O novo em 2018: Joe Valle, Cristovam, Rosso, Celina, Universal, Assembleia de Deus, Sara Nossa Terra…

Nas eleições de 2014 a coligação que apoiou a candidatura ao governo do então senador Rodrigo Rollemberg era integrada por PSB, PDT, PSD e Solidariedade. O candidato ao Senado era o então deputado José Antonio Reguffe, do PDT. Os principais candidatos a deputado federal eram Rogério Rosso, do PSD — que indicou o candidato a vice-governador, Renato Santana — e Augusto Carvalho, do Solidariedade. A Rede Sustentabilidade também apoiou a chapa, mas ainda não era formalmente um partido.

O PDT, o PSD e a Rede romperam com o governo de Rollemberg neste semestre. O PSB é o partido do governador e o Solidariedade ainda se mantém na base governista. Eis que agora, como noticia o repórter Francisco Dutra, no Jornal de Brasília, três dos então apoiadores de Rollemberg estão articulando uma chapa para disputar o governo: o deputado distrital pedetista Joe Valle, o deputado federal Rogério Rosso e o senador Cristovam Buarque, que em 2014 era do PDT e agora está no PPS – partido que não participou da coligação que elegeu o governador.

Para avaliar o que, além do tempo na televisão, significa esse aliança de PDT, PSD e PPS — que falam em agregar partidos da direita conservadora, como os predominantemente evangélicos PRB (Igreja Universal), PSC (Assembleia de Deus), Podemos (Sara Nossa Terra) e PHS — é bom ver o que mudou de 2014 para cá:

  • O distrital Joe Valle, eleito com 20.352 votos, elegeu-se presidente da Câmara Legislativa este ano com apoio de parlamentares denunciados por corrupção e tem se apresentado como candidato ao governo ou ao Senado. Ser presidente da Câmara pode dar mais visibilidade ao distrital, mas ao mesmo tempo a instituição está no fundo do poço em termos de credibilidade, respeitabilidade e popularidade. Todos os deputados denunciados e respondendo a processos continuam exercendo seus mandatos, sob as vistas de Joe Valle.
  • O deputado Rogério Rosso, que em 2014 apoiava entusiasticamente o governo e a reeleição de Dilma Rousseff, seguindo orientação de seu mentor Gilberto Kassab, tornou-se um dos mais próximos aliados e defensores de Eduardo Cunha e do impeachment. Por duas vezes tentou ganhar a presidência da Câmara, já de olho na disputa pelo governo de Brasília em 2018. Sem sucesso, desgastado e sem a proteção de Eduardo Cunha, recolhido à prisão em Curitiba, Rosso mergulhou na obscuridade. Só não foi preso, como os ex-governadores José Roberto Arruda e Agnelo Queiroz e o vice-governador Tadeu Filippelli, por ter foro privilegiado. Seu líder Kassab também está envolvido em atos de corrupção.
  • O senador Cristovam Buarque deixou o PDT frustrado: queria disputar a presidência da República, mas Ciro Gomes filiou-se ao partido já consagrado como candidato. Foi então para o PPS na esperança de ter o apoio de seu amigo e conterrâneo Roberto Freire, mas foi humilhado quando Freire disse publicamente que ele não tem mais votos e tentou fazer do apresentador Luciano Huck o candidato do partido. Ao apoiar o impeachment de Dilma e medidas do presidente Temer, Cristovam perdeu seu eleitorado à esquerda e receia não conseguir a reeleição ao Senado. Sua esperança é ter o apoio de evangélicos e ser a opção de segundo voto.
  • O PPS de Cristovam é hoje, também, o partido de dois deputados distritais denunciados na Operação Drácon e que se colocam na extrema-direita na Câmara Legislativa: a ex-presidente Celina Leão, afastada judicialmente do cargo, e Raimundo Ribeiro, que chegou a ser líder do governo de Rollemberg.
  • O mais importante apoiador de Rollemberg em 2014 não foi nenhum desses, mas o senador José Antonio Reguffe, que teve mais votos que o governador. Reguffe estava no PDT e hoje não tem partido. Não é candidato em 2018 e não demonstra nenhuma intenção em apoiar essa coligação PDT-PSD-PPS-Evangélicos.

