Opiniões: imprensa, redes, política, eleições, MP e Lava-Jato

O Panorama Mercantil publicou uma entrevista minha ao seu diretor e editor Eder Fonseca, que reproduzo. O sítio é http://panoramamercantil.com.br.

Política e imprensa estão mais para água e óleo ou sal e água no Brasil atual?

Sal e água, e água e óleo. A política e a imprensa se completam, uma não existe sem a outra, especialmente se considerarmos a política em sua dimensão mais ampla. Mas é natural que haja conflitos e que muitos políticos não entendam o papel da imprensa ou não aceitem as críticas. É importante que, na interdependência que as une, política e imprensa mantenham seus espaços próprios, sem se misturar. Imprensa é imprensa, política é política…

O senhor acredita que alguns veículos estão fazendo o papel de verdadeiros partidos políticos?

Sem dúvida muitos veículos deixaram de lado os critérios da objetividade e da imparcialidade na apresentação dos fatos para fazer política e proselitismo político, em alguns casos política partidária. Não falo dos espaços de opinião, que devem ser respeitados. Falo dos espaços do noticiário e do debate, que deveriam seguir outra lógica. Veja os convidados da GloboNews, por exemplo: sempre do mesmo lado. Se o veículo tem posição política ou partidária deve deixar isso claro a seus leitores e espectadores, e não fingir imparcialidade. Não gosto de ver veículos presumivelmente isentos dando manchetes e textos editorializados em seus espaços noticiosos. Há outro aspecto, que não é novo na História de nosso país: a imprensa sendo fundamental para a vitória de uma corrente política. Tem sido assim, pelo menos, desde a Proclamação da República, passando por eleições, golpes militares e impedimentos de presidentes pelo Congresso.

As redes sociais trouxeram um novo jeito de fazer jornalismo ou simplesmente reverberam aquilo que já está pautado pelos grandes órgãos da imprensa nacional?

As redes sociais têm um dinamismo e uma interação com o público que os grandes órgãos não têm, mas o que trouxeram para o jornalismo não foi bom: notícias mal apuradas e não devidamente checadas, declarações e descrições superficiais no lugar da apuração e da investigação, textos mal escritos e cheios de erros, falta de contextualização e análise. Além de títulos sem criatividade, burocráticos, preguiçosos. A vantagem das redes sociais é dar a notícia com rapidez e permitir que a audiência interaja, mas o jornalismo tem de ser muito mais do que isso.

O velho jeito fazer política se sofisticou ou teve alguma perda com o avanço da internet e dos seus microblogs como o Twitter?

O velho jeito de fazer política está sendo mais questionado pelas pessoas, que estão mais atentas e críticas, e a internet tem um papel nisso. Os fatos e atitudes que caracterizam a velha política, como a corrupção, o clientelismo e o loteamento da administração pública, são denunciados com mais intensidade e rapidez pelas redes, ganhando grande e imediata repercussão.

Como analisa a Operação Lava Jato?

A corrupção tem de ser investigada, os suspeitos têm de ser processados e os culpados têm de ser condenados. Não interessa quem são, a que partido pertençam, se são ricos ou pobres. A Lava Jato, como as demais operações policiais e do Ministério Público, são positivas e necessárias, desde que realizadas de acordo com o disposto na Constituição e nas leis e respeitando os Direitos Humanos. Aí começam os problemas da Lava Jato, que merece críticas: a espetacularização e os excessos das autoridades, especialmente nas conduções coercitivas, por um lado, e a clara parcialidade política do juiz Moro e dos procuradores, que parecem obcecados em ter provas para condenar Lula ou condená-lo mesmo sem as provas. Não estou dizendo que Lula e outros são inocentes, mas essa parcialidade visível prejudica a credibilidade da operação e leva a questionamentos que colocam em risco o combate à corrupção.

Quais os erros e os acertos da mídia na cobertura desta Operação?

