A velha politicagem começa atuante em 2018

A nota publicada hoje na coluna Eixo Capital, do Correio Braziliense, é uma síntese da velha politicagem que persiste no Distrito Federal: três pretensos candidatos ao governo de Brasília estiveram na segunda feira na casa do ex-deputado e ex-vice-governador Tadeu Filippelli: Ibaneis Rocha (PMDB), Jofran Frejat (PR) e Joe Valle (PDT). A nota, da jornalista Ana Maria Campos, não revela o que exatamente conversaram os quatro próceres da política brasiliense na residência do vice-governador de Agnelo Queiroz.

A matéria publicada ontem no Jornal de Brasília, assinada por Milena Lopes, dá uma pista: “Uma grande aliança, com partidos e políticos de tudo o que é lado, com o intuito de derrubar o governador Rodrigo Rollemberg nas urnas, em outubro, é gestada na capital”. O texto cita Tadeu Filippelli, Frejat, Ibaneis, Cristovam Buarque (PPS), Rogério Rosso (PSD), Alírio Neto (PTB), Alberto Fraga (DEM) e Izalci Lucas (PSDB), além do ex-governador José Roberto Arruda, como possíveis participantes dessa “grande aliança”.

Há meses que os políticos tradicionais de Brasília vêm tomando café, almoçando, jantando e se encontrando para conversar sobre as eleições de 2018. As mais esperadas e as mais estranhas alianças entre eles já foram especuladas. Joe Valle, por exemplo, já se reuniu com os antigos aliados do PT, mas cultiva a turma originária do tronco Roriz-Arruda. Cristovam Buarque, que sempre esteve à esquerda no espectro eleitoral, bandeou-se para a turma à direita.

A razão da união de todos eles é derrotar o governador Rodrigo Rollemberg. Os que realmente querem disputar o governo contra Rollemberg buscam formar a maior aliança possível em torno de suas candidaturas. Aos que almejam uma cadeira no Senado ou na Câmara dos Deputados também interessa a constituição de um bloco politicamente forte que os favoreça eleitoralmente.

A união de antigos “vermelhos” com os “azuis” e “verdes” de Roriz e de Arruda é justificada com uma construção teórica pretensamente elaborada sobre o fim da distinção entre esquerda e direita e com um discurso vazio e oportunista sobre a necessidade de “salvar” Brasília do que consideram — com o respaldo de pesquisas — péssima e desastrosa gestão de Rollemberg.

Mas, depois de tantas conversas e comes e bebes, esses velhos políticos já poderiam pelo menos ir além das frases demagógicas sobre “má gestão” e mostrar à população no que exatamente se opõem a Rollemberg e o que propõem de diferente, ainda que em linhas gerais, para um novo governo em 2019.

Rollemberg dizia que iria renovar e não fazer o “mais do mesmo”, mas manteve os velhos esquemas e vícios do governo e da política e faz o “mesmo do mesmo”. Não faz um bom governo e, diante da perda de aliados, radicalizou sua guinada à direita e procura justificar sua aliança com tucanos, conservadores e fundamentalistas religiosos.

A grande e heterogênea aliança contra ele, porém, nada apresenta de novo, nem nas ideias nem nos métodos. Pelo jeito, quer apenas recuperar o espaço de poder — com todas as suas benesses políticas e financeiras — que alguns deles perderam em 2010 e outros, como Filippelli, em 2014.

 

 

A lei eleitoral favorece os “grandes”, mas nas eleições de 2018 pode ser diferente

Os grandes partidos saem com grande vantagem nas eleições de 2018: terão mais dinheiro do fundo estatal, mais tempo no rádio e na televisão, presença garantida nos debates e não precisam se preocupar com a cláusula de barreira. A legislação eleitoral, incluindo os dispositivos recentemente aprovados, foi elaborada para beneficiar grandes partidos e os políticos que já detêm mandato, dificultando o surgimento e a consolidação de novas legendas e a renovação nas casas legislativas e nos executivos. Além disso, impede o que existe em 90% dos países: a possibilidade de um cidadão ser candidato independente, sem vínculo com partido.