O mais provável candidato a governador, caso essa aliança se viabilize, é o distrital Joe Valle, que foi do PSB. Cristovam pode ser o candidato ao Senado e Rosso tentar a reeleição à Câmara. Dá, assim, para entender porque a quase totalidade dos eleitores brasilienses diz que ainda não tem candidato a governador e não se entusiasma por nenhuma das alternativas já colocadas.

Dança de cadeiras no governo em nome da velha política e da reeleição

O secretário adjunto de Trabalho vai para o lugar do secretário adjunto de Ciência, Tecnologia e Inovação, que vai para o lugar do presidente da Fundação de Apoio à Pesquisa (FAP), que ficou sabendo disso ao ler matéria dos repórteres Manoela Alcântara e Ian Ferraz publicada no Metrópoles. As mudanças nada têm a ver com eficiência, competência ou interesse público — são para entregar a Secretaria Adjunta do Trabalho ao deputado federal Ronaldo Fonseca, do Pros, e não deixar desabrigados o atual ocupante do cargo, Thiago Jarjour, e o secretário adjunto de Ciência, Tecnologia e Inovação, Tiago Coelho. Assim é a velha política, assim é o governo de Rodrigo Rollemberg.

O presidente da FAP, Wellington Almeida, é professor da Universidade de Brasília e não faz questão nenhuma de continuar no cargo, mas poderia ter sido informado da intenção do governador por ele próprio, e não por dois repórteres. A única pessoa do governo que conversou com Wellington sobre o assunto, depois de publicada a matéria, foi seu presumido sucessor. Mas essa é uma trapalhada típica da atual gestão, que age assim desde o início do mandato. Na FAP, Wellington não só consertou erros cometidos por seus antecessores como contrariou interesses poderosos e ilegítimos.

Thiago Jarjour deixou o PDT quando o partido rompeu com o governo. Será candidato a deputado distrital, mas está sem partido. Tiago Coelho é o presidente do PSB e mantém a tradição negativa, herdada de Marcos Dantas e de Jaime Recena, de acumular a função partidária com cargo no governo. O deputado Ronaldo Fonseca, evangélico, é um dos novos aliados da direita conservadora que Rollemberg cooptou depois que o PDT, o PSD e a Rede romperam com seu governo. Para atendê-los com cargos e verbas, o governador deverá fazer mudanças também em administrações regionais.

 

Reeleição causa mais males do que benefícios e deveria acabar, com mandatos de cinco anos

Chefes de governo em regimes parlamentaristas frequentemente exercem o cargo por muitos anos. Não são eleitos diretamente, mas pelo Legislativo, e geralmente só são substituídos quando o partido do qual são membros perde a maioria parlamentar. Podem ser derrubados também por uma moção de desconfiança, mas isso tem sido raro. O único país parlamentarista que proíbe a permanência do mesmo governante por mais de dois mandatos parlamentares é Cuba, em decisão recente.

Em regimes presidencialistas os chefes de governo têm de se submeter ao voto popular periodicamente e na maioria dos países podem se reeleger — ou indefinidamente, ou apenas uma vez, ou depois de permanecerem fora do governo por um mandato. Há países, como o Brasil, em que a reeleição é permitida apenas para o mandato seguinte, mas depois da alternância o ex-governante pode voltar a ser eleito. Nos Estados Unidos não pode.

Até a década de 1990 não existia reeleição na maioria dos países da América Latina, ou não era possível se reeleger para um novo mandato imediato. No Brasil a reeleição foi aprovada em 1998, para beneficiar o então presidente Fernando Henrique Cardoso. Juscelino Kubitschek não pôde se reeleger em 1960, mas iria se candidatar em 1965, se os golpistas de 1964 não tivessem acabado com as eleições diretas.

