A péssima novela joevalleana do PDT agora só acompanho, felizmente, como jornalista

Publiquei ontem meu primeiro artigo sobre as eleições para o Metrópoles (http://www.metropoles.com/ponto-de-vista/a-desistencia-de-frejat-ainda-e-uma-historia-malcontada ). Desde 1986 é a segunda eleição em Brasília que acompanho apenas como jornalista, sendo que, na verdade, em 1998 acompanhei apenas como cidadão, pois era editor de Mundo do Correio Braziliense, sem qualquer envolvimento com as questões locais. A eleição que acompanhei mais de perto nesse ano foi na Alemanha, onde já havia feito a cobertura das eleições de 1976 para a Rede Globo.

Para evitar conflitos de interesse e questionamentos quanto à minha isenção ao escrever para o Metrópoles, desfiliei-me do PDT.  Mas, na verdade, nada mais tinha a fazer nesse partido, ao qual havia me filiado em 7 de abril com o propósito declarado de ser candidato a governador. Dois dias antes o deputado distrital Joe Valle havia anunciado que desistia de sua candidatura ao governo de Brasília, alegando razões familiares e empresariais. Há pelo menos uma semana eu já ouvia os rumores de que isso aconteceria e comentei com diversas pessoas, entre as quais o distrital Chico Leite. Valle deixou claro, ao renunciar, que só aceitaria a candidatura ao Senado na chapa encabeçada por Jofran Frejat.

A ideia ao me filiar, defendida ou apoiada por pessoas ligadas ou não ao partido — entre os quais seu presidente, George Michel — era de que eu substituísse Valle, já que parecia óbvio, diante da história e das posições políticas do PDT, que seus dirigentes e militantes insistiriam em uma candidatura própria ao governo, especialmente tendo em vista assegurar palanque local a Ciro Gomes, e não admitiriam uma aliança com a chapa que representava os interesses do bloco de centro-direita liderado por José Roberto Arruda e Tadeu Filippelli.

Minha candidatura, como se comprovou poucos dias depois em conversas com seus dirigentes, poderia ter o apoio da Rede, do PCdoB, do PPL e do PT. A coligação com os petistas, porém, foi rejeitada liminarmente pelo presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, em conversa que tivemos na presença de George Michel. Em duas conversas com Lupi, aliás, verifiquei que ele analisava o cenário eleitoral em Brasília com base na visão distorcida, equivocada e interessada de Valle. Disse isso a ele, que retrucou: “Então só você está certo?” Respondi que certamente não só eu, mas que eu estava certo, sim. E Valle, errado.

Na verdade, a maioria dos membros da executiva regional do PDT apoiava as tentativas de Joe Valle de se abrigar na chapa de Frejat. Essa posição tinha respaldo em alguns filiados, como pude verificar em grupo de Whatsapp que reunia os pré-candidatos. Um deles, por ingenuidade ou, mais provavelmente, por ignorância, admitiu o fisiologismo ao dizer que estar com o grupo de Frejat garantiria, mesmo diante de uma derrota de Valle, o controle pelo partido de secretarias das áreas sociais e da cultura. Para eles, a eleição de Frejat estava garantida.

Valle conseguiu, com a conivência de Lupi — que provavelmente queria ganhar tempo para definir as alianças nacionais de Ciro Gomes — adiar sucessivamente os prazos que pedia para chegar a um entendimento com o grupo de Frejat. Isso levou filiados que queriam a candidatura própria e rejeitavam coligações com Frejat e Rollemberg, a formar um grupo que, no mesmo dia em que foi anunciado, passou a ser reprimido por alguns membros da executiva, que chegaram a ameaçar pré-candidatos de não serem aprovados na convenção.

Nos dois meses e meio em que estive filiado ao PDT fui convidado para uma só reunião, de pré-candidatos, na qual repetidamente a poderosa secretária-geral do partido dizia que não estávamos ali para discutir política, mas para receber instruções de advogados e contadores. Participei de outra reunião, mas essa solicitada pelo grupo defensor da candidatura própria: pudemos pelo menos defender nossa posição diante do presidente, da poderosa secretária-geral e de dois membros da executiva que acumulam essas funções com a de funcionários de Joe Valle.

Esperava encontrar no PDT um ambiente favorável ao debate político, à análise de conjuntura, à formulação de um programa de governo. Esperava poder expor minhas posições e defendê-las, em discussões francas e distantes do ambiente de agressões e intolerância que vivemos, especialmente nas redes sociais. Em um clima de democracia interna, aceitaria disciplinadamente, como é da minha formação política desde os tempos de militância na Ala Vermelha, as decisões que fossem tomadas.

O que vi, porém, foi um partido em que não há debate, em que nada se faz sem a aprovação de Carlos Lupi e dominado localmente por um grupo de seguidores do distrital Joe Valle, que colocou o partido em função de seus interesses e de seu projeto político pessoal. Eu e outros participantes do grupo de pré-candidatos fomos dele excluídos pela poderosa secretária-geral porque manifestávamos nossas posições e ela, coerente com sua natureza burocrática e autoritária, dizia que ali não era lugar para isso. Não dizia, claro, onde poderíamos debater.