Os maiores erros não são novos, apenas ganharam dimensão maior: confiar totalmente no que dizem as autoridades e reproduzir as declarações e falas em off como se fossem verdades absolutas, sem apurar e investigar, às vezes sem sequer questionar; divulgar imagens e áudios de gravações feitas judicialmente e delações como se já fossem condenações definitivas. Outro erro, menor, é endeusar juízes, procuradores e até o japonês da Federal como celebridades, acima do bem e do mal – o que não são. A imprensa séria não deveria fazer oba-oba. Mas, no meu balanço, os aspectos positivos pesam mais e a imprensa tem um grande papel no combate à corrupção no país. Um papel até pedagógico.
O seu livro

Imprensa: Hélio Doyle com o seu livro “Assim é a Velha Política” (Foto: Divulgação)

Torna-se mais complexo em lidar com os fatos noticiados na imprensa, quando se está envolvido em um cargo público?

O cargo público lhe dá responsabilidades maiores e daí os fatos noticiados na imprensa ganham uma repercussão maior. O problema é que a maioria dos que ocupam cargos públicos não entende ou não quer entender o papel da imprensa em uma sociedade democrática e a dinâmica do jornalismo, sem falar que sequer sabem como um jornal, um portal, um telejornal ou um programa de rádio são preparados e produzidos. Rejeitam as críticas e veem fantasmas onde geralmente eles não estão.

Depois que o senhor participou da política, sua visão a posteriori como jornalista mudou em algum ponto?

Sim, porque vi os fatos a partir de outra perspectiva, do outro lado do balcão, como se diz. Eu considero um privilégio ter sido repórter, editor e colunista, por um lado; assessor de imprensa e consultor de comunicação, por outro; e também fonte, como estudioso de alguns temas, dirigente sindical e partidário, coordenador de campanhas eleitorais em períodos de transição e secretário de governos distritais. Conheci todos os lados e isso influencia, hoje, minha maneira de ver as coisas. E ainda pude ser professor universitário.

A imprensa é o quarto poder ou esse posto foi substituído pelo Ministério Público Federal?

Quando eu era ainda estudante, nos anos 1970, ajudei meu pai, advogado, a preparar uma conferência sobre o jurista Alfredo Valadão, que defendia a tese de que o Ministério Público deveria ser o quarto poder. A partir da Constituição de 1988 o Ministério Público passou a ser efetivamente o quarto poder. A imprensa tem poder, mas não é nem o quinto poder. É bom que o Ministério Público tenha autonomia e poder, mas é necessário também que esteja submetido a controle social, o que não está sendo feito, como deveria, pelo Conselho Nacional do Ministério Público.

Para onde o senhor acredita que caminha o jornalismo brasileiro?

O jornalismo existirá sempre, o problema é que há menos veículos em que o jornalismo é realmente exercido. Bons e experientes profissionais têm dado lugar a jovens nem sempre talentosos e preparados, e muitos veículos estão sendo diminuídos ou fechados. Imagino que teremos um jornalismo de notícias imediatas e entretenimento, superficial e imediatista, por um lado, e um jornalismo de análise e opinião, mais aprofundado, por outro. Os veículos impressos devem desaparecer, mas o jornalismo para ser bom não depende do meio.

O que o senhor espera das eleições presidenciais de 2018 e qual será o papel que considera fundamental por parte da imprensa nesta cobertura em especial?

Nas eleições de 2018 poderemos eleger um presidente capaz de dialogar com o país e retomar o desenvolvimento, mas poderemos também eleger alguém que mantenha o Brasil no atual estado, ou até piore a situação em que vivemos. Seria muito bom que a imprensa pudesse fazer uma cobertura profunda, mostrando quem são os candidatos, o que pensam e o que propõem para o país. Mas investigando, apurando, questionando, não contando só o que vestem e o que comem e publicando declarações vazias e demagógicas. Seria bom também que a imprensa adotasse o modelo estadunidense, pois nem tudo que vem de lá é ruim: posicionamento nos editoriais e noticiário isento e igualitário. A imprensa, se quiser, pode ter um papel muito importante para evitar e denunciar as notícias falsas propagadas pelas redes sociais.