Há quem defenda a reeleição no Brasil alegando que quatro anos de mandato é pouco e que o governante se submete ao voto para continuar, podendo o eleitor ratificar ou não a sua permanência. O primeiro argumento pode ser superado pela adoção de um mandato maior, de cinco anos, como era até a Constituição de 1988, ou de seis, como no Chile. No segundo ponto — a disputa pela reeleição — é que estão hoje as principais objeções à reeleição. Uma delas é a vantagem que leva sobre os demais candidatos, por deter o poder e disputar a eleição ocupando o cargo.

Para se reeleger, governantes deixam de tomar decisões importantes, mas que criam atritos com alguns segmentos. O então governador José Roberto Arruda, por exemplo, deixou para fazer a concessão do metrô no segundo mandato — que não houve. Desde o ano anterior à eleição, os governantes dedicam-se mais à sua campanha do que ao governo propriamente dito. As ações de governo são voltadas para a reeleição, não para a população. Prevalecem eventos e posturas demagógicas e eleitoreiras.

Está sendo assim em Brasília. De olho na difícil, mas não impossível reeleição, o governador Rodrigo Rollemberg só pensa nisso. É interessante ver o que escreveu Aldenir Paraguassú, que foi administrador do Lago Sul. Aliás, no início do governo o único administrador realmente indicado pela comunidade, como tinha prometido Rollemberg, foi Paraguassú:

“O próximo ano de 2018 inexoravelmente será assustadoramente repleto de manifestações, medidas e providências, ou não, típicas do velho modelo “estruturado”, com o propósito único de dar continuidade ao poder (…) Lamentavelmente, como em todos os governos passados e ultrapassados, o asfalto será recapeado, a grama podada, as faixas marcadas, a atuação da Agefis sensivelmente minimizada, autuações quase nenhuma, ou seja, liberação geral. Ninguém pode perder votos, não importa se a cidade perde e a sociedade também, além de pagar a conta. (…) Esperemos os mais esdrúxulos acordos e combinações em benefício de poucos, jamais em torno de propostas e projetos que possam beneficiar muitos.”

A reeleição, no Brasil, causa mais prejuízos à população do que benefícios. Deveria acabar, assim como deveriam ser limitados os mandatos legislativos.

 

Velha política não é só corrupção e toma lá dá cá, é demagogia também

A demagogia é um aspecto da velha política que geralmente é colocado em plano secundário, abaixo da corrupção, da troca de favores ilícitos e do loteamento do Estado. Aparentemente inofensiva, a demagogia é um dos fatores do atraso em que vive o Brasil e Brasília, pois simplifica questões importantes e impede que assuntos sérios sejam debatidos com profundidade e seriedade, além de despolitizar a solução dos problemas. A demagogia manifesta-se de diversas maneiras, todas nocivas. Assim como com a corrupção e o toma lá dá cá, quem perde com a demagogia é o povo.

É demagogia, por exemplo, cobrar gastos do governo — com obras, com contratações, com o pagamento de dívidas — sem apontar com clareza de onde devem vir os recursos. É demagogia prometer sem mostrar como será cumprida a promessa, ou depois deixar de cumpri-la. É demagogia anunciar ou exigir ações e medidas, que se sabe serem irrealizáveis, para fazer média com pessoas ou entidades. É demagogia proferir discursos tonitruantes com palavras vazias e frases de efeito, sem qualquer conteúdo.

Embora seja mais característica de políticos de oposição, que não têm a responsabilidade de governar e prestar contas da gestão, a demagogia é praticada também por governantes. São práticas demagógicas as inaugurações festivas, com claques e puxa-sacos a postos para aplaudir. Assim como as “inspeções de obras” em que não há inspeção alguma, mas apenas poses para fotos e filmes. Ou as postagens ufanistas e palavrosas nas redes sociais. Dizem que a demagogia caminha ao lado da simulação de produtividade — há no atual governo excelentes comprovações disso.

Sem falar dos candidatos que já despontam, demagogos por definição ao seguirem os cânones da velha política. Além das promessas e sorrisos ensaiados, candidatos são instruídos a carregar crianças no colo e a apertar o máximo possível de mãos, não se preocupando em ouvir o que essas pessoas têm a dizer. Um ex-deputado brasiliense dizia que um debate com eleitores não vale dez apertos de mãos. Campanhas eleitorais são campo fértil para demagogos.

