Greve em serviços públicos, no Brasil de hoje, é contra o povo e favorece as privatizações

Os empregados das empresas públicas que operam o metrô e o fornecimento de energia (Companhia do Metrô e CEB) estão em greve por aumentos salariais e outros benefícios. Consideram que esgotaram todas as tentativas de negociação e assim só lhes restou recorrer à paralisação dos serviços. Até aí, tudo parece bem, pois fazer greve é um direito dos trabalhadores, internacionalmente reconhecido, inclusive para os que prestam serviços públicos. É comum termos notícias de greves assim na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo.

Isso, porém, não impede que paralisações em serviços públicos sejam contestadas mesmo por aqueles que, por princípio, defendem o direito de greve. E os partidos e organizações de esquerda deveriam ser os primeiros a abrir o debate sobre o assunto, partindo de uma constatação óbvia: os cidadãos, especialmente os que mais precisam e utilizam os serviços públicos, são os mais prejudicados com as greves em hospitais e postos de saúde, escolas e universidades, nos serviços de transporte e de segurança, no fornecimento de água e energia, no atendimento a quem precisa de documentos.

Greves que levam à interrupção de serviços públicos não são contra empresários que resistem a dar aumentos, nem contra governantes insensíveis às necessidades dos trabalhadores. São contra o povo, impedido de ter assistência médica, de frequentar as aulas, de andar de ônibus e metrô, de receber serviços públicos básicos e essenciais. Não tem nenhum sentido para alguém que se coloca como de esquerda defender os interesses de alguns, ainda que trabalhadores, contra os interesses da maioria do povo.

Em segundo lugar, essas greves são contra a instituição serviço público, já tão desmoralizada pela ineficiência e pelo mau atendimento à população. A esquerda, que tem entre suas bandeiras a defesa dos serviços prestados pelo Estado, cai em contradição ao defender incondicionalmente movimentos que reforçam as teses favoráveis à privatização e à redução da máquina pública. Se fosse realizada hoje uma consulta aos brasilienses que utilizam o metrô ou estão sem energia elétrica, a privatização das duas empresas seria aprovada por larga maioria. Pelo menos os serviços não seriam interrompidos todo ano, quando não mais vezes. E talvez fossem de mais qualidade.

Greves em escolas públicas prejudicam os alunos cujos pais não podem pagar mensalidades em colégios privados e muito menos em cursinhos preparatórios. Sem aulas, muitas vezes por meses seguidos, os que estudam em escolas públicas veem aumentar ainda mais o fosso que os separa dos que podem cursar as escolas privadas. Os alunos de universidades públicas demoram mais a se formar do que os das faculdades privadas, por causa das longas greves de professores e servidores.

Na saúde é ainda pior. Consultas marcadas com mais de seis meses de antecedência e cirurgias são adiadas, exames não são feitos, e fica a critério de alguns médicos decidir o que é urgente e o que não é, o doente que deve e o que não deve ser atendido. As greves pioram o que é péssimo. O fechamento de delegacias e a suspensão do policiamento cria mais insegurança na população e beneficia os bandidos. A falta de energia afeta a vida cotidiana e os negócios de inúmeras pessoas, e assim por adiante.

Greves em serviços públicos que atendem diretamente à população, na realidade brasileira, são greves contra o povo e contra a eficiência do Estado e só beneficiam os defensores do Estado mínimo e das privatizações. Justificam-se menos ainda quando essas paralisações têm como objetivo o atendimento de reivindicações de categorias já bem remuneradas e que recebem benefícios que a maioria dos trabalhadores não têm. Não que servidores e empregados públicos não tenham o direito de querer repor perdas e ter aumentos, mas é preciso considerar a realidade do Brasil e de Brasília. E, afinal, há outras formas de reivindicar.

Esse tema, porém, ainda rende outras notas.

 

Há pelo menos duas maneiras de evitarmos Melancia, Lacerda e outros sem voto no Senado

Os deputados representam o povo, os senadores representam as unidades da Federação. A eleição dos deputados é proporcional, de acordo com a votação dos partidos e coligações. A eleição dos senadores é majoritária, e são eleitos, alternadamente, os dois mais votados (quando há duas cadeiras em disputa) e o mais votado (quando há uma). Por isso o natural seria que os primeiros suplentes dos senadores eleitos fossem os mais votados entre os não eleitos, independentemente de seus partidos ou de terem posições contrárias aos eleitos.

