo das campanhas, que pode ser arcado apenas por partidos grandes, justamente os que preferem manter os velhos políticos como candidatos. Melo diz que “nas oligarquias partidárias, política tem fila”. A divisão dos recursos dos fundos partidário e eleitoral, pelos partidos, tende a beneficiar quem já tem mandato.

Brasília é uma demonstração de que a velha política está predominando nas eleições para governador. Dos possíveis candidatos colocados até agora, a maioria representa as oligarquias e os métodos tradicionais e antiquados de governar e fazer política: Jofran Frejat (PR), Alirio Neto (PTB), Izalci Lucas (PSDB), Wanderley Tavares (PRB) e Rodrigo Rollemberg (PSB). De novidade, até agora, há apenas Fátima de Souza (PSol), Alexandre Guerra (Novo) e o general Paulo Chagas (PRP), cada um em seu campo ideológico.

Além de não saberem interpretar as pesquisas e entender a realidade, os grandes partidos estão ignorando que Brasília é uma cidade com dois milhões de eleitores que têm alto grau de educação e informação e estão distribuídos em um território pequeno. Não é difícil que deem, em outubro, um basta à velha politicagem.

 

Velhos políticos devem, em outubro, ser mandados para a casa ou para a prisão

Não sei se o ministro Joaquim Barbosa seria um bom candidato, se seria eleito e se seria um bom presidente da República. Como ele desistiu da candidatura que nunca houve, não vamos saber o resto, pelo menos até 2022 e 2023. Mas, independentemente disso, não há como não concordar com o que Barbosa disse em entrevista à jornalista Maria Cristina Fernandes, do Valor Econômico, que tem um título que sintetiza o momento pré-eleitoral em que vivemos: esta eleição não vai mudar o Brasil. Como mostra Barbosa em sua entrevista, os políticos com mandato prepararam tudo para que nada mude.

Disse Joaquim Barbosa:

  • “Os políticos criaram um sistema político de maneira a beneficiar eles mesmos. O sistema não tem válvula de escape. O cidadão brasileiro vai ser constantemente refém desse sistema. Você não tem como mudá-lo. Esse sistema contém mecanismos de bloqueio que servem para cercear as escolhas do cidadão.”
  • “O sistema foi feito para cercear escolhas. Por que um cidadão tem que se filiar seis meses antes? É um absurdo que o país não permita candidaturas avulsas. Deixa de fora uma grande quantidade de pessoas.”

Minha única discordância é quanto à impossibilidade de mudar esse sistema pernicioso e corrupto que comanda a política no Brasil. É claro que isso não dará de uma tacada, nem nas próximas eleições, que não vão mesmo mudar o Brasil na dimensão necessária. Mas é possível dar alguns passos no sentido da mudança e certamente haverá, a partir de 2019, uma pressão maior para que se realize uma verdadeira reforma de nossos sistemas político e eleitoral.

Para isso, é preciso eleger em outubro candidatos que representem a mudança e a renovação, apesar de todas as dificuldades impostas por leis e normas injustas e que favorecem os que têm mandato, dão aos partidos um absurdo controle sobre os direitos dos cidadãos e privilegiam os candidatos que têm dinheiro — próprio, ilegal ou proveniente dos fundos controlados pelos caciques partidários.

O cidadão brasileiro pode deixar de ser refém do sistema se, em outubro, mandar para casa ou para a prisão a maioria dos atuais detentores de mandatos executivos e legislativos e eleger os que efetivamente querem substituir os velhos métodos e as velhas práticas que só beneficiam os políticos demagogos, picaretas e corruptos por novas formas de pensar e fazer política. Há alguns possíveis candidatos com esse perfil, da centro-direita democrática à extrema-esquerda, é só escolher de acordo com o perfil de cada um.

Joaquim Barbosa está certo na análise, mas é possível mudar, sim.

 

Profissionais das campanhas eleitorais fundam entidade e querem reforma política verdadeira

A solenidade de lançamento do Camp — Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político — foi uma oportunidade para conversar, na semana passada, com experimentados profissionais da área, vindos de diversas cidades. Os relatos levam à conclusão de que o cenário político e eleitoral, em outros estados, em essência, não é diferente do de Brasília. Os componentes são os mesmos: desalento e desesperança dos eleitores, altíssimo percentual de intenções de abstenção, voto em branco ou nulo, indefinições sobre candidatos e coligações e a perspectiva de uma campanha eleitoral que não se sabe como será — mas que, pelas regras vigentes, beneficia descaradamente os candidatos no cargo ou exercendo mandato.

O Camp é a primeira iniciativa bem-sucedida de reunir os que trabalham em campanhas eleitorais e na comunicação política. Sou um dos fundadores. Como bem escreveu outro fundador, Mário Rosa, em www.poder360.com.br/opiniao/eleicoes,  o Camp não é composto só por “marqueteiros”, mas “reúne toda a mão de obra que orbita o planeta das campanhas: pesquisadores de diversas áreas, publicitários, jornalistas, estrategistas e por aí vai”. O objetivo é o exposto pelo jornalista Gabriel Priolli, que não é da área, em nocaute.blog.br: “Defender os profissionais da comunicação política e eleitoral, e a própria atividade, ameaçada de todos os lados por preconceito, oportunismos, cretinice e desinformação”.

Os integrantes do Camp, presidido por Bruno Hoffman, aqui de Brasília, pretendem não só defender a atividade e seus profissionais como colaborar ativamente para melhorar o cenário político do país, tendo em vista o aprofundamento da democracia e a melhor qualidade dos eleitos. Sem democracia, aliás, não existiriam esses profissionais. O Camp quer participar dos debates para implantar, a partir de 2019, uma verdadeira e necessária reforma política e eleitoral, pois o sistema e as normas vigentes estão falidos e só servem para manter o status quo corrupto e nocivo.

O que estamos vendo nesse período pré-eleitoral é que a legislação matreiramente aprovada pelos senadores e deputados favorece os que já têm mandato, seja executivo ou legislativo, em detrimento dos que não têm ou que disputam eleições pela primeira vez. Os que têm mandato dispõem de gabinetes parlamentares, máquina administrativa, “caneta”, verba indenizatória, dinheiro para publicidade e outras vantagens — como a campanha e o tempo de TV reduzidos e o domínio do dinheiro pelos caciques partidários —  que os colocam, numa corrida de mil metros, largando 500 metros à frente dos demais.

Nem por isso os candidatos novos, especialmente os que defendem outras formas de pensar e fazer política, devem desanimar. É possível, mesmo em desvantagem, derrotar os velhos políticos e suas práticas velhacas e iniciar um processo de renovação urgente e necessário. O novo, a partir de 2019, vai conviver com o velho, até superá-lo definitivamente. É questão de tempo.