As pesquisas e a percepção de quem circula pela cidade indicam que os brasilienses estão fartos da demagogia e da velha politicagem e anseiam por mudanças, por novos métodos para governar e fazer política. Os velhos políticos, porém, não serão superados de um dia para o outro. O sistema eleitoral foi montado por eles para facilitar sua permanência no poder, não para que haja renovação. Em uma cidade em que as velhas práticas políticas são adotadas há quase 30 anos e exercidas impunemente pelos atuais governantes e legisladores, não é fácil mudar.

Mas algum avanço haverá, certamente. Hoje é impossível dizer até que ponto, depende ainda de muitas variáveis. Os governistas e oposicionistas à esquerda e à direita que insistem no jeito velho de fazer política  — e os blogueiros e jornalistas que os exaltam e os promovem — deveriam prestar mais atenção às ruas, já que, pelo jeito, não leem as pesquisas. O novo convive com o velho por um tempo, mas logo o velho dá lugar ao novo.

Brasília, cidade aberta — movimento em busca de novas práticas políticas e de governo

Foi lançado no sábado o movimento Brasília, Cidade Aberta, que tem como objetivo contribuir para um novo tipo de prática política e para a boa governança local e nacional. Os integrantes do movimento, apresentado no auditório do Museu Nacional, querem “cooperar e continuar transformando Brasília e o Brasil, promovendo a convergência de diversas iniciativas que atualmente agem de forma fragmentada, gerando uma potência coletiva e eficaz, para a boa governança”.

No ato de lançamento, coube a mim falar sobre “as resistências da velha política à cidade aberta”:

Vivemos hoje uma contradição antagônica:

De um lado, a nossa aspiração por uma sociedade mais justa e menos desigual, com a eliminação da miséria e a redução da pobreza; com democracia real e participativa e governos abertos e transparentes; com ampla liberdade e respeito às diferenças. Queremos uma sociedade em que a população tenha acesso a serviços públicos acessíveis e de qualidade, queremos um futuro melhor para Brasília e para o Brasil.

De outro lado, impedindo que nossas aspirações sejam alcançadas, temos um sistema político e eleitoral retrógrado, desenhado para manter no poder os que já estão no poder e impedir a renovação; um estamento político e burocrático distante da população e gozando de privilégios inadmissíveis; um Estado ineficiente e ineficaz para atender à população até em suas necessidades básicas; a prevalência do que se denomina velha política: a negociação política legítima e transparente dando lugar a acordos e conchavos espúrios e oportunistas, ao loteamento da administração pública e à troca de favores; a corrupção como prática sistêmica e enraizada em todos os níveis.

Se essa contradição não for superada e esse quadro persistir, nossos objetivos e nossas aspirações jamais serão realidade. Poderemos ter vitórias pontuais, parciais, mas não a sociedade fraterna, inclusiva e igualitária que desejamos.

A situação lamentável em que vivemos não será mudada pelos que hoje detém a hegemonia e o poder econômico e político. Não será mudada pelos que dominam a economia em benefício próprio, gozam de privilégios e submetem a maioria do povo a seus desígnios.

Eles podem até promover mudanças, e as promovem, mas serão sempre mudanças para que, em essência, tudo permaneça como está e para que eles não percam a hegemonia e o domínio do Estado e da sociedade.

Só a sociedade civil pode realizar as mudanças necessárias para que nossos objetivos sejam alcançados. Só a mobilização da sociedade promoverá o que ouso chamar de uma virada radical, uma revolução democrática.

Nós, aqui, somos uma ínfima parte dessa sociedade civil, mas estamos tentando cumprir esse papel. Não somos um bloco homogêneo, não pensamos igual sobre tudo. Temos, aqui, diversas concepções sobre a vida e sobre a política. Respeitamos nossas diferenças.

O importante é que estejamos abertos ao debate qualificado e encontremos os pontos convergentes para lutarmos juntos por um país melhor e uma cidade aberta.