Se fosse assim, quem teria assumido a cadeira de Rodrigo Rollemberg teria sido o deputado federal Alberto Fraga, que recebeu 511.517 votos na eleição para o Senado em 2010. E quem ocuparia o lugar de Cristovam Buarque durante sua licença seria Cadu Valadares, candidato pelo PV, que teve 54.245 votos. Pouco, para um senador, mas que dão a ele mais legitimidade para exercer o mandato do que o sem nenhum voto Wilmar Lacerda e Hélio José, também conhecido como “Gambiarra” e “Melancia”, também sem voto para o Senado, mas que recebeu seis votos na eleição para deputado distrital…

Para os que entendem que, mesmo sendo a eleição majoritária, não seria correto que candidato com posições radicalmente diferentes possa assumir a cadeira do vencedor — como no caso de Fraga substituir Rollemberg — há uma alternativa que já vigorou no Brasil, nos tempos da ditadura e do bipartidarismo, e existe no Uruguai: a chamada sublegenda.

O sistema é simples: supondo que cada senador tenha um suplente apenas, cada partido ou coligação pode lançar dois candidatos para disputar a mesma cadeira. Não são eleitos os candidatos mais votados, mas as legendas — ou seja, a soma dos votos dos dois candidatos — mais votadas. O mais votado da legenda é o senador eleito, o segundo mais votado é seu suplente. Não haveria, pois, suplente sem voto.

O maior questionamento ao sistema que nem sempre os candidatos mais votados são eleitos, pois a soma de uma legenda cujos candidatos tenham 100 mil e 20 mil votos, por exemplo, será menor do que a em que os candidatos tenham 80 mil e 50 mil votos. Foi o que aconteceu em Brasília na primeira eleição para o Senado, em 1986, quando a disputa foi por três cadeiras — duas com oito anos e uma com quatro anos de mandato.

Os candidatos do PDT, Maurício Corrêa, e do PT, Lauro Campos, disputaram sem sublegendas, pois seus partidos eram contra o sistema implantado quando só havia duas agremiações, Arena e MDB. O PMDB apresentou três sublegendas, com dois candidatos em cada. Se a eleição fosse decidida pelos votos recebidos por cada candidato, teriam sido eleitos Maurício Corrêa (197.637 votos), Lauro Campos (134.930) e Maerle Ferreira Lima, do PMDB, com 129.645 votos. Mas nem Campos nem Maerle foram eleitos.

A sublegenda de Maerle teve 149.111 votos, pois o outro candidato dela, Múcio Atayde, teve a candidatura cassada e foi substituído por Wilson Andrade, que teve apenas 19.466. As duas outras sublegendas do PMDB tiveram mais votos: Meira Filho (127.698 votos) e Lindbergh Cury (102.652) somaram 230.350 votos. Pompeu de Sousa (92.694) e Carlos Murilo (61.563) somaram 154.257 votos.

Os eleitos, pela ordem, foram Meira Filho, Maurício Corrêa e Pompeu de Sousa. Seus suplentes eram Lindbergh, Pedro Teixeira (sem voto, pois foi inscrito como suplente, já que o PDT não tinha sublegenda) e Carlos Murilo.

Em tempo: um leitor informa que para ter direito ao plano de saúde vitalício o suplente precisa exercer o mandato por seis meses. Lacerda terá de ficar mais dois meses para ganhar o prêmio.

 

 

Wilmar Lacerda, mais um suplente que chega ao paraíso sem um só voto

O Distrito Federal terá, a partir de dezembro, mais um senador que não recebeu um só voto para assumir a cadeira, o salário de R$ 33 mil mensais e as mordomias e privilégios inerentes ao cargo, entre as quais um excelente plano de saúde vitalício extensivo aos dependentes. Com a licença do senador Cristovam Buarque, eleito pelo PDT e hoje no PPS, assumirá por quatro meses seu primeiro suplente, Wilmar Lacerda, do PT. Ele é o oitavo suplente de Brasília que assume o mandato do titular.

