“Investimento” sem retorno em carnaval é desperdício de dinheiro público

Carnaval de rua precisa de apoio do poder público, não de dinheiro público para financiar blocos e músicos. Claro que o apoio — policiamento, interdição de vias, banheiros químicos, limpeza — custa dinheiro público, mas isso se justifica por se tratar de uma grande festa popular e expressiva manifestação cultural. O governo não pode se omitir diante de um evento desse porte, mas não se justifica patrocinar blocos carnavalescos com recursos financeiros do Estado.

Muitos que defendem que o Estado patrocine o carnaval alegam o retorno do “investimento” pela repercussão positiva na cadeia dos negócios vinculados ao turismo. O dinheiro voltaria pelo pagamento de impostos e a população ganharia com a geração de empregos e atividades por conta própria, ainda que efêmeras. Esse argumento geralmente é usado para justificar os gastos do governo em desfiles de escolas de samba.

É preciso, porém, não confundir o carnaval de rua com desfiles de escolas de samba. O carnaval de rua deve ser entendido como festa popular acessível a todos, já os desfiles são espetáculos, exibições artísticas e, muitas vezes, é preciso comprar ingressos para assisti-los. Não há porque o Estado financiar essas apresentações — a não ser, como no caso do Rio de Janeiro, se elas efetiva e comprovadamente dão à população um retorno compensador, pelo aumento do fluxo turístico.

Embora sejam importantes e respeitáveis manifestações culturais, os desfiles de escola de samba nunca geraram negócios significativos para o Distrito Federal. Têm pequena repercussão na vida da cidade e por isso as escolas de samba não conseguem patrocínios privados suficientes para arcarem com seus custos. Gastar dinheiro público com esses desfiles, em Brasília, não é investimento, como no Rio — é gasto mesmo, a fundo perdido e sem retorno.

É verdade que o carnaval de rua tem atraído para Brasília muita gente de cidades próximas. Mas ainda não há dados confiáveis para medir a repercussão econômica real disso. Os números alardeados por autoridades e empresários geralmente são chutados — sempre para cima — e a imprensa os acolhe sem contestação e checagem – para o jornalismo preguiçoso é mais fácil atribuir a informação a alguém do que verificar se é mesmo verdadeira.

Caso em algum dia se comprove efetivamente que desfiles de escola de samba e blocos de rua (ou um ou outro) sejam importantes atrações turísticas para Brasília, e que os investimentos públicos representam retorno compensador para a cidade, pode-se pensar em algumas modalidades de financiamento parcial pelo Estado. Até lá, porém, é desperdício de dinheiro que poderia estar sendo mais bem aplicado em benefício da população.

 

Blocos de carnaval não precisam de dinheiro público para sair às ruas

O Pacotão foi o primeiro grande bloco de carnaval de Brasília. Fundado por jornalistas, saiu às ruas pela primeira vez em 1978. A concentração foi no extinto Chorão, na 302 Norte, e o trajeto foi pela W-3, na contramão. Já no ano seguinte, o Pacotão estourou, com a marchinha do Aiatolá. Depois vieram outros blocos, mas o Pacotão continuou sendo o grande bloco da cidade durante muitos anos, até meados dos anos 1990.

Em todo esse período, os organizadores do Pacotão nunca pensaram em conseguir dinheiro público para seus desfiles. Jamais admitiriam isso, seria uma ofensa. Eram eles próprios e os foliões de modo geral que arcavam com as despesas: a banda do maestro Celso, as faixas criativas e politizadas, as cartolas e coletes que identificavam o “politiburo”. Um livro de ouro passava pelas redações e bares para arrecadar o dinheiro necessário.

Realmente faziam muita falta os banheiros públicos, pois as filas que se formavam nos bares e restaurantes do percurso eram enormes e a maioria resolvia o problema na rua mesmo. Havia policiamento, pequeno mesmo nos tempos da ditadura, mas não havia a violência que existe hoje na cidade e as raríssimas brigas internas eram resolvidas pelos próprios participantes do bloco. Ninguém imaginaria que o Pacotão precisasse contratar seguranças.

Os tempos são outros e hoje é natural que o poder público se mobilize para dar apoio aos blocos que fazem o carnaval de rua de Brasília. É preciso definir trajetos e mediar limites razoáveis para a folia, para que nem os blocos nem os moradores se sintam prejudicados. O Estado deve assegurar o policiamento adequado, incluindo o de trânsito, e mobilizar assistência médica de urgência e a proteção de bombeiros. Para não transformar a cidade numa lixeira mal cheirosa, o governo deve montar banheiros químicos nos locais de maior concentração e os garis devem estar em ação assim que terminam os desfiles.

E é tudo. Essas medidas que cabem ao Estado são suficientes para garantir o carnaval de rua. Cabe aos blocos conseguir os demais recursos para a festa popular: músicos, veículos, adornos, fantasias, seguranças privados e todo o mais que considerem necessário. O governo não deveria gastar um só real para “patrocinar” o carnaval de rua ou os blocos, ainda mais quando faltam recursos básicos para o atendimento a necessidades vitais da população. Não tem nenhum sentido o governo de Brasília estar gastando R$ 5 milhões com o carnaval.

A cobrança por recursos públicos para financiar blocos de rua mostra a que ponto chegou a visão distorcida de que o Estado tem um cofre abarrotado de dinheiro para distribuir e que tem obrigação de arcar até com o que deveria ser uma festa popular, espontânea. Perdeu-se a ideia de que, se não há como pagar, pode-se brincar carnaval na rua sem trios elétricos e que há como evitar despesas que não são essenciais.

E as escolas de samba? Uma coisa é carnaval de rua, outra são os desfiles, que precisam ser abordados em um outro texto e contexto, numa das próximas notas.