 

Pesquisas quantitativas agora só não têm menos importância que enquetes e blogueiros lobistas

Os sucessivos erros dos institutos de pesquisas, aqui e em outros países — como agora no Chile — têm levado a questionamentos políticos e metodológicos. Há os que acham que os institutos erram deliberadamente, para beneficiar uma ou outra força política. Há os que atribuem os erros à dificuldade de fazer pesquisas quantitativas nas condições atuais — as pessoas andam mais desconfiadas, não se preocupam em responder corretamente as questões, temem até mesmo conversar com os pesquisadores, quanto mais recebê-los em casa. E há os que acham que entrevistadores e seus supervisores não merecem confiança e falseiam questionários.

Seja lá o que for, pesquisas quantitativas um ano, ou 10 meses antes das eleições, não merecem muita atenção. Dão, no máximo, indicações que podem ser úteis a estrategistas de campanhas, se forem lidas corretamente. Não dá sequer para dizer, como gostam alguns jornalistas, que “se as eleições fossem hoje”… Pesquisas tanto tempo antes não permitem essa afirmação, pois apenas medem o reconhecimento de nomes, geralmente pela presença em cargos ou em eleições anteriores, pouquíssimas intenções firmes de votos e escolhas aleatórias. Dá para dizer isso quando a campanha já se desenrola e faltam poucos dias para a eleição. E se a pesquisa estiver correta.

As pesquisas que no momento podem interessar aos que traçam as estratégias de partidos e candidatos são as qualitativas. Essas permitem entender os cenários, os humores e as tendências, o que é gasoso e o que é sólido.

E para não dizer que não falei das enquetes que, algumas vezes sob o apelido falso de pesquisas, são realizadas nas redes sociais: não valem nada e não indicam nada, a não ser a mobilização de amigos e adeptos para votar em alguém que depois sairá alardeando sua liderança e favoritismo. Valem menos ainda do que os lobistas de candidatos que se vestem de blogueiros.

PS: na nota de ontem, sobre as eleições no Chile, cometi um erro já corrigido: a abstenção foi de 54% e não de 46%.

 

 

É bom refletir sobre os resultados das eleições no Chile, pensando no Brasil

Um brasileiro não pode contar com a chamada grande imprensa brasileira se quiser ter informações relevantes e análises aprofundadas sobre eleições em países da América do Sul. As informações são apenas as mais básicas e as análises são superficiais e geralmente com viés ideológico. Os jornalistas, escrevendo ou falando daqui do Brasil ou mesmo dos países em que se realizam as eleições, acham que cumprem suas missões entrevistando alguns acadêmicos e “especialistas” e conversando com motoristas de táxi (ou uber), garçons e porteiros do hotel. E, claro, dando, se possível, uma passadinha nas entrevistas dos candidatos.

Está sendo assim, agora, com as eleições presidenciais no Chile. Mas, os que estudam os temas eleitorais e os que de alguma maneira estão envolvidos ou se envolverão nas eleições brasileiras em 2018 deveriam verificar o que ocorreu ontem no país vizinho, embora não limítrofe. Em suma, o primeiro turno das eleições presidenciais chilenas dá algumas indicações relevantes a partir de fatos que têm se repetido em outros países e de situações mais específicas, e que podem se repetir no Brasil:

  • Os institutos de pesquisa erraram feio, mais uma vez. Chegaram a prever 45% dos votos para o candidato da centro-direita, o ex-presidente Sebastián Piñera, que teve 36,6%. E prejudicaram a candidata da Frente Ampla, de esquerda, Beatriz Sánchez, para quem previam cerca de 10% dos votos e que teve 20,2%, quase superando o socialista Alejandro Guiller, que teve 22,7. Beatriz diz que poderia ter ido para o segundo turno se os institutos tivessem mostrado que disputava voto a voto com Guiller.
  • O voto não é obrigatório no Chile e a abstenção tem sido alta nos últimos pleitos. Ontem foi de 54%. Como vai votar quem quer, os votos em branco e nulos foram dados por apenas 0,59% e 0,98% dos que compareceram. Por isso se fala no Chile em “democracia de minorias”, pois o mais votado teve menos de 20% dos votos dos 14.347.288 eleitores.
  • Pela primeira vez desde que se restaurou a democracia, os partidos de centro-esquerda não formaram a Concertación que venceu todas as eleições presidenciais, menos uma — a vencida por Piñera. Dos seis principais candidatos, dois situam-se à direita e quatro à esquerda, aí incluída a democrata-cristã Carolina Goic (5,8%), pois esse partido sempre esteve aliado aos socialistas. Para muitos analistas, a esquerda poderia ser derrotada até no primeiro turno devido à ascensão da direita no continente. Para outros, a divisão seria fatal para a esquerda. Mas, os candidatos da esquerda somaram 54,4% dos votos e os da direita tiveram 44,5%.
  • O segundo turno, daqui a um mês, é uma nova eleição, agora polarizada entre a esquerda, na situação (Guiller, do partido da presidente Bachelet) e a oposição de direita (Piñera). O candidato da extrema-direita, José Kast (7,9%), defensor de Pinochet, já deu apoio incondicional a Piñera. Guiller já recebeu apoio do progressista Marco Enriquez-Ominami (5,7%), mas ainda precisa obter o apoio da Frente Ampla e dos democratas-cristãos.