Lacerda, que é chefe de gabinete da liderança do PT no Senado e se comporta como se fosse senador, vai reforçar a bancada dos suplentes sem voto, uma excrescência da legislação eleitoral brasileira. Dos 81 senadores em exercício, 14 são suplentes que assumiram porque o titular morreu, foi cassado, assumiu uma função no Executivo ou se licenciou. Entre eles estão algumas das mais notórias nulidades do Senado, como Hélio José (Pros-DF), José Medeiros (PSD-MT), Ataídes Oliveira (PSDB-TO) e Zezé Perrela (PTB-MG). A suplente de Eduardo Braga (AM) é sua mulher. O de Ivo Cassol (RO) é seu pai e o de Edison Lobão (MA) é seu filho.

O perfil majoritários dos suplentes, porém, é o de empresário que financia a campanha ou de político bem situado na máquina partidária. Entre os suplentes que ocuparam as cadeiras de senadores eleitos por Brasília isso fica claro:

  • Pedro Teixeira, dono de cartório e empresário, suplente de Maurício Corrêa, eleito em 1990 e que foi nomeado ministro da Justiça.
  • Lindbergh Aziz Cury, empresário do comércio, presidente da Associação Comercial, suplente de José Roberto Arruda, eleito em 1994, que renunciou ao mandato para evitar a cassação.
  • Valmir Amaral, empresário do setor de transportes, suplente de Luiz Estevão, eleito em 1998, cassado.
  • Eurípedes Camargo, ex-deputado distrital pelo PT, suplente de Cristovam Buarque, eleito em 2002, e que foi nomeado ministro da Educação.
  • Adelmir Santana, empresário do comércio, presidente da Fecomércio, suplente de Paulo Octávio, eleito em 2002, e que foi eleito vice-governador.
  • Gim Argello, empresário da área imobiliária, ex-deputado distrital, suplente de Joaquim Roriz, eleito em 2006, que renunciou ao mandato para evitar a cassação.
  • Hélio José, líder de corrente interna no PT, suplente de Rodrigo Rollemberg, eleito governador.

Wilmar Lacerda também liderava uma corrente interna do PT quando foi indicado pelo partido para ser o suplente de Cristovam Buarque. Como secretário de Administração do governador Agnelo Queiroz, notabilizou-se por ter autorizado — contra a opinião do chefe da Casa Civil e dos secretários de Fazenda e de Planejamento — aumentos salariais parcelados a 32 categorias de servidores públicos sem ter previsão orçamentária e sabendo que não haveria dinheiro para pagá-los na gestão seguinte.

Nenhuma tentativa de acabar com essa figura do senador sem voto prosperou, porque não interessa aos políticos. O Senado não aprovou sequer uma proposta para reduzir o número de suplentes de dois para um.

Na próxima nota vamos abordar as alternativas para acabar com essa figura sem sentido na política brasileira. Se os senadores deixarem, claro.

 

 

Não chore pelo PSD, governador. Em 2018 talvez seja melhor estar só que mal acompanhado

O velho ditado “antes só que mal acompanhado” não é bem visto pelos políticos, com pouquíssimas exceções. O senso comum é de que sozinho um candidato ou partido não ganha eleições, e isolado ninguém consegue governar. É preciso fazer alianças, coligações e coalizões. As exceções são os partidos que, por posições ideológicas ou saber que não têm chances de vitória, preferem disputar as eleições sem se misturar aos demais.

Depois da eleição presidencial de 1989, disputada por 22 candidatos, os partidos passaram a buscar a coligação com o maior número possível de legendas, especialmente para aumentar o tempo nos programas e inserções gratuitos no rádio e na televisão. Quanto mais partidos coligados, mais tempo. Além disso, a soma de estruturas partidárias — dinheiro, material, cabos eleitorais, lideranças — possibilita mais presença e visibilidade dos candidatos na campanha.

Em 2018, porém, talvez seja diferente. O eleitorado, como mostram as pesquisas qualitativas (que a maioria dos políticos e jornalistas, pelo jeito, não leem, e se leem não entendem) está farto da política, dos políticos e dos partidos. Não acredita em mais ninguém e sequer nas instituições. Mal humorado e desesperançado, devido à crise econômica, aos péssimos serviços prestados pelo Estado e aos sucessivos casos de corrupção, o eleitor repudia as práticas que identifica com politicagem e demagogia.

Por isso é bem possível que, assim como têm rejeitado as movimentações de políticos tradicionais para formar alianças para 2018, badaladas em textos e fotos por colunas e blogs como isso os ajudasse, os eleitores prefiram votar em candidatos e partidos que não se unam por interesses apenas eleitoreiros, muitas vezes descaracterizando-se. Dá para arriscar dizer que, diferentemente do que acontecia em eleições anteriores, o maior tempo na televisão provavelmente não compensará a formação das chamadas alianças espúrias. Afinal, agora temos as redes sociais.

