O governador vai a São Paulo, mas sua agenda esconde

A agenda pública do governador Rodrigo Rollemberg cita um único compromisso hoje: às 19h, divulgação do balanço do BRB. Mas o governador e o secretário de Comunicação foram a São Paulo para almoçar com diretores da Rede Record, a emissora da Igreja Universal do Reino de Deus. Passaram praticamente todo o dia fora de Brasília.

É óbvio que uma viagem do governador para outra cidade, ainda mais custeada com dinheiro do Estado, tem de estar na agenda pública. Mas transparência e informação não são exatamente uma preocupação dos que seguem a velha política e a velha comunicação.

 

Uma história banal: o secretário apertou o governador — “ou ela ou eu” — e a subsecretária foi demitida

Perguntam-me por que a subsecretária de Publicidade, Thiara Zavaglia, foi demitida pelo governador Rodrigo Rollemberg e o que isso significa para o governo. Acho natural que perguntem: Thiara já trabalhava com Rollemberg no Senado, foi peça importante do núcleo de comunicação na campanha eleitoral que coordenei e comandava a publicidade do governo desde o início do mandato, quando eu era o responsável pela comunicação. Sua queda, é claro, surpreendeu.

Ninguém espera que os veículos de imprensa contem a história além do mero registro, pois quase todos dependem da verba publicitária do governo e temem a caneta de quem armou a queda de Thiara — o secretário de Comunicação, Paulo Fona. Que, ignorando uma das características do líder, detesta a ideia de ter a seu lado alguém mais competente que ele. Outra característica de um líder, aliás, é não gritar histericamente com subordinados, ofendê-los e constrangê-los com frases como “não perguntei sua opinião”.

Os motivos para a demissão da subsecretária de Publicidade são claros: o secretário tem agora o campo totalmente livre para fazer o que quiser na área, pode ajudar os amigos e executar, sem críticas que ferem sua extrema vaidade e afloram sua forte insegurança, as práticas e métodos da velha e superada comunicação governamental da qual é adepto.

Thiara, por diversas vezes, impediu que o secretário fizesse o que a lei e as normas não permitem e mostrou os erros de comunicação e de técnica publicitária que seriam cometidos (e muitos foram) caso prevalecessem as ideias dele. Um dos últimos choques entre eles foi porque os executores do contrato de publicidade, corretamente, notificaram uma das agências contratadas por não estar pagando em dia seus fornecedores. Como se sabe, o secretário, antes de assumir o cargo, trabalhava nessa agência — o que deveria impedi-lo de exercer a função na secretaria contratante.

Embora tivesse de se submeter às ordens do chefe, Thiara era a derradeira resistência no governo à velha comunicação, irmã da velha política. Era a última integrante da equipe que montei, em 2015, com a disposição e talento para superar os antigos e ultrapassados manuais da comunicação governamental e executar políticas e ações sintonizadas com os novos tempos que vivemos e com a — hoje se sabe enganosa — promessa do governador de ter atitude para mudar. Essa equipe foi mantida pelos  antecessores do secretário, mesmo tendo diferenças de opiniões com o último deles, mas desmontada desde que ele assumiu o posto. Apenas Thiara havia ficado, talvez pela ligação antiga com Rollemberg, pela confiança que ele tinha nela ou porque o secretário pouco entende de publicidade. Mas desde os primeiros momentos no cargo já se armava a queda dela.

O governador Rodrigo Rollemberg durante muitos meses viu a movimentação do secretário para derrubar a subsecretária e nada fez para impedir o desgaste: nem mediava a situação nem ousava, no limite, demitir um dos dois. Parecia acreditar piamente nas mentiras, fofocas e versões que o secretário lhe levava para queimar a subsecretária, mas mesmo assim a mantinha no cargo. Foi preciso muita insistência de alguns amigos que conhecem bem o modo de agir do secretário para que Rollemberg finalmente ouvisse o que Thiara tinha a dizer. Ouviu há duas semanas e até pareceu entender a situação artificial criada pelo secretário, mas acabou cedendo ao ultimato “ela ou eu”.