É natural, assim, que os candidatos a governador de Brasília que são filiados a grandes partidos sejam considerados favoritos. Terão mais dinheiro para suas campanhas e mais tempo para se apresentarem nos programas e nas inserções no rádio e na televisão, além de estarem nos debates e terem uma estrutura partidária maior. Essas vantagens aumentam se esses partidos se coligarem, acrescentando mais dinheiro e mais tempo aos candidatos.

Entre os “grandes” está o governador Rodrigo Rollemberg, do PSB, que busca ter o apoio do PSDB e de partidos menores. Estão também os que se colocam como candidatos no campo da “direita”, como Jofran Frejat (PR), Ibaneis Rocha (PMDB), Alírio Neto (PTB), Alberto Fraga (DEM) e Izalci Lucas (PSDB). Ou no campo da “esquerda”, como Joe Valle (PDT) e o candidato do PT, ainda não definido — uma das hipóteses é a professora Rosilene Correa, diretora do Sinpro, e fala-se também no procurador Eugênio Aragão. O PSD alardeia candidatura própria, mas tende a apoiar alguém de outro partido.

Os partidos “pequenos” terão candidatos, apesar das dificuldades que encontrarão. O Novo já lançou o empresário Alexandre Guerra. O PSol decidirá entre vários pré-candidatos, mas a tendência é indicar a professora Maria Fátima de Sousa, diretora da Faculdade de Ciências da Saúde e de Medicina da UnB. A Rede diz que poderá ter candidato próprio, mas está conversando com outros partidos para se coligar, tendo o distrital Chico Leite como candidato ao Senado. O PPS, que tem em seus quadros o senador Cristovam Buarque e o ex-senador Valmir Campelo, ainda não decidiu se terá candidato ou se coligará.

Dentre os citados, poucos são candidatos sem mandato e sem grande vivência na política partidária, enquadrando-se em parte desse perfil desejado pela maioria dos eleitores brasilienses: Ibaneis, Rosilene, Aragão, Guerra e Fátima (ou outro que o PSol lançar). Cada um terá de enfrentar um problema comum — serem desconhecidos dos eleitores — e alguns problemas específicos, decorrentes deles próprios e de seus partidos. Guerra e Fátima, por exemplo, são de partidos pequenos. Ibaneis é do PMDB, que não é exatamente o partido indicado para quem se coloca como outsider. O PT sofre forte desgaste.

E não é só distância da política e dos políticos tradicionais que os eleitores querem. O perfil desejado para um governador inclui experiência que demonstre competência e capacidade de diálogo e articulação e, sobretudo, honestidade e passado limpo. E embora os que se situam nos extremos do espectro político tenham seus votos, a expectativa é por alguém ao centro.

Entre o quadro de hoje e a eleição haverá uma campanha eleitoral, curta e na qual os “grandes” levarão vantagem porque a lei os beneficia. Há favoritos, assim, porque as regras não garantem que os concorrentes disputem em igualdade. Mas, na verdade, não vale a pena apostar em nenhum deles. Os tempos mudaram e as pessoas andam bastante irritadas. Nada será fácil para candidatos com esse perfil lançados por partidos menores, mas nada está ainda decidido.

 

 

A direita de Brasília quer voltar ao poder, mas tem a cara da velha política

A polarização entre os azuis rorizistas e os vermelhos petistas marcou a política brasiliense desde a primeira eleição para governador, em 1990, mas em todas as elas houve uma terceira via, que só foi vitoriosa em 2014, com Rodrigo Rollemberg. Derrotados, os antigos azuis procuram agora se reorganizar e articular uma candidatura ao governo que lhes devolva o poder exercido de 1990 a 1994 (com Joaquim Roriz), de 1998 a 2010 (com Roriz, José Roberto Arruda e Rogério Rosso) e, parcialmente, de 2011 a 2014, com a dobradinha Agnelo Queiroz – Tadeu Fillippelli. O então vice-governador comandava as rentáveis áreas de obras, energia, águas e, nos últimos dois anos, publicidade do governo de Agnelo.