A realidade do Chile não é a mesma do Brasil, que não é a mesma da Argentina, do Uruguai e da França, mas é interessante ver como se comporta o eleitorado em outros países e como algumas situações se repetem. Institutos de pesquisa, por exemplo, têm errado em inúmeros países — será que os métodos de pesquisa quantitativa não precisam ser renovados? Essas pesquisas ainda são relevantes?

Os chilenos são tidos como conservadores, mas deram maioria de votos para a centro-esquerda e para a esquerda. Será que no Brasil isso não pode acontecer? A abstenção no Chile é grande, mas permanecerá em um segundo turno polarizado entre situação e oposição, entre centro-esquerda, possivelmente com apoio da esquerda, e centro-direita com apoio da direita pinochetista? Aqui no Brasil a disputa com vários candidatos à esquerda ou à direita inviabiliza a vitória desses segmentos?

Não custa refletir sobre os resultados no Chile, pensando no Brasil. E em Brasília.

 

 

 

Rollemberg e Frejat estão na frente, mas nada está definido e tudo pode mudar

A pesquisa reservada realizada em Brasília nos primeiros dias deste mês tem margem de erro elevada (3,5%), mas reforça algumas constatações e tendências, obtidas em outras pesquisas quantitativas e em qualitativas, a respeito da eleição para governador em 2018:

  • Apesar da alta reprovação de seu governo e de seu desempenho pessoal, e da elevada rejeição dos eleitores, o governador Rodrigo Rollemberg é forte candidato à reeleição se os candidatos, mesmo com alteração de nomes do PSol e do PT, forem os listados pelos pesquisadores. O que mais o ameaça é Jofran Frejat, mas o grande risco que Rollemberg e Frejat correm é o de surgir um candidato com o perfil desejado pelos eleitores: limpo, honesto, centrado, com experiência de gestão, capacidade de articulação e atitude e coragem para enfrentar os graves problemas de Brasília. Rollemberg, na visão dos eleitores, atende apenas aos dois primeiros requisitos: é limpo e honesto. Frejat, embora tenha vários processos por improbidade administrativa, é considerado honesto e tem imagem de bom gestor, mas pesam contra ele a percepção de ser vinculado a Arruda e Roriz — aos quais deveria obediência — e a idade.
  • A diferença entre os que aprovam o governador e seu governo (12,8%) e os que manifestam intenção de votar em Rollemberg (15,3%) é pequena, mas pode aumentar devido à sua imagem de honestidade, especialmente se Frejat não for candidato a governador. Grande parcela da população critica a gestão de Rollemberg, mas prefere o “não rouba e faz pouco” ao “rouba muito, mas faz”. Sem alternativas que considera limpas, votará pela continuidade.
  • Os demais candidatos não são necessariamente desonestos, mas precisam também parecer honestos. Por mais limpo que seja o ainda desconhecido candidato do PT, pesarão contra ele as acusações de corrupção a integrantes do partido e em especial ao ex-presidente Lula. Ibaneis Rocha, ex-presidente da OAB-DF, queimou sua imagem de outsider ao se filiar ao PMDB, liderado pelo ex-vice-governador Tadeu Filippelli, acusado de diversas irregularidades e preso recentemente em operação da Polícia Federal. Joe Valle é o presidente da desgastada e desacreditada Câmara Legislativa, e tido por muitos como protetor de distritais corruptos que mantêm seus mandatos.
  • Reguffe, em todas as pesquisas, é o mais votado para governador. Não está entre os listados porque reiteradamente declara que não será candidato — e não será mesmo –, e isso fez com que tivesse poucas intenções espontâneas, pois grande parte do eleitorado já sabe que não disputará as eleições. É, porém, o mais importante cabo eleitoral de Brasília. Quem tiver o seu apoio, sai com vantagem. Mas Reguffe não demonstra simpatia por nenhum dos nomes já lançados.
  • Os considerados maus governos de Agnelo Queiroz e Rodrigo Rollemberg — e, para muitos, também o de Cristovam Buarque — praticamente inviabilizam em Brasília a eleição de um candidato identificado com a esquerda, ou com perfil parecido ao de Agnelo e Rollemberg. Há a percepção, em boa parcela do eleitorado, de que a esquerda não sabe governar. Esse é mais um fator desfavorável a Joe Valle, que foi do PSB e é do PDT, tendo participado dos governos de Agnelo e de Rollemberg.
  • O PSol herda boa parte dos votos que iam para o PT, mas seu discurso extremamente esquerdista o coloca como partido de oposição, não como partido capaz de exercer o governo.
  • Alberto Fraga, com seu discurso conservador e de direita, tem muitos eleitores, suficientes para se eleger senador, mas é muito difícil que consiga maioria absoluta para ganhar a eleição para governador em segundo turno. O apoio de Jair Bolsonaro só reforçará isso. O eleitorado de Brasília tende a rejeitar os extremos, em favor de alguém centrado.

Em suma: o quadro para governador continua indefinido e o cenário de hoje pode mudar em função de fatos novos que surjam — e têm surgido a cada dia — e de quem serão realmente os candidatos, pois alguns dos hoje cotados poderão se lançar a outros cargos e não se deve descartar o lançamento de nomes novos e inesperados. Ou até que Rollemberg e Frejat não sejam candidatos. O quadro para a eleição presidencial também está indefinido e certamente terá influência em Brasília. Só depois de abril, quando já terá terminado o prazo para filiação partidária, é que as coisas ficarão mais nítidas.

Governo e governador são reprovados com notas 3,5 e 2,9, mas Rollemberg lidera em pesquisa

É muito grande a reprovação, pelos brasilienses, de Rodrigo Rollemberg e de seu governo. Mas o governador lidera as intenções de voto espontâneas e estimuladas, segundo pesquisa reservada realizada em Brasília nos primeiros dias deste mês. Rollemberg e os demais candidatos citados, porém, perdem feio para os votos nulos e em branco e para os que não quiseram responder em quem pretendem votar em 2018. A pesquisa, com margem de erro de 3,5%, pode não ser muito precisa — e provavelmente não é — quanto aos números, mas dá indicações sobre o que pensam hoje os brasilienses a respeito do governo e das eleições.

O governo, avaliado pelos pesquisados com notas de zero a 10, é reprovado por 58,5% (notas 0 a 3) dos brasilienses e aprovado por 12,8% (notas 7 a 10). A nota média do governo é 3,5. O governador tem os mesmos 12,8% de aprovação, mas a reprovação é maior, de 60,3%, recebendo nota média de 2,9.

Rollemberg é o mais citado espontaneamente para o governo (10,9%), seguido de Jofran Frejat (3%), Toninho do PSol e Joaquim Roriz (2,5%), Erika Kokay (2,2%), Izalci Lucas (1,8%), Alberto Fraga e Arlete Sampaio (1,6%), Reguffe (1,4%) e José Roberto Arruda (1%). Mas 64,7% dizem que não sabem ou votarão nulo ou em branco.