 

 

 

 

 

Três anos de mesmo do mesmo no metrô velho e obsoleto

Em 2015 uma composição do metrô parou na via e centenas de passageiros saíram caminhando pela ferrovia, antes que fosse desligada a energia de 750 V C/C. Preocupados, dois especialistas em transporte que já haviam trabalhado no metrô procuraram o governador Rodrigo Rollemberg e o alertaram para o risco da situação, pois poderia ter havido muitos mortos. Rollemberg pediu que eles conversassem com o presidente da Companhia do Metropolitano, Marcelo Dourado, que os recebeu. Nessa reunião e posteriormente em uma carta, eles mostraram a Dourado, ponto a ponto e em linguagem técnica, problemas que viam no metrô. “Não pode o GDF esperar uma catástrofe de imensas proporções”, avisaram.

Na avaliação desses técnicos, o metrô passava por uma crise extrema que exigia ações rápidas e profundas. O sistema, velho e tecnologicamente obsoleto, tinha de ser imediatamente recuperado e revitalizado. Isso foi em 2015, e de lá para cá praticamente nada foi feito, a não ser algumas ações pontuais. Por várias outras vezes o governador foi alertado, mas nada acontecia. Agora, depois do descarrilamento, já se noticia que o metrô de Brasília tem a média de um problema no funcionamento a cada cinco dias.

É normal que a operação do metrô seja altamente deficitária e por isso subsidiada pelos cofres públicos, e é notório que o Estado tem baixíssima capacidade para investir no sistema. Mas é exatamente isso que deveria fazer o governo realizar um diagnóstico técnico profundo e qualificado sobre o metrô, levantando os problemas reais e a partir daí propondo soluções viáveis para assegurar não só o seu bom funcionamento, com eficiência, conforto e segurança, como também o aumento da demanda — que, certamente, não será estendendo a linha em Samambaia, como equivocadamente vai fazer a atual gestão.

O atual governo teve três anos para cuidar do metrô, mas se omitiu, aceitou “soluções” simplistas e corporativistas e deixou que a situação, que já era muito ruim, piorasse. Muitas promessas foram feitas, quase nada se realizou. Felizmente, nos dois incidentes mais graves, não houve vítimas.

 

O blog voltou, e assuntos não faltam

Depois de quase três dias fora do ar, nosso blog voltou. O problema, dizem os técnicos, foi no servidor. Nada de invasões, hackers ou sabotagens, como alguns suspeitaram. É natural que se pense assim atualmente, tantas são as notícias de fatos semelhantes.

Hoje já poderia postar, e assuntos não faltam: o descaso do governo e da companhia responsável com o metrô (Rollemberg e Marcelo Dourado, avisados por especialistas, sabem dos problemas desde 2015), a briga de Jofran Frejat com seus colegas do tronco rorizista-arrudista (real ou encenada? Frejat querendo mudar o passado?), o lançamento da candidatura de Valmir Campelo ao governo (o que quer o PPS, pronto para se aliar nacionalmente ao PSDB?), a agenda cada vez mais eleitoreira do governador (sobra tempo para trabalhar de verdade?), a Câmara Legislativa fingindo que vai reduzir despesas (corta aqui, aumenta ali).

Mas hoje não terei tempo para postar, fica para amanhã.

 

Não há favoritos quando 65% dos eleitores não querem votar em nenhum dos postulantes

Muitos perguntam quem é o favorito, ou quem vai ganhar as eleições para governador em outubro. Quem responder proferindo o nome de um possível candidato pode ser classificado em uma dessas situações: 1) simpatiza ou trabalha para esse candidato; 2) nada entende de política e de eleições; 3) está isolado do mundo e não vê o que acontece à sua volta; 4) é astrólogo, vidente ou exerce atividades assemelhadas.

Não há favorito e muito menos algum candidato, em Brasília, no qual se possa apostar na vitória. Na verdade, não se sabe sequer quem serão mesmo os candidatos. Muitos se colocam para a disputa pelo governo, mas alguns deles acabarão nas listas para o Senado ou para as câmaras. Os únicos que podem ser considerados já definidos por seus partidos são os ainda desconhecidos Alexandre Guerra, do Novo, e Paulo Chagas, do PRP, mas até as convenções partidárias tudo pode mudar.

Dentre os postulantes ao Buriti, Jofran Frejat e Rodrigo Rollemberg se destacam à frente dos demais, mas com números nada expressivos em se tratando de um governador e um político que foi candidato ao governo em 2014. Algo como 14 entre 100 eleitores brasilienses com Frejat, nove entre 100 com Rollemberg. E, o que é significativo, 65 eleitores entre 100 sem ter candidato, pensando em se abster, anular o voto ou digitar a opção de voto em branco.