O ex-governador Joaquim Roriz é o tronco que gerou os ex-azuis, aqueles a quem se convencionou chamar de direita no espectro político brasiliense. Desse tronco vieram os ex-governadores Arruda e Rosso, o polivalente Tadeu Filippelli (que esteve nos governos de Roriz, de Arruda e de Agnelo, sendo o responsável pela eleição indireta de Rosso) e os que se colocam como possíveis candidatos ao governo em 2018: Jofran Frejat, Izalci Lucas, Alírio Neto e Alberto Fraga. Veio também Valmir Campelo, ex-senador e ex-ministro do TCU, agora filiado ao PPS.

O ideal do grupo é montar uma chapa única para enfrentar Rollemberg e quem mais vier. Não será nada fácil, pois a origem comum não significa unidade de pensamento, de interesses e de prioridades. O tucano Izalci, por exemplo, nega-se a admitir unidade se não for em torno dele. Filippelli era o mais cotado no grupo para se candidatar ao governo, mas as várias denúncias de irregularidades — as já apresentadas e as que ainda serão — o tiraram do jogo. Rosso tentou se colocar para o governo ao disputar duas vezes a presidência da Câmara dos Deputados, mas se esvaziou ao errar na estratégia. Além disso, só não foi preso com Arruda, Agnelo e Filippelli, no caso do estádio superfaturado, por ter foro privilegiado.

Frejat, Izalci e Fraga tem seus inquéritos e processos. Mas esse não é o maior problema deles: é a profunda identificação que têm com a velha política e com os partidos tradicionais, todos sofrendo pesadas acusações de corrupção contra vários de seus integrantes. Não há processo contra Alírio Neto, do PTB, mas o partido é comandado por Roberto Jefferson, um dos expoentes da corrupção no Brasil. De um jeito ou de outro, até pelo passado deles, a velha política está impregnada em todos.

O candidato aparentemente mais bem situado para representar esse grupo é Frejat. Apesar de responder a muitos processos por improbidade administrativa, não carrega a imagem de corrupto. A seu favor, tem a experiência política como deputado de vários mandatos e o trabalho realizado como secretário de Saúde em anos passados, quando a população era menor, havia mais dinheiro para gastar e a fiscalização e ingerência do Ministério Público e do Tribunal de Contas eram praticamente nenhuma.

Contra Frejat  há principalmente dois fatores: a idade avançada, “problema” mais facilmente superável na campanha, e sua vinculação a Roriz e Arruda. Foi candidato a vice-governador de ambos e, em 2014, substituiu Arruda como candidato ao governo, devido ao impedimento do titular. Para grande parte do eleitorado, Frejat tem a imagem de “pau mandado” de Arruda — o que é bom para um tipo de eleitor, hoje minoritário, mas muito ruim para outro.

O advogado Ibaneis Rocha, que se lançou candidato embora ainda não tenha partido, ora se identifica com esse grupo da chamada direita, ora aparece como alternativa para o PDT. Pode ser uma saída para os ex-azuis, como outros ditos outsiders, ou seja, pessoas sem passado e vinculação político-partidária explícita. Parte dos azuis já pensou em outros nomes, como o de José Humberto Araújo, ex-secretário de governo de Arruda, que não teria aceitado o desafio.

Essa direita tem seu eleitorado, dispõe de recursos financeiros para a campanha e pode se aproveitar da onda de conservadorismo pela qual passa o país. Vai fazer o discurso de que a esquerda não sabe governar e realizar, e citará os exemplos de Cristovam Buarque, Agnelo Queiroz e Rodrigo Rollemberg. Não se sabe ainda se estará unida ou dividida em dois ou três candidatos. Mas nenhum dos nomes que tem apresentado preenche o perfil que os eleitores traçam para o futuro governador de Brasília.