Louca cavalgada em busca de coligações… Para quê? Pode ser para nada

As eleições de outubro, no Brasil e em Brasília, ocorrerão em um ambiente político e social diferente do que existia em pleitos anteriores, e com novidades na legislação eleitoral que criam situações novas para candidatos e eleitores. As consequências disso são imprevisíveis, ainda mais porque as indefinições ainda são grandes. As referências mais próximas são as eleições municipais de 2016 e as eleições extemporâneas para governador, no Amazonas, em 2017.

Parece, porém, que os políticos que se colocam como possíveis candidatos a cargos majoritários em Brasília não estão entendendo esse novo cenário. Há exceções, claro, mas são muitos os políticos continuam raciocinando como se estivéssemos em 2006, 2010 ou 2014. O tempo está passando na janela e eles não estão vendo, absorvidos ainda por velhas fórmulas e velhos paradigmas eleitorais.

A busca desenfreada por coligações partidárias é uma das consequências dessa visão equivocada. Não que a soma de partidos não tenha vantagens: aumenta o tempo de programas e inserções na televisão e no rádio e, para usar a linguagem eleitoral, oferece mais “estrutura” e “capilaridade” aos candidatos. A questão é até que ponto, no atual quadro, vale a pena formar coligações que o eleitorado identifica com a velha politicagem para obter tempo de TV e rádio. Pode ser melhor estar sozinho do que mal acompanhado.

As movimentações de possíveis e candidatos e partidos em busca de alianças a todo custo só provocam a rejeição dos eleitores. “Já está se juntando para nos ferrar”, “os bandidos estão se unindo”, “o que este partido tem a ver com aquele?”, “olha os ladrões unidos” são algumas das frases, com ligeiras variações, ditas pelos eleitores quando veem as notícias e imagens das farofadas políticas e das reuniões de políticos que parecem mais os célebres jantares da cosa nostra.

Esses políticos valorizam excessivamente os horário gratuitos, como se ainda não existisse internet e não houvesse uma clara tendência à queda de audiência. Não que tempo no rádio e na TV não seja importante, mas tudo indica que isso não será decisivo na eleição em Brasília, um território pequeno com apenas dois milhões de eleitores. A rigor, quem realmente precisa de horário gratuito será, para se defender, o governador Rodrigo Rollemberg, óbvio alvo de todos os demais candidatos.

Dois casos nas eleições municipais devem ser lembrados, ambos em metrópoles: Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Alexandre Kalil foi para o segundo turno em Belo Horizonte com apenas 20 segundos na TV e no rádio, enquanto seu opositor, João Leite, tinha 2 minutos e meio – ou 150 segundos. Kalil juntou três partidos pequenos (PHS, PV e Rede), João Leite era apoiado por PSDB, DEM, PPS e PP. No segundo turno, com tempo igual para os dois, Kalil venceu.

Marcelo Freixo, do PSol, coligado com o PCB, foi para o segundo turno, no Rio, com 11 segundos de tempo. Disputou e perdeu para Marcelo Crivela, que tinha três partidos coligados  (PRB, PTN, PR) e 1 minuto e 11 segundos. Ambos foram para o segundo turno derrotando quatro candidatos com tempo maior que os deles: Pedro Paulo (PMDB e mais 15 partidos), 3´30; Jandira Feghalli (PCdoB e PT), 1´27; Indio da Costa (PSD, PMB, PSB), 1´24; Carlos Osório (PSDB, PPS), 1´16.

Pode de nada adiantar ficar juntando partidos em busca de muito tempo na TV, “estrutura” e “capilaridade”. Essa eleição, provavelmente, não será como aquelas que passaram em 2014, 2010, 2006…

 

 

A boa política é necessária, os velhos políticos são todos dispensáveis

Há quem considere que a demagogia é inerente à política. Como há quem entenda que sem loteamento de órgãos e cargos seja impossível governar. E que sem mordomias e privilégios não valha a pena assumir uma função pública. Ou, pior: há quem assegure que todo político e todo governante são corruptos, e os que não são fazem vista grossa.