Depois do prazo de filiação partidária (7 de abril) e da realização das convenções (entre 20 de julho e 5 de agosto) é que o quadro de candidatos estará mais definido e as pesquisas quantitativas terão mais consistência. Mas mesmo assim ainda será cedo para fazer previsões, pois a curta campanha eleitoral (propaganda só a partir de 16 de agosto, com 35 dias para as inserções e programas no rádio e na TV) sem financiamento empresarial promete ser diferente das anteriores e surpresas podem ocorrer. A eleição começará a ser definida em setembro.

Voltando à pergunta: se permanecerem os candidatos até agora falados, a tendência é a disputa entre Frejat e Rollemberg, que terão mais votos por exclusão  — tipo no menos ruim, de acordo com o ponto de vista — do que por opção. E um elevado número de abstenções, votos nulos e em branco. Isso, porém, ainda não os torna favoritos.

O potencial favorito, mesmo, é um personagem que ainda não surgiu na cena eleitoral brasiliense ou ainda não se revelou: um candidato honesto, ficha limpa, que não seja político “profissional” e demonstre ter competência para governar e capacidade de articulação política e com a sociedade para fazer uma boa gestão. E que, com posições centradas, ofereça alternativas que fujam de posições extremadas. São os eleitores que estão dizendo isso.

Se esse personagem surgir no palco, o cenário muda e pode ficar mais interessante.

 

 

Rollemberg pensa que consegue enganar alguém ao propor eleições de administradores em 2022

É preciso ser ingênuo, burro ou nada conhecer sobre os políticos para acreditar no ridículo motivo dado pelo governador Rodrigo Rollemberg ao justificar a demora de três anos para apresentar o projeto instituindo eleições diretas para administrador regional. A versão apresentada por ele: antes de fazer as eleições é preciso realizar concurso para contratar servidores de carreira para as administrações regionais, hoje repletas de funcionários de livre provimento — leia-se, apadrinhados por deputados distritais, outros políticos e amigos dos governantes. E o concurso não foi ainda realizado porque a Lei de Responsabilidade Fiscal impedia.

Fico imaginando se essa desculpa esfarrapada foi bolada pelo governador ou por algum de seus assessores mais próximos, para saber quem é que faz pouco da nossa inteligência. É muito bom que sejam contratados servidores concursados para trabalhar nas administrações regionais, acabando assim com o notório cabide de emprego no governo e exemplo do toma lá dá cá que prevalece na gestão de Rollemberg. Mas a impossibilidade de realizar o concurso não impedia que o projeto fosse apresentado há muito tempo.

Tanto não impedia que com um ano e quatro meses de governo um projeto semelhante foi enviado à Câmara Legislativa. Naquela ocasião, nem se falou na importância de ter servidores de carreira nas administrações. O projeto do governo era muito ruim em todos os aspectos e previa que as eleições diretas seriam realizadas com o pleito de 2018. Foi retirado e só agora foi apresentada a nova versão, marcando as eleições para 2022 — ou seja: mesmo que fosse reeleito, Rollemberg não teria de conviver com os administradores eleitos diretamente.

Tudo isso mostra que o projeto só está sendo apresentado para que o governador possa dizer que cumpriu sua promessa de campanha e tenha uma explicação — ainda que fajuta e ridícula — por ter demorado mais de três anos para propor a medida que só será aplicada cinco anos depois. Como se alguém fosse cair na esparrela eleitoreira e oportunista.

Seria bom que a Câmara Legislativa recusasse esse projeto e deixasse essa decisão para os próximos legisladores. É preciso discutir com mais profundidade e abrangência, com a sociedade, o papel, a estrutura e o grau de autonomia das administrações regionais, a composição e funcionamento dos conselhos comunitários e se eleições diretas de administradores são mesmo o melhor método para democratizar o processo, aumentar a participação popular no governo e acabar de vez com as nefastas práticas da velha política executadas pelos governos anteriores e continuadas pelo atual.