Quando a intenção de voto é estimulada, Rollemberg recebe 15,3% das intenções de voto, seguido de Jofran Frejat (10,6%), Toninho do PSol (7,7%), Izalci Lucas (4,8%), Arlete Sampaio e Alberto Fraga (4,6%), Joe Valle (1,3%) e Ibaneis Rocha (menos de 1%). Nulos, em branco e não sabem em quem votar somam 44,5% dos eleitores. A única rejeição expressiva é a de Rollemberg (35,8%), sendo a de Frejat de 8,3% e as demais ainda menores.

Dos nomes listados para escolha do eleitor, dois deles não se declaram candidatos: Toninho do PSol e Arlete Sampaio, do PT, que provavelmente serão candidatos a deputado distrital. Mas as intenções de voto que receberam podem dar indicações da votação que os candidatos de seus partidos poderiam ter se as eleições fossem hoje.

Na próxima nota, observações sobre o que mostra essa pesquisa.

 

Governo tem de informar à sociedade por que aceita ou não as reivindicações de servidores

Greves em serviços públicos, como as dos empregados do metrô e da CEB, não são contra empresários ou governantes, são contra o povo. Os “patrões” dos servidores e empregados do governo e das empresas públicas são os cidadãos, e não, como muitos pensam, os que governam o Distrito Federal e os que dirigem as companhias cujo capital é total ou majoritariamente estatal. São os cidadãos que, pagando impostos, taxas e tarifas, custeiam os serviços públicos, incluindo-se os salários e benefícios recebidos pelos servidores e empregados. São os cidadãos que têm o direito de receber esses serviços com qualidade e eficiência.

Os que governam a cidade têm errado na gestão das sucessivas greves de servidores da administração e de empregados nas empresas públicas. Ou endurecem e sequer negociam ou cedem sem deixar claro para os cidadãos porque estão aceitando as reivindicações, que muitas vezes aumentam privilégios e oneram excessivamente os cofres públicos e o cidadão. Mas o pior é que as negociações e as decisões sobre as greves são tomadas a portas fechadas, sem que a sociedade seja informada de todas as circunstâncias que as cercam.

Para começar, as negociações não deveriam ser feitas com os diretores e advogados das empresas públicas. Muitos diretores e os advogados são empregados de carreira e o que for conquistado pela categoria irá beneficiá-los. Já houve casos, em gestões passadas, de procuradores de uma empresa perderem deliberadamente prazos de recursos. Secretários e diretores de autarquias também não são as pessoas mais indicadas para negociar com sindicatos de servidores e empregados públicos. Sofrem pressões diretas e, mesmo não sendo da carreira, querem ficar bem com os subordinados, às vezes em função de projetos políticos. Não adianta também incumbir o secretário de Administração ou Gestão — quando o titular quer fazer demagogia e irresponsabilidade com dinheiro público cede facilmente aos sindicatos, como foi no governo de Agnelo Queiroz.

As negociações deveriam ser, pelo lado do governo, coordenadas por um grupo destacado especialmente para manter permanente diálogo e entendimento com os sindicatos. O governo deveria apresentar não só aos sindicatos, mas à sociedade, todos os dados e números que utilizar para aceitar ou não as reivindicações. Isso levaria os sindicatos a terem de fazer o mesmo. Cada decisão do governo deveria ser muito bem fundamentada, com as consequências e impactos de cada ponto, e amplamente divulgada. A população tem o direito de saber por que o governo não cede, ou por que aceita esta ou aquela cláusula, e o que isso significará para os cofres do Estado e da empresa e para o bolso do cidadão.

O ideal seria que as negociações fossem abertas à imprensa, que documentaria todo o processo. O atual governo tentou isso, no início do mandato, mas os sindicatos das áreas de educação e de saúde reagiram mal e quiseram que as negociações fossem a portas fechadas. O que se via é que muitas vezes ouviam ou diziam uma coisa na reunião e contavam outra, diferente, nas assembleias. Mas isso faz parte do teatro político e os sindicatos não estão à parte dele.

Há realmente um ponto negativo nas negociações abertas à imprensa: na presença dos jornalistas e das câmeras, os participantes, dos dois lados, tendem a fazer discursos e encenar situações, em vez de negociar com seriedade. E com dinheiro público e com o cidadão não se brinca.