Como Valle, depois de quase três meses mantendo o PDT imobilizado, não conseguiu se alojar na chapa de Frejat,  inventou-se um motivo para ele ficar menos mal: a presença do deputado Alberto Fraga na coligação. Criou-se o discurso de que o PDT não poderia estar ao lado de Fraga, por divergências ideológicas e políticas. Na verdade essa foi uma falsa justificativa para o fracasso, construída quando já se sabia que o projeto de Valle não daria certo.

Depois que a aliança com a direita gorou, e quando eu já havia anunciado que não seria candidato, Valle e sua turma passaram a defender ferrenhamente a candidatura própria, mas apenas para tentar impedir que uma possível aliança nacional do PDT com o PSB pudesse levar o partido a apoiar a reeleição do governador Rodrigo Rollemberg. Lançaram às pressas o ex-deputado Peniel Pacheco como candidato ao governo, mais uma vez sem qualquer debate interno, e Valle se dispôs a ser candidato ao Senado, voltando atrás do que havia afirmado inúmeras vezes, inclusive a mim: a única hipótese que admitia era ser candidato na chapa de Frejat.

Tenho forte desconfiança de que o lançamento da chapa Peniel-Valle não é para valer, mas posso estar errado e esse assunto agora só me interessa como colunista do Metrópoles. Vou acompanhar os desdobramentos, felizmente, apenas como jornalista.

 

 

Desempenho dos candidatos em debate explica por que 70% não tem candidato

Estou há dias sem escrever, de novo. O primeiro motivo continua sendo a falta de tempo, mas senti-me desestimulado a escrever sobre o cenário político de Brasília para manter o silêncio obsequioso em relação ao PDT, partido ao qual — conforme informei aqui — me filiei em abril. Nos últimos dias, a única novidade relevante no campo político era o fracasso das negociações que o PDT entabulou durante três meses com Jofran Frejat e sua turma e o lançamento pela executiva do partido, finalmente, de um candidato a governador, o ex-distrital Peniel Pacheco. Há no PDT, porém, a possibilidade de uma aliança nacional com o PSB que leve a seção local a apoiar a reeleição do governador Rodrigo Rollemberg. Mas esse é um tema sobre o qual escreverei mais adiante.

Volto a escrever hoje para falar um pouco do primeiro debate entre os pré-candidatos ao governo de Brasília, promovido pelo Metrópoles com apoio das federações do comércio (Fecomércio) e da indústria (Fibra). Estranhei um pouco estar pela primeira vez no local de um debate na condição de espectador, pois em quatro eleições estava assessorando um candidato (1994, 2002, 2006 e 2014) e nas outras três (1990, 1998 e 2010) assisti aos confrontos pela televisão.

Colocando-me na posição dos cerca de 70% dos eleitores que ainda não optaram por nenhum dos candidatos e pensam em se abster ou anular o voto, o debate não provocou mudança nessa intenção. Nenhum dos candidatos mostrou algo que pudesse mudar essa opinião. Como observador político, porém, preciso considerar algumas atenuantes: foi o primeiro debate da temporada e pela primeira vez cinco dos sete candidatos se viram naquela situação tensa; as falas deles eram a todo momento interrompidas por vaias e aplausos das claques, o que dificulta a concentração e o foco, especialmente de quem não está habituado. E ainda faltaram os candidatos do PT, ainda não lançado, e do PDT — que foi apresentado quando o debate já estava estruturado.

Todos os candidatos mostraram-se despreparados para se apresentar ao eleitor, na forma e no conteúdo. Não prepararam bem nem as perguntas nem as respostas, perderam oportunidades, divagaram. Nenhum se destacou especialmente e isso possibilitou ao governador Rodrigo Rollemberg não se sair mal — sem se sair bem — diante dos ataques de seis oponentes e da plateia por eles levada. O auditório lotado fez com que os sete se dirigissem aos barulhentos presentes e não aos que poderiam estar assistindo em vídeo ou áudio. É claro que em uma transmissão em canal de televisão aberta a postura tem de ser outra.

Pelas falas dos candidatos deu para prever qual será a estratégia de cada um, mas deu para ver também que a maioria precisa rever suas estratégias. Os políticos tradicionais — Rollemberg, Jofran Frejat, Eliana Pedrosa e Izalci Lucas — repetiram chavões de políticos tradicionais, naturalmente, e só se diferenciam porque o primeiro é situação e os demais são oposição. Frejat, desconhecendo que os eleitores não acreditam mais em promessas mirabolantes, anunciou a criação de uma universidade pública, sem informar de onde sairão os recursos para isso. Os que se apresentam como renovadores — Fátima Sousa, Alexandre Guerra e Paulo Chagas — não conseguiram mostrar com clareza o que e como farão diferente, mas pelo menos os três deixaram claro onde se situam no espectro político.

O debate de ontem, grandioso e bem organizado, foi apenas um ensaio, ou um jogo de pré-temporada. Os candidatos que souberem entender onde erraram e corrigirem os erros poderão se sair melhor nos próximos.