 

 

Nem Rollemberg nem distritais têm legitimidade agora para propor eleições nas administrações

A Câmara Legislativa pode prestar dois grandes serviços aos brasilienses, ainda que essa não seja sua prática rotineira: manter o veto do governador Rodrigo Rollemberg ao projeto do deputado Chico Vigilante que estabelece eleições e mandatos de quatro anos para os administradores regionais; e rejeitar liminarmente o projeto do governador estabelecendo que os administradores serão eleitos diretamente a partir de 2022.

São dois projetos oportunistas, demagógicos e nocivos para Brasília. A discussão sobre o assunto é importante e o processo de nomeação de administradores regionais deve mudar, mas não em ano eleitoral, sem debate com a população e com governador e distritais em fim de mandato. Essa discussão tem de ser levada à sociedade e não pode se limitar ao método de escolha dos chefes das administrações regionais — é muito mais profunda.

O governador levou três anos e um mês para apresentar o projeto de eleição direta dos administradores, promessa feita pelo então candidato Rodrigo Rollemberg. Nesses três anos usou as administrações como moeda para negociatas políticas com distritais, entregando a eles a indicação dos administradores e dos ocupantes de cargos comissionados. Não teve qualquer preocupação com a eficiência das gestões e com a boa prestação de serviços à população. Agora, no fim da gestão, apresenta o projeto para não dizer que não cumpriu a promessa eleitoral. Mas para vigorar em 2022…

Em 16 de maio de 2016 escrevi em minha coluna no Jornal de Brasília:

“A participação da comunidade na escolha de administradores regionais é fundamental. O que não pode é continuar o velho sistema de sempre: as administrações entregues a deputados distritais e a outros políticos como moeda de troca. A sociedade, por isso, tem de discutir intensamente qual a melhor maneira de assegurar essa participação da comunidade. Já que o Distrito Federal não tem municípios e prefeituras, a fórmula a ser adotada terá de ser inovadora.”

” O primeiro debate tem de ser sobre o que deve ser uma administração regional, qual o seu papel, como deve se organizar, como se relaciona com as secretarias e empresas públicas e que território deve abarcar. Esse, obviamente, precede a discussão sobre a eleição do administrador.” (ambos os trechos estão em meu livro Assim é a Velha Política)

Nem os distritais no último ano da legislatura nem o governo no último ano de mandato têm legitimidade para estabelecer o que vigorará para os futuros ocupantes da Câmara Legislativa e do Buriti. Esperaram três anos, um ano a mais não fará diferença. Podem continuar com o toma lá dá cá até dezembro.

 

É mais fácil e cômodo aceitar os números oficiais do que apurar e contestar

Informação oficial: 750 mil pessoas participaram do carnaval de rua em Brasília, “um público abaixo do esperado”, segundo um jornal, pois no ano passado foram 1,5 milhão de pessoas. A imprensa brasiliense, como de costume, não se deu ao trabalho de checar a informação fornecida pelo governo e repetiu os números como se fossem verdadeiros. Mas tudo indica que não são. Nem havia 1,5 milhão de pessoas em 2016 nem 750 mil neste ano.

Na véspera da entrevista, último dia de carnaval, a própria Polícia Militar falava em 330 mil pessoas. Pode ter sido mais, mas esse número foi inflado de um dia para outro para não ficar ainda mais distante dos “quase dois milhões de pessoas” anunciados festivamente, antes do carnaval, por secretários do governo de Brasília. A Agência Brasília repetiu o número obedientemente e a imprensa o agasalhou festivamente.

Não é incomum que governos inventem números que por alguma razão lhes sejam interessantes e que a imprensa os publique como se fossem reais, na condenável prática de não apurar e simplesmente atribuir a informação a uma fonte. Isso vale para informações mais relevantes ou menos importantes. Essas do carnaval são irrelevantes, mas se jornalistas se derem ao trabalho de somar os números apresentados pela PM para cada bloco e dar uma boa margem de acréscimo, porque nem todos os blocos foram computados, não chegarão aos 750 mil. Se tivessem checado as informações em 2016 veriam que as pessoas nas ruas não chegavam aos alardeados 1,5 milhão.

