O vice-governador é a demonstração de que não precisamos de vice-governador

Publiquei este texto no dia 19 de julho de 2016, em minha coluna no Jornal de Brasília, e está no meu livro “Assim é a velha política” (Editora Meiaum):

“A figura do vice-governador deveria acabar. O vice, em geral, custa muito caro aos cofres públicos — tem até residência oficial –, costuma conspirar contra o titular e tudo o que faz pode ser feito por um secretário.

Antes de Brasília ter eleições, quem substituía eventualmente o governador era o chefe da Casa Civil. Funcionava muito bem e não custava um centavo. Se o afastamento do governador for definitivo, é só fazer novas eleições, diretas ou indiretas. Basta alterar a Lei Orgânica.”

Escrevi isso depois de falar de uma série de trapalhadas e jogadas marqueteiras do vice-governador Renato Santana, de quem disse, no mesmo dia: “Renato Santana cabe perfeitamente no figurino de um tipo que, nas redações antigas, era chamado de ‘simulador de produtividade’. É aquele que não trabalha e nada produz de útil, mas faz jogo de cena e sabe simular com competência uma atividade intensa — com ajuda de assessores que armam as situações e de jornalistas que caem em seus factoides.”

Pois é: o vice continua armando e simulando. E é a prova viva de que vice-governador não faz falta nenhuma.

Nem Rollemberg nem distritais têm legitimidade agora para propor eleições nas administrações

A Câmara Legislativa pode prestar dois grandes serviços aos brasilienses, ainda que essa não seja sua prática rotineira: manter o veto do governador Rodrigo Rollemberg ao projeto do deputado Chico Vigilante que estabelece eleições e mandatos de quatro anos para os administradores regionais; e rejeitar liminarmente o projeto do governador estabelecendo que os administradores serão eleitos diretamente a partir de 2022.

São dois projetos oportunistas, demagógicos e nocivos para Brasília. A discussão sobre o assunto é importante e o processo de nomeação de administradores regionais deve mudar, mas não em ano eleitoral, sem debate com a população e com governador e distritais em fim de mandato. Essa discussão tem de ser levada à sociedade e não pode se limitar ao método de escolha dos chefes das administrações regionais — é muito mais profunda.

O governador levou três anos e um mês para apresentar o projeto de eleição direta dos administradores, promessa feita pelo então candidato Rodrigo Rollemberg. Nesses três anos usou as administrações como moeda para negociatas políticas com distritais, entregando a eles a indicação dos administradores e dos ocupantes de cargos comissionados. Não teve qualquer preocupação com a eficiência das gestões e com a boa prestação de serviços à população. Agora, no fim da gestão, apresenta o projeto para não dizer que não cumpriu a promessa eleitoral. Mas para vigorar em 2022…

Em 16 de maio de 2016 escrevi em minha coluna no Jornal de Brasília:

“A participação da comunidade na escolha de administradores regionais é fundamental. O que não pode é continuar o velho sistema de sempre: as administrações entregues a deputados distritais e a outros políticos como moeda de troca. A sociedade, por isso, tem de discutir intensamente qual a melhor maneira de assegurar essa participação da comunidade. Já que o Distrito Federal não tem municípios e prefeituras, a fórmula a ser adotada terá de ser inovadora.”

” O primeiro debate tem de ser sobre o que deve ser uma administração regional, qual o seu papel, como deve se organizar, como se relaciona com as secretarias e empresas públicas e que território deve abarcar. Esse, obviamente, precede a discussão sobre a eleição do administrador.” (ambos os trechos estão em meu livro Assim é a Velha Política)

Nem os distritais no último ano da legislatura nem o governo no último ano de mandato têm legitimidade para estabelecer o que vigorará para os futuros ocupantes da Câmara Legislativa e do Buriti. Esperaram três anos, um ano a mais não fará diferença. Podem continuar com o toma lá dá cá até dezembro.

 

É mais fácil e cômodo aceitar os números oficiais do que apurar e contestar

Informação oficial: 750 mil pessoas participaram do carnaval de rua em Brasília, “um público abaixo do esperado”, segundo um jornal, pois no ano passado foram 1,5 milhão de pessoas. A imprensa brasiliense, como de costume, não se deu ao trabalho de checar a informação fornecida pelo governo e repetiu os números como se fossem verdadeiros. Mas tudo indica que não são. Nem havia 1,5 milhão de pessoas em 2016 nem 750 mil neste ano.

Na véspera da entrevista, último dia de carnaval, a própria Polícia Militar falava em 330 mil pessoas. Pode ter sido mais, mas esse número foi inflado de um dia para outro para não ficar ainda mais distante dos “quase dois milhões de pessoas” anunciados festivamente, antes do carnaval, por secretários do governo de Brasília. A Agência Brasília repetiu o número obedientemente e a imprensa o agasalhou festivamente.

Não é incomum que governos inventem números que por alguma razão lhes sejam interessantes e que a imprensa os publique como se fossem reais, na condenável prática de não apurar e simplesmente atribuir a informação a uma fonte. Isso vale para informações mais relevantes ou menos importantes. Essas do carnaval são irrelevantes, mas se jornalistas se derem ao trabalho de somar os números apresentados pela PM para cada bloco e dar uma boa margem de acréscimo, porque nem todos os blocos foram computados, não chegarão aos 750 mil. Se tivessem checado as informações em 2016 veriam que as pessoas nas ruas não chegavam aos alardeados 1,5 milhão.

A “frustração”, como disse outro jornal, não significa que o carnaval de rua de Brasília não tenha sido bem sucedido. Ter cerca de 400 mil pessoas nas ruas brincando carnaval em uma metrópole (Brasília e municípios vizinhos) de 4,5 milhão de pessoas é relevante. Não significa também que os blocos não devam ser incentivados como manifestações culturais ou que proporcionam prazer e diversão aos brasilienses e aos que vêm para a cidade. Aliás, talvez tenham vindo mesmo 25 mil pessoas de fora, como diz a Secretaria de Turismo, mas por que nenhum repórter pede para ver a íntegra da pesquisa que dizem ter sido feita? Não é descartável a possibilidade de esse número também ser um chute.

Em minha coluna no Jornal de Brasília em 28 de junho de 2016, e que está no livro Assim é a velha política,  falei da absurda previsão do governo de que 300 mil pessoas viriam a Brasília para assistir a 10 partidas de futebol dos Jogos Olímpicos. Ao apresentar esse número obviamente inflado, mas repetido pela maioria da imprensa brasiliense, o governo procurava justificar o excessivo gasto de R$ 32 milhões com o evento — que, depois, comprovou-se ser um caso exemplar de fracasso de público e dinheiro jogado fora. Os turistas não vieram.

PS: se uma pessoa vai a três blocos, na estatística é contada como três pessoas. Também é bom saber disso.