Pois é possível fazer política sem demagogia, governar sem toma lá dá cá, acabar com as mordomias e privilégios e ser político e governante sem se corromper e sem fingir que não vê a corrupção. Os que dizem que a política é assim mesmo e não há como mudar são os que não querem mudar, pois são os que se beneficiam desses males.

O exercício da política é necessário em qualquer sociedade democrática, mas não a política fundada na demagogia, no patrimonialismo, no fisiologismo, nas mordomias e privilégios e na corrupção. Essa é a má política, que precisa ser combatida e expurgada, e as eleições de outubro são uma boa oportunidade para começar esse processo. Os que praticam a má política são hoje os principais inimigos da boa e necessária política, e têm como aliados os que gostariam de substituir a convivência democrática pelo autoritarismo e pelo domínio da “eficiência” tecnocrática a serviço de elites econômicas.

“A política é o único poder ao alcance dos que não têm poder”, escreveu o jornalista e escritor espanhol Josep Ramoneda. “Não há pior fantasia do que uma sociedade sem política”, diz ele. A política não pode ser jogada no lixo porque muitos a sujaram e ainda a sujam. A superação da má política não será obra dos maus políticos, mas dos que estiverem dispostos a enfrentar os obstáculos por eles colocados para impedir que as coisas mudem e percam seus poderes.

A nova e boa política poderá ser implantada por bons políticos já em atividade e por outros que ousarão enfrentar as barreiras e armadilhas colocadas pelos demagogos, fisiológicos e corruptos para impedir a renovação. O filósofo basco Daniel Innerarity escreveu em A política em tempos de indignação: “Ninguém é intruso por ser um desconhecido no sistema político. Aquilo que pode converter alguém num intruso, no pior sentido do termo, é caso ele pretenda comportar-se na política com outra lógica e tente convertê-la num assunto midiático, num exercício de gestão empresarial ou numa atividade justiceira.”

Ele fala da Europa, mas a frase serve para o Brasil e para Brasília.

 

A via é do DER, o viaduto é da Novacap. Eixão é do DER, Eixinho é do Detran…

Segundo servidores do Departamento de Estradas de Rodagem (DER), não cabe ao órgão, e sim à Novacap, a manutenção do viaduto que desabou no Eixão Sul. Por isso, argumentam, foi injusta a demissão do diretor do DER, Henrique Luduvice. Tanto é que foi a Novacap que assinou, em 2013, um contrato para a restauração do viaduto e da Galeria dos Estados.

De acordo com essa interpretação, o DER é responsável pelas superfícies das vias consideradas rodovias, como o Eixão, mas a Novacap é que tem de cuidar das pontes e viadutos. Lembram que os futuros viadutos na Estrada Parque Taguatinga (EPTG) e na Estrada Parque Indústrias Gráficas (Epig) são de responsabilidade da Novacap.

Quem deveria ser demitido, assim, é o presidente da Novacap, Julio Menegotto. Os servidores do DER reclamam que, além de tudo, Luduvice será substituído justamente por um diretor da Novacap.

Se for assim, a confusão é ainda maior do que a que já envolve o DER e o Detran: o Eixão, por exemplo, é responsabilidade do DER; já os eixinhos. do Detran.

 

Roriz e Arruda nada fizeram. O TCDF avisou. Paulo Tadeu protelou. Agnelo e Rollemberg ignoraram

Demagogia e oportunismo são características da velha política e dos velhos políticos. Esses dois ingredientes, como era inevitável, estão presentes em muitos dos discursos, comentários e entrevistas que têm sido feitos a respeito do desabamento do viaduto no Eixão Sul. Tenta-se “faturar” politicamente o desastre, especialmente para desgastar, em ano eleitoral, o governador Rodrigo Rollemberg e sua gestão. Da parte de políticos, há poucas análises e avaliações sérias e muita retórica vazia.