A “frustração”, como disse outro jornal, não significa que o carnaval de rua de Brasília não tenha sido bem sucedido. Ter cerca de 400 mil pessoas nas ruas brincando carnaval em uma metrópole (Brasília e municípios vizinhos) de 4,5 milhão de pessoas é relevante. Não significa também que os blocos não devam ser incentivados como manifestações culturais ou que proporcionam prazer e diversão aos brasilienses e aos que vêm para a cidade. Aliás, talvez tenham vindo mesmo 25 mil pessoas de fora, como diz a Secretaria de Turismo, mas por que nenhum repórter pede para ver a íntegra da pesquisa que dizem ter sido feita? Não é descartável a possibilidade de esse número também ser um chute.

Em minha coluna no Jornal de Brasília em 28 de junho de 2016, e que está no livro Assim é a velha política,  falei da absurda previsão do governo de que 300 mil pessoas viriam a Brasília para assistir a 10 partidas de futebol dos Jogos Olímpicos. Ao apresentar esse número obviamente inflado, mas repetido pela maioria da imprensa brasiliense, o governo procurava justificar o excessivo gasto de R$ 32 milhões com o evento — que, depois, comprovou-se ser um caso exemplar de fracasso de público e dinheiro jogado fora. Os turistas não vieram.

PS: se uma pessoa vai a três blocos, na estatística é contada como três pessoas. Também é bom saber disso.

 

Opiniões: imprensa, redes, política, eleições, MP e Lava-Jato

O Panorama Mercantil publicou uma entrevista minha ao seu diretor e editor Eder Fonseca, que reproduzo. O sítio é http://panoramamercantil.com.br.

Política e imprensa estão mais para água e óleo ou sal e água no Brasil atual?

Sal e água, e água e óleo. A política e a imprensa se completam, uma não existe sem a outra, especialmente se considerarmos a política em sua dimensão mais ampla. Mas é natural que haja conflitos e que muitos políticos não entendam o papel da imprensa ou não aceitem as críticas. É importante que, na interdependência que as une, política e imprensa mantenham seus espaços próprios, sem se misturar. Imprensa é imprensa, política é política…

O senhor acredita que alguns veículos estão fazendo o papel de verdadeiros partidos políticos?

Sem dúvida muitos veículos deixaram de lado os critérios da objetividade e da imparcialidade na apresentação dos fatos para fazer política e proselitismo político, em alguns casos política partidária. Não falo dos espaços de opinião, que devem ser respeitados. Falo dos espaços do noticiário e do debate, que deveriam seguir outra lógica. Veja os convidados da GloboNews, por exemplo: sempre do mesmo lado. Se o veículo tem posição política ou partidária deve deixar isso claro a seus leitores e espectadores, e não fingir imparcialidade. Não gosto de ver veículos presumivelmente isentos dando manchetes e textos editorializados em seus espaços noticiosos. Há outro aspecto, que não é novo na História de nosso país: a imprensa sendo fundamental para a vitória de uma corrente política. Tem sido assim, pelo menos, desde a Proclamação da República, passando por eleições, golpes militares e impedimentos de presidentes pelo Congresso.

As redes sociais trouxeram um novo jeito de fazer jornalismo ou simplesmente reverberam aquilo que já está pautado pelos grandes órgãos da imprensa nacional?

As redes sociais têm um dinamismo e uma interação com o público que os grandes órgãos não têm, mas o que trouxeram para o jornalismo não foi bom: notícias mal apuradas e não devidamente checadas, declarações e descrições superficiais no lugar da apuração e da investigação, textos mal escritos e cheios de erros, falta de contextualização e análise. Além de títulos sem criatividade, burocráticos, preguiçosos. A vantagem das redes sociais é dar a notícia com rapidez e permitir que a audiência interaja, mas o jornalismo tem de ser muito mais do que isso.

O velho jeito fazer política se sofisticou ou teve alguma perda com o avanço da internet e dos seus microblogs como o Twitter?

O velho jeito de fazer política está sendo mais questionado pelas pessoas, que estão mais atentas e críticas, e a internet tem um papel nisso. Os fatos e atitudes que caracterizam a velha política, como a corrupção, o clientelismo e o loteamento da administração pública, são denunciados com mais intensidade e rapidez pelas redes, ganhando grande e imediata repercussão.

Como analisa a Operação Lava Jato?