Pode ser que não seja assim e que em 2018 prevaleça a força das coligações. Mas, de qualquer maneira, o governador Rodrigo Rollemberg não deve lamentar o rompimento do PSD com seu governo. O partido de Rogério Rosso e Renato Santana — assim como o Solidariedade de Augusto Carvalho e Sandra Faraj — entrou na coligação em 2014 para dar mais tempo de TV a Rollemberg e Reguffe. Nada mais.

O PSD levou mais problemas e ônus ao governo do que benefícios e bônus. Nada fez de útil para a população. Eleitoralmente, pouco representa. Com o líder maior, Gilberto Kassab, acusado de corrupção, o tempo de TV que tem não vale a má companhia. Nesse caso, é melhor mesmo estar só que mal acompanhado.

 

Cristovam, quem diria, pode até ser o vice de Luciano Huck

O senador Cristovam Buarque está desesperado para encontrar uma saída no labirinto em que se meteu por causa de suas recentes posições — especialmente pelo voto a favor do impeachment de Dilma Rousseff —  e da amizade política e do apoio que dá a deputados distritais acusados de corrupção: perdeu apoio na esquerda, que hoje critica, e não ganhou da direita, que não confia nele.

Consciente das dificuldades que terá para se reeleger senador e sabendo que com sua extrema vaidade não suportará uma derrota, Cristovam faz de tudo para viabilizar sua candidatura a presidente da República. Acredita que pode ser o “novo” desejado pelo eleitorado e perder, nesse caso, não será desonroso. A derrota para Joaquim Roriz em 1998, quando disputava a reeleição ao governo de Brasília, é para Cristovam um trauma ainda não superado — tanto que nunca mais se dispôs a disputar novamente o posto, mesmo quando ainda tinha popularidade na cidade.

Por isso o senador eleito pelos brasilienses em 2002 e 2010 pediu uma licença do mandato para se dedicar a viagens pelo Brasil e, certamente, também por outros países. Cristovam quer se apresentar como pré-candidato a presidente e ocupar espaços na imprensa e nas redes sociais. Só que não tem, para isso, o respaldo de seu partido, o PPS, cujo presidente, Roberto Freire, disse a Diego Amorim, do Antagonista, que Cristovam “tem dificuldade política-eleitoral”, logo esclarecendo: “Ele não tem mais voto”.

Freire, que acolheu Cristovam no PPS sabendo que o senador pensava em ser candidato a presidente da República, disse na mesma entrevista que o apresentador de televisão Luciano Huck, que fala em disputar o Planalto, seria recebido com tapete vermelho no partido. Cristovam começou sua vida política no PT, que deixou para entrar no PDT. Quando Ciro Gomes se filiou ao trabalhismo já na condição de candidato a presidente, Cristovam foi para o PPS, na esperança de ser o nome do partido para a disputa.

Agora, tem de optar: pode tentar a reeleição ao Senado, esperando receber o segundo voto de eleitores de diferentes correntes; pode procurar outro partido para concorrer à presidência da República; ou pode tentar ser o candidato a vice-presidente na chapa de Huck, caso ele seja mesmo a escolha do PPS, que na verdade está mais para Geraldo Alckmin.

 

 

 

 

 

Errei, mas já corrigi

Errei na nota publicada ontem e agradeço aos que me corrigiram: o PT não ficou em terceiro lugar em duas eleições consecutivas, isso aconteceu em 2006 e 2014. Já corrigi no texto.

Acabou a polarização entre azuis e vermelhos e eleição para governador está indefinida

Quando em 1994 o azul Valmir Campelo e o vermelho Cristovam Buarque disputaram a eleição para governador havia uma terceira via, a amarela Maria de Lourdes Abadia, terceira colocada. A polarização entre azuis e vermelhos havia começado na eleição anterior, quando Joaquim Roriz se elegeu no primeiro turno, ficando o petista Carlos Saraiva em segundo, à frente do então senador Maurício Corrêa, do PDT.

Em 1998, o verde José Roberto Arruda disputou contra Roriz e Cristovam e não passou do primeiro turno. Em 2002 foram muitos os candidatos além de Roriz e do petista Geraldo Magela, que disputaram o segundo turno: entre eles, Benedito Domingos, Rodrigo Rollemberg e Carlos Alberto Torres. A terceira via se dividiu.