Tanto o governador quanto seus auxiliares responsáveis pela área têm, sim, responsabilidade pelo que ocorreu. As obras em pontes e viadutos deteriorados e que são riscos para as pessoas não foram priorizadas e não mereceram a atenção necessária. Faltou ao governador reconhecer publicamente esse grave erro, antes de anunciar as tardias medidas posteriores ao desastre. Um governante tem de ter coragem de se autocriticar. Faltou também anunciar uma rigorosa e rápida investigação interna para apurar as responsabilidades, mesmo tendo o diretor do Departamento de Estradas de Rodagem, Henrique Luduvice, sido corretamente demitido.

As pontes e viadutos, porém, não estariam na situação em que estão se os governos anteriores tivessem se preocupado em fazer a manutenção e os reparos necessários. Por isso caem na vala da demagogia e do oportunismo as críticas vindas de políticos que estão e estiveram profundamente vinculados aos ex-governadores Joaquim Roriz, José Roberto Arruda e Agnelo Queiroz. Todos eles optaram por fazer novas obras — que rendem mais popularidade e, como se tem visto, muito dinheiro — e desprezaram as reformas que prejudicariam o trânsito e poderiam causar aborrecimentos à população.

Não tem muito sentido também a exaltação ao Tribunal de Contas do Distrito Federal. A pedido do Ministério Público de Contas, em 2011, os técnicos do tribunal realmente fizeram um ótimo trabalho de levantamento dos problemas nas pontes e viadutos. O governo da época, de Agnelo Queiroz, foi alertado para os riscos, mas pouco fez, a ponto de ser repreendido pelo tribunal. O TCDF, porém, enredou-se em seu formalismo burocrático e não tomou medidas eficazes para exigir dos governos de Agnelo e de Rollemberg a realização das obras. Ficou no cômodo “eu avisei…”

E tem mais: em 19 de fevereiro de 2014 o conselheiro Paulo Tadeu pediu vistas do processo, impedindo sua tramitação. Tadeu só o devolveu no dia 10 de outubro de 2014, dizendo, em poucas linhas, concordar com o voto do relator, Renato Rainha. Passou quase oito meses com o processo na gaveta. Tadeu, antes de assumir a cadeira no TCDF, era deputado pelo PT e secretário de Governo de Agnelo. Pediu vistas no ano eleitoral, quando Agnelo disputava a reeleição, e devolveu o processo cinco dias depois da votação em primeiro turno. Mera coincidência?

 

 

 

 

Dinheiro para manutenção de pontes e viadutos tem, o que faltou e falta é priorizar

Um relatório de auditores do Tribunal de Contas do DF, de 2011, alertou o governo sobre o péssimo estado de viadutos e pontes em Brasília. Em alguns, como o que desabou parcialmente hoje, a necessidade de reparos era considerada urgente. Antes de o TCDF se manifestar vários engenheiros já haviam avisado, pela imprensa, que a população corria riscos devido à falta de manutenção de vias de grande movimento. Mas nem o governo anterior, de Agnelo Queiroz, nem o atual, de Rodrigo Rollemberg, cuidaram do viaduto no início do Eixão Sul.

Rollemberg, em pífia entrevista coletiva, informou que fez o serviço em alguns viadutos, mas não todos, pois não tinha recursos nos três primeiros anos de gestão, corroborando a desastrada fala do diretor do Departamento de Estradas de Rodagem, Henrique Luduvice, que justificou a sua omissão com falta de dinheiro. O governador disse que o governo gastou R$ 67 milhões na reforma de pontes e viadutos, como se isso fosse um grande feito.

Não há desculpa nem para Rollemberg nem para Agnelo, e os conselheiros do TCDF deveriam ser chamados a explicar porque nada fizeram diante da desatenção dos governadores às recomendações de seus auditores. Mas se os engenheiros, pelo menos desde o início deste século, e o tribunal, em 2011, constataram a falta de manutenção, a responsabilidade vem de longe: os governadores anteriores – especialmente José Roberto Arruda e Joaquim Roriz — também não cuidaram das pontes e viadutos. Se tivessem se preocupado com a manutenção, elas não chegariam à situação apontada no relatório. Espera-se que o ex-vice-governador Tadeu Filippelli, que durante 15 anos comandou direta ou indiretamente a Secretaria de Obras em três governos, não venha a fazer demagogia às custas do desabamento.