A corrupção tem de ser investigada, os suspeitos têm de ser processados e os culpados têm de ser condenados. Não interessa quem são, a que partido pertençam, se são ricos ou pobres. A Lava Jato, como as demais operações policiais e do Ministério Público, são positivas e necessárias, desde que realizadas de acordo com o disposto na Constituição e nas leis e respeitando os Direitos Humanos. Aí começam os problemas da Lava Jato, que merece críticas: a espetacularização e os excessos das autoridades, especialmente nas conduções coercitivas, por um lado, e a clara parcialidade política do juiz Moro e dos procuradores, que parecem obcecados em ter provas para condenar Lula ou condená-lo mesmo sem as provas. Não estou dizendo que Lula e outros são inocentes, mas essa parcialidade visível prejudica a credibilidade da operação e leva a questionamentos que colocam em risco o combate à corrupção.

Quais os erros e os acertos da mídia na cobertura desta Operação?

Os maiores erros não são novos, apenas ganharam dimensão maior: confiar totalmente no que dizem as autoridades e reproduzir as declarações e falas em off como se fossem verdades absolutas, sem apurar e investigar, às vezes sem sequer questionar; divulgar imagens e áudios de gravações feitas judicialmente e delações como se já fossem condenações definitivas. Outro erro, menor, é endeusar juízes, procuradores e até o japonês da Federal como celebridades, acima do bem e do mal – o que não são. A imprensa séria não deveria fazer oba-oba. Mas, no meu balanço, os aspectos positivos pesam mais e a imprensa tem um grande papel no combate à corrupção no país. Um papel até pedagógico.
O seu livro

Imprensa: Hélio Doyle com o seu livro “Assim é a Velha Política” (Foto: Divulgação)

Torna-se mais complexo em lidar com os fatos noticiados na imprensa, quando se está envolvido em um cargo público?

O cargo público lhe dá responsabilidades maiores e daí os fatos noticiados na imprensa ganham uma repercussão maior. O problema é que a maioria dos que ocupam cargos públicos não entende ou não quer entender o papel da imprensa em uma sociedade democrática e a dinâmica do jornalismo, sem falar que sequer sabem como um jornal, um portal, um telejornal ou um programa de rádio são preparados e produzidos. Rejeitam as críticas e veem fantasmas onde geralmente eles não estão.

Depois que o senhor participou da política, sua visão a posteriori como jornalista mudou em algum ponto?

Sim, porque vi os fatos a partir de outra perspectiva, do outro lado do balcão, como se diz. Eu considero um privilégio ter sido repórter, editor e colunista, por um lado; assessor de imprensa e consultor de comunicação, por outro; e também fonte, como estudioso de alguns temas, dirigente sindical e partidário, coordenador de campanhas eleitorais em períodos de transição e secretário de governos distritais. Conheci todos os lados e isso influencia, hoje, minha maneira de ver as coisas. E ainda pude ser professor universitário.

A imprensa é o quarto poder ou esse posto foi substituído pelo Ministério Público Federal?

Quando eu era ainda estudante, nos anos 1970, ajudei meu pai, advogado, a preparar uma conferência sobre o jurista Alfredo Valadão, que defendia a tese de que o Ministério Público deveria ser o quarto poder. A partir da Constituição de 1988 o Ministério Público passou a ser efetivamente o quarto poder. A imprensa tem poder, mas não é nem o quinto poder. É bom que o Ministério Público tenha autonomia e poder, mas é necessário também que esteja submetido a controle social, o que não está sendo feito, como deveria, pelo Conselho Nacional do Ministério Público.

Para onde o senhor acredita que caminha o jornalismo brasileiro?

O jornalismo existirá sempre, o problema é que há menos veículos em que o jornalismo é realmente exercido. Bons e experientes profissionais têm dado lugar a jovens nem sempre talentosos e preparados, e muitos veículos estão sendo diminuídos ou fechados. Imagino que teremos um jornalismo de notícias imediatas e entretenimento, superficial e imediatista, por um lado, e um jornalismo de análise e opinião, mais aprofundado, por outro. Os veículos impressos devem desaparecer, mas o jornalismo para ser bom não depende do meio.

O que o senhor espera das eleições presidenciais de 2018 e qual será o papel que considera fundamental por parte da imprensa nesta cobertura em especial?