Em 2006 o quadro foi diferente e não havia uma terceira via clara. Diante da relutância de Roriz em escolher o candidato para sucedê-lo — entre Arruda, Abadia, Maurício Corrêa e Tadeu Filippelli — o DEM se antecipou e lançou a chapa “pura” Arruda e Paulo Octávio à revelia do então governador. Para não ficar sem candidato, Roriz lançou, sem convicção, a candidatura de Abadia com Corrêa de vice. No decorrer da campanha fez acordo com Arruda, que ganhou no primeiro turno com 50,38%. A candidata do PT, Arlete Sampaio, ficou em terceiro lugar.

Em 2010 foi Toninho Andrade, do PSol, que fez o papel de terceira via, contra Agnelo Queiroz e Joaquim Roriz, sucedido pela mulher, Weslian, devido a problemas legais. Em 2014, com Roriz já fora da batalha, Arruda — e depois Jofran Frejat — e Agnelo Queiroz foram derrotados pela terceira via de Rodrigo Rollemberg.

O cenário político de Brasília é hoje muito diferente e não há mais a polarização entre azuis e vermelhos. Roriz e Arruda estão fora da disputa direta, o PT está enfraquecido não só pelos dois terceiros lugares como pelos desgastes recentes do partido. Admitindo-se que Rollemberg, como candidato à reeleição, seja agora a primeira via, não se sabe sequer quem é a segunda, pois ele sofre a oposição de partidos à esquerda e à direita cuja força ainda não dá para medir.

A eleição para governador em 2018 está indefinida, embora o governador e Jofran Frejat, o duas vezes ex-candidato a vice (de Roriz e de Arruda), estejam liderando as pesquisas. Não podem, porém, ser considerados favoritos, pois seus índices são muito baixos. Prevalecem, por larga margem, os que não têm candidato ou que votarão nulo ou em branco.

Quem falar agora em “praticamente eleito” e “favorito” ou não está entendendo o quadro político-eleitoral ou está fazendo lobby para algum candidato. Tudo é possível, até o que hoje parece impossível, e muita coisa ainda pode acontecer.

 

Toma lá dá cá prejudica a população e contamina relações do Legislativo com Executivo

O toma lá dá cá que caracteriza as relações entre o governo de Brasília e a Câmara Legislativa não é condenável apenas sob o ponto de vista ético, é mais do que isso: esse método é nocivo para as relações entre os poderes Executivo e Legislativo e prejudica a população, pois afeta a qualidade dos serviços que são prestados pelo Estado.

As relações entre a Câmara e o governo, no regime presidencialista vigente, deveriam se caracterizar pela independência entre os poderes, cada um exercendo suas funções. Uma coisa é um partido e seus membros participarem de um governo com base em uma aliança programática transparente para a população. Daí, esses partidos participam das decisões e seus membros exercem funções de responsabilidade — o que não quer dizer indicar dezenas ou centenas de servidores comissionados, mas secretários que levam cinco ou seis assessores de confiança e administram com os servidores de carreira.

Outra coisa é distritais indicarem apadrinhados para cargos no Executivo mediante o compromisso de votar de acordo com as instruções que recebem do governador. Não há acordo programático, muito menos transparência nos conchavos que são feitos nos subterrâneos. O deputado vota com o governo e em troca recebe cargos para seus indicados, entre outras benesses. Esse tipo de exercício da “política” desmoraliza o Legislativo e compromete a seriedade e a eficiência do Executivo.

A população é mais afetada porque de modo geral os distritais — e outros políticos — não se preocupam com a qualificação de seus indicados. Secretarias e seus órgãos, além de empresas e autarquias, são comandadas por pessoas despreparadas e descomprometidas com a prestação do serviço. É frequente o relato de casos em que os indicados se recusam a receber ordens de seus superiores, alegando que só têm contas a prestar a seus padrinhos políticos.

Os casos a seguir são reais:

Um servidor de carreira de uma administração regional conta que além de não haver estabilidade na gestão do órgão, pois de acordo com o momento muda o deputado que indica o administrador, os apadrinhados com funções comissionadas ou não trabalham ou se limitam a fazer política para o distrital. Além de passar o tempo falando mal do governador.