Quanto à alegada falta de dinheiro, vale uma comparação, ainda que com as devidas limitações: os donos de um imóvel são alertados por especialistas de que a casa está com problemas em algumas vigas e corre o risco de desabar. A reforma vai ser cara, mas os proprietários têm o dinheiro para realizá-la. Eles preferem, porém, gastar em outras coisas. Consertam uma das vigas e deixam as outras para depois, pois querem construir um novo salão, promover festas, comprar carro novo, pagar um professor particular para os filhos e por aí vai. Acontece que um dia uma das vigas não resiste e há o esperado desmoronamento. Felizmente ninguém estava em casa na hora, mas a família poderia ter morrido.

Pois é: não haveria riscos e desabamentos se este governo e os anteriores tivessem aplicado na manutenção de pontes e viadutos o dinheiro que gastaram em residências oficiais e outras mordomias, carros oficiais, inaugurações e eventos eleitoreiros, publicidade ufanista, carnaval de rua, eventos pretensamente “culturais” para agradar distritais, remuneração de servidores comissionados inúteis indicados por deputados, alugueis dispensáveis, viagens de secretários e outros servidores ao exterior e coisas assim. Sem falar no gasto com megalomanias lucrativas (para alguns) como o estádio para 70 mil pessoas.

 

 

Candidatura de Frejat se fortalece e a farofada política-ideológica pode ser ainda maior

Só os rótulos separam os dois grandes blocos de partidos que tentam impedir a reeleição do governador Rodrigo Rollemberg: embora se apresentem como dois grupos com diferenças políticas e ideológicas, os principais líderes de ambos querem mesmo é estar juntos nas eleições de outubro. O problema maior que têm é como acomodar tantos postulantes em uma só chapa.

Um bloco, chamado de direita, reúne PR (Jofran Frejat), MDB (Tadeu Filippelli), PSDB (Izalci Lucas), PTB (Alírio Neto) e DEM (Alberto Fraga). Outro, uma farofada político-ideológica, junta Cristovam Buarque (PPS), Joe Valle (PDT), Rogério Rosso (PSD) e as legendas de esquerda PCdoB e PPL. Navegando entre ambos, mas próximos de Rollemberg, estão o PRB, o PV e o Pros.

O bloco de “direita” parece se encaminhar para uma chapa com Frejat para governador, um vice do MDB, indicado por Filippelli, e Fraga para o Senado, ficando outra candidatura a senador a ser definida. O candidato a governador do outro bloco seria Joe Valle, com Cristovam tentando a reeleição para o Senado. Valle e Cristovam, porém, têm o desejo de estar na chapa de Frejat, como candidatos a vice-governador e senador, respectivamente. Rosso também gostaria de estar, como candidato a deputado federal ou vice-governador, na chapa liderada por Frejat.

A Frejat agrada a ideia de ampliar seu espectro, mas ele não tem como deixar de fora os aliados históricos do tronco Roriz-Arruda. Como a prioridade do MDB é eleger Tadeu Filippelli para a Câmara dos Deputados, para esse partido não seria tão complicado, mas a Fraga e a Alírio não agrada essa composição heterodoxa. Não seria muito estranho, porém, que nas atuais circunstâncias as cadeiras no Senado fossem disputadas, na mesma chapa, por Cristovam e Fraga.

Todo o castelo que está sendo armado pelos caciques partidários de Brasília pode ruir quando os partidos definirem seus candidatos a presidente da República. Afinal, embora irrelevante eleitoralmente em termos nacionais, Brasília não estará à margem da disputa presidencial.