Nas eleições de 2018 poderemos eleger um presidente capaz de dialogar com o país e retomar o desenvolvimento, mas poderemos também eleger alguém que mantenha o Brasil no atual estado, ou até piore a situação em que vivemos. Seria muito bom que a imprensa pudesse fazer uma cobertura profunda, mostrando quem são os candidatos, o que pensam e o que propõem para o país. Mas investigando, apurando, questionando, não contando só o que vestem e o que comem e publicando declarações vazias e demagógicas. Seria bom também que a imprensa adotasse o modelo estadunidense, pois nem tudo que vem de lá é ruim: posicionamento nos editoriais e noticiário isento e igualitário. A imprensa, se quiser, pode ter um papel muito importante para evitar e denunciar as notícias falsas propagadas pelas redes sociais.

Louca cavalgada em busca de coligações… Para quê? Pode ser para nada

As eleições de outubro, no Brasil e em Brasília, ocorrerão em um ambiente político e social diferente do que existia em pleitos anteriores, e com novidades na legislação eleitoral que criam situações novas para candidatos e eleitores. As consequências disso são imprevisíveis, ainda mais porque as indefinições ainda são grandes. As referências mais próximas são as eleições municipais de 2016 e as eleições extemporâneas para governador, no Amazonas, em 2017.

Parece, porém, que os políticos que se colocam como possíveis candidatos a cargos majoritários em Brasília não estão entendendo esse novo cenário. Há exceções, claro, mas são muitos os políticos continuam raciocinando como se estivéssemos em 2006, 2010 ou 2014. O tempo está passando na janela e eles não estão vendo, absorvidos ainda por velhas fórmulas e velhos paradigmas eleitorais.

A busca desenfreada por coligações partidárias é uma das consequências dessa visão equivocada. Não que a soma de partidos não tenha vantagens: aumenta o tempo de programas e inserções na televisão e no rádio e, para usar a linguagem eleitoral, oferece mais “estrutura” e “capilaridade” aos candidatos. A questão é até que ponto, no atual quadro, vale a pena formar coligações que o eleitorado identifica com a velha politicagem para obter tempo de TV e rádio. Pode ser melhor estar sozinho do que mal acompanhado.

As movimentações de possíveis e candidatos e partidos em busca de alianças a todo custo só provocam a rejeição dos eleitores. “Já está se juntando para nos ferrar”, “os bandidos estão se unindo”, “o que este partido tem a ver com aquele?”, “olha os ladrões unidos” são algumas das frases, com ligeiras variações, ditas pelos eleitores quando veem as notícias e imagens das farofadas políticas e das reuniões de políticos que parecem mais os célebres jantares da cosa nostra.

Esses políticos valorizam excessivamente os horário gratuitos, como se ainda não existisse internet e não houvesse uma clara tendência à queda de audiência. Não que tempo no rádio e na TV não seja importante, mas tudo indica que isso não será decisivo na eleição em Brasília, um território pequeno com apenas dois milhões de eleitores. A rigor, quem realmente precisa de horário gratuito será, para se defender, o governador Rodrigo Rollemberg, óbvio alvo de todos os demais candidatos.

Dois casos nas eleições municipais devem ser lembrados, ambos em metrópoles: Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Alexandre Kalil foi para o segundo turno em Belo Horizonte com apenas 20 segundos na TV e no rádio, enquanto seu opositor, João Leite, tinha 2 minutos e meio – ou 150 segundos. Kalil juntou três partidos pequenos (PHS, PV e Rede), João Leite era apoiado por PSDB, DEM, PPS e PP. No segundo turno, com tempo igual para os dois, Kalil venceu.

Marcelo Freixo, do PSol, coligado com o PCB, foi para o segundo turno, no Rio, com 11 segundos de tempo. Disputou e perdeu para Marcelo Crivela, que tinha três partidos coligados  (PRB, PTN, PR) e 1 minuto e 11 segundos. Ambos foram para o segundo turno derrotando quatro candidatos com tempo maior que os deles: Pedro Paulo (PMDB e mais 15 partidos), 3´30; Jandira Feghalli (PCdoB e PT), 1´27; Indio da Costa (PSD, PMB, PSB), 1´24; Carlos Osório (PSDB, PPS), 1´16.

Pode de nada adiantar ficar juntando partidos em busca de muito tempo na TV, “estrutura” e “capilaridade”. Essa eleição, provavelmente, não será como aquelas que passaram em 2014, 2010, 2006…