Um subsecretário diz que faz o que pode para melhorar o atendimento ao público no órgão que dirige, mas foi obrigado a acolher mais de uma dezena de indicados por um distrital, todos sem qualquer tipo de experiência com o serviço e sem muita disposição para trabalhar, além de muitos deles serem quase analfabetos.

Uma deputada distrital brigou com um secretário porque ele argumentou que não teria sentido ceder um técnico de radiologia para trabalhar no gabinete dela, tendo em vista as carências da área de saúde. A distrital fez valer seu apoio transitório ao governo e o técnico, que fez concurso para atender a população, foi para um gabinete na Câmara Legislativa.

O governador recebeu inúmeras queixas quanto ao chefe de gabinete de um secretário que, além de ser suspeito de corrupção em gestões anteriores, procurava sempre intimidar seus interlocutores, tendo uma vez colocado uma arma em cima da mesa. Para não desagradar ao grupo político do secretário, o chefe de gabinete continuou no cargo.

 

Os erros que unem Ibaneis e Rollemberg

O advogado Ibaneis Rocha, que aparecia nas especulações como possível candidato outsider ao governo de Brasília, por não ser político profissional, filiou-se ao PMDB de Tadeu Filippelli e Michel Temer, e pretende aglutinar os partidos da chamada “direita”, todos envolvidos em falcatruas.

O governador Rodrigo Rollemberg, que é muito mal avaliado como gestor e tem forte rejeição do eleitorado, anunciou aliança com o PSDB e inventou uma secretaria inútil e cheia de cargos comissionados para a tucana Maria de Lourdes Abadia fazer política com dinheiro público.

Ibaneis perdeu a chance de ser o fator novo nas eleições de 2018. Rollemberg reforçou sua imagem de político tradicional.  Ambos, certamente, têm tido acesso a pesquisas qualitativas e quantitativas que mostram o humor dos eleitores, são bem informados e conversam com gente de todos os segmentos sociais.

Não dá, assim, para entender como podem cometer erros políticos tão óbvios e grosseiros.

Crises atrapalham, mas para enfrentá-las é preciso coragem, ousadia e determinação

O governo de Rodrigo Rollemberg frustrou as esperanças de mudanças, de um novo estilo de gestão pública, de democracia participativa, de novos métodos e práticas políticas. Não cumpriu compromissos assumidos na campanha. Não mudou, não inovou, não renovou. Isso se reflete nas carências que para a população são as mais relevantes: não existe um projeto de desenvolvimento para o DF e não houve evolução significativa em nenhuma área fundamental: educação, saúde, segurança, cultura, mobilidade, políticas sociais, eliminação da miséria, redução da pobreza. É como se tivéssemos parado no tempo. Em alguns casos, regredido.

O governo não conseguiu melhorar o atendimento à população em nenhum campo, o que não quer dizer que não tenha méritos e tido realizações pontuais e positivas, nessas e em outras áreas. Mas que são absolutamente insuficientes para que a população se sinta atendida e avalie bem o governo. Realizações que estão muito abaixo das possibilidades que existiriam se a gestão tivesse sido moderna, eficiente e competente.

Não se pode desconhecer a crise econômica, política e ética em âmbito nacional e as crises locais, financeira e hídrica, herdadas de gestões anteriores. Claro que foram fatores limitadores para o desempenho do governo. Mas o já lugar-comum de que crise é oportunidade não foi aproveitado para fazer mudanças expressivas, dialogar com a sociedade, elevar a transparência, implantar projetos que ajudariam a gerar trabalho e renda. A sociedade não se sentiu coparticipante do esforço para reduzir os impactos das crises e retomar o desenvolvimento.

Faltaram ao governo visão de futuro, estratégia e posicionamentos políticos claros. Faltaram também coragem, ousadia e determinação. Houve e há muitas vacilações, recuos, falta de rumo, lentidão na execução de medidas, conivência com a politicagem. O momento era adequado para fazer as mudanças e inovar, e a crise não era um impedimento — pelo contrário. A crise financeira, na verdade, não foi totalmente superada, foi empurrada para a frente. A crise hídrica depende de soluções a longo prazo e de muita chuva.

Em uma próxima nota vou mostrar que superar as práticas e métodos da velha política não é só uma questão moral ou ética — é fundamental para que o governo tenha eficiência, preste serviços de qualidade à população, contribua para gerar renda e reduza a desigualdade social.