Joe Valle, Cristovam, Rosso e o pântano político que montaram em busca de Frejat

Não dá para levar a sério a farofada partidária montada pelo senador Cristovam Buarque (PPS), pelo deputado federal Rogério Rosso (PSD) e pelo deputado distrital Joe Valle (PDT) com o objetivo de impedir a reeleição do governador Rodrigo Rollemberg (PSB). Até porque crescem as desconfianças de que o pântano político liderado pelos três tem como objetivo tirar Jofran Frejat da órbita da “direita” e tê-lo como candidato ao governo.

O relato do jornalista Caio Barbieri, do Metrópoles, sobre a reunião que o grupo fez na terça-feira mostra bem esse pântano em que estão se metendo PPS, PSD, PDT, PCdoB, PPL e Pros, e que em sua última reunião teve a presença do PR e do PSDB — que estavam também na reunião que o deputado federal Alberto Fraga (DEM) promoveu no dia seguinte em sua casa, como resposta, e da qual participaram ainda o PMDB e o PTB.

Barbieri mostra que o jogo de cena montado na reunião de terça para dar ideia de unidade foi desmascarado pelos próprios participantes, que não conseguiram esconder suas divergências. O presidente do PR, Salvador Bispo, por exemplo, questionou a ausência de “lideranças importantes”, provavelmente se referindo a Alberto Fraga, ao ex-vice-governador Tadeu Filippelli (PMDB) e ao ex-deputado Alírio Neto (PTB). Rosso tentou justificar: “Neste primeiro momento, separamos um grupo de temperamento mais ameno”. E completou: “Todos serão convidados, sem vetos”. O deputado Raimundo Ribeiro (PPS) disse que ali não cabiam “preconceitos”.

Para mostrar que não quer se juntar a esse grupo, Fraga, que não tem temperamento ameno, marcou uma reunião para o dia seguinte, e lá estavam Jofran Frejat (PR), Alírio Neto (PTB), Filippelli e o deputado federal Izalci Lucas (PSDB). Esse grupo, com raízes rorizistas e arrudistas e que Fraga chama de “direita”, mantém alguma coerência política e ideológica e se divide porque Frejat, Fraga, Alírio, Izalci e Ibaneis Rocha, do PMDB, se dizem pré-candidatos a governador.

Já a farofada juntou partidos de esquerda e centro-esquerda (PCdoB, PPL e PDT) com legendas de centro-direita e direita (PSDB, PPS, PSD, PR e Pros). Izalci, presidente do PSDB, esteve nas duas reuniões, enquanto a outra ala de seu partido, liderada por Maria de Lourdes Abadia, participa do governo de Rollemberg. O PR mandou seu presidente para a reunião da farofada, mas seu candidato, Frejat, só foi à casa de Fraga. O Pros, do deputado federal Ronaldo Fonseca, estava lá mas não esconde sua proximidade com o governador. O deputado Raimundo Ribeiro é notoriamente simpático ao grupo rorizista-arrudista.

A direita e a farofada têm grandes divergências entre elas e internas. Só o que as une é derrotar Rollemberg. A direita tem vários pretendentes ao governo, entre os quais Frejat. Que,  pelo jeito, está na mira da farofada.

 

 

Projeto de iniciativa popular e ano eleitoral levam distritais a propor o fim da verba indenizatória

Nada como a proximidade das eleições: a mesa diretora da Câmara Legislativa vai propor a extinção da chamada verba indenizatória, aberração introduzida pelo Congresso Nacional e adotada por assembleias estaduais e municipais para aumentar, indiretamente, a remuneração de senadores, deputados e vereadores. O então deputado distrital José Antonio Reguffe foi o primeiro a abrir mão de receber a verba indenizatória, procedimento que manteve como deputado federal e senador.

Mas não é só a proximidade da campanha eleitoral que leva os deputados distritais a acabar com sua fonte de renda extra — desde 16 de janeiro estão sendo recolhidas assinaturas para a apresentação de um projeto de lei de iniciativa popular (Plip) acabando com a verba indenizatória e reduzindo drasticamente os gastos com a contratação de pessoal pelos gabinetes parlamentares e com a publicidade da Câmara, o que significará uma economia de R$ 300 milhões em quatro anos.

O presidente da Câmara, Joe Valle, esteve no lançamento da campanha “Câmara + Barata” e assinou o projeto de lei elaborado pelo Observatório Social e pelo Instituto de Fiscalização e Controle. Agora, Joe Valle encabeça a movimentação para que a Câmara se antecipe e acabe com a verba, mas ainda não se falou na redução das despesas com servidores comissionados e com a publicidade — as mais altas de todas as casas legislativas do país, incluindo a Câmara dos Deputados e o Senado Federal.

É claro que é positiva a extinção da verba indenizatória de R$ 25.322 mensais que cada distrital recebe, venha de onde vier a medida e que motivação tenha. Os distritais da atual legislatura tiveram três anos para fazer isso e deixaram para o último, mas antes tarde do que nunca.

Não há nenhuma justificativa para que o cidadão arque com as enormes despesas da Câmara Legislativa (orçamento de mais de R$ 450 milhões anuais) e ainda pague para que os distritais tenham privilégios e façam política pessoal e partidária. A Câmara tem servidores suficientes para dar suporte ao trabalho dos parlamentares, dispensando consultorias externas, e não se justifica que arque com o aluguel e manutenção de escritórios políticos e pague pela locação de veículos e gastos com combustível.

Ao contrário do que diz o deputado Robério Negreiros no Correio Braziliense, a Câmara Legislativa do DF não será a primeira a extinguir a verba indenizatória, medida já adotada pelas assembleias do Rio de Janeiro e do Espírito Santo. Mas se for a terceira está bom demais.

“Direita” vai jogar dinheiro fora com pesquisa para saber que Frejat é seu melhor candidato

Os potenciais candidatos a governador de Brasília oriundos do tronco Roriz-Arruda ainda não decidiram qual deles será o escolhido para disputar as eleições de outubro. Segundo matéria de Francisco Dutra no Jornal de Brasília, vão encomendar uma pesquisa para saber quem está mais bem posicionado perante o eleitorado e esse será o escolhido. Se a pesquisa é para isso, vão jogar dinheiro fora, pois não terão a resposta.

Hoje nem mesmo uma pesquisa qualitativa bem feita, com dez grupos representativos e bem estruturados, seria um bom indicador para escolher o candidato da “direita”. Uma pesquisa quantitativa servirá apenas para dizer que a maioria dos eleitores ainda não tem candidato, ou rejeita os até agora apresentados, e que as intenções de voto para os listados são irrisórias e nada indicam, nem mesmo cruzadas com os índices de rejeição. Se é preciso escolher logo um candidato, é melhor seguir o instinto, o conhecimento da realidade local e o bom senso, que não custam um real.

A história das eleições brasileiras está repleta de exemplos de candidatos que apresentavam 1% em fevereiro e ganharam as eleições, assim como de outros que apareciam como favoritíssimos e não chegaram ao segundo turno. Não será uma pesquisa em fevereiro que indicará o melhor nome da “direita”, ou o que tem mais potencial de crescimento. Para os eleitores, segundo pesquisas qualitativas, todos os apresentados até agora – Jofran Frejat, Ibaneis Rocha, Alberto Fraga, Alírio Neto e Izalci Lucas – são a mesma coisa: velhos políticos, adeptos da velha politicagem e ansiosos para retomar o poder e suas benesses.

Aliás, por instinto, conhecimento do ambiente local e bom senso, já se sabe que, dos já colocados, o melhor candidato do tronco rorizista-arrudista é Jofran Frejat. Podem economizar o dinheiro da pesquisa.

Para lembrar: em 1994, já durante a campanha, Cristovam Buarque não subia nas pesquisas e alguns petistas, com o apoio de jornalistas simplistas e superficiais, diziam que o candidato a governador deveria ter sido Chico Vigilante, que tinha no início do ano índices muito melhores, algo como 20%, contra os 3% de Cristovam. O que os petistas e os jornalistas não viam é que Cristovam poderia sair dos 3% para ganhar a eleição, enquanto Vigilante chegaria no máximo a 25%.