Louca cavalgada em busca de coligações… Para quê? Pode ser para nada

As eleições de outubro, no Brasil e em Brasília, ocorrerão em um ambiente político e social diferente do que existia em pleitos anteriores, e com novidades na legislação eleitoral que criam situações novas para candidatos e eleitores. As consequências disso são imprevisíveis, ainda mais porque as indefinições ainda são grandes. As referências mais próximas são as eleições municipais de 2016 e as eleições extemporâneas para governador, no Amazonas, em 2017.

Parece, porém, que os políticos que se colocam como possíveis candidatos a cargos majoritários em Brasília não estão entendendo esse novo cenário. Há exceções, claro, mas são muitos os políticos continuam raciocinando como se estivéssemos em 2006, 2010 ou 2014. O tempo está passando na janela e eles não estão vendo, absorvidos ainda por velhas fórmulas e velhos paradigmas eleitorais.

A busca desenfreada por coligações partidárias é uma das consequências dessa visão equivocada. Não que a soma de partidos não tenha vantagens: aumenta o tempo de programas e inserções na televisão e no rádio e, para usar a linguagem eleitoral, oferece mais “estrutura” e “capilaridade” aos candidatos. A questão é até que ponto, no atual quadro, vale a pena formar coligações que o eleitorado identifica com a velha politicagem para obter tempo de TV e rádio. Pode ser melhor estar sozinho do que mal acompanhado.

As movimentações de possíveis e candidatos e partidos em busca de alianças a todo custo só provocam a rejeição dos eleitores. “Já está se juntando para nos ferrar”, “os bandidos estão se unindo”, “o que este partido tem a ver com aquele?”, “olha os ladrões unidos” são algumas das frases, com ligeiras variações, ditas pelos eleitores quando veem as notícias e imagens das farofadas políticas e das reuniões de políticos que parecem mais os célebres jantares da cosa nostra.

Esses políticos valorizam excessivamente os horário gratuitos, como se ainda não existisse internet e não houvesse uma clara tendência à queda de audiência. Não que tempo no rádio e na TV não seja importante, mas tudo indica que isso não será decisivo na eleição em Brasília, um território pequeno com apenas dois milhões de eleitores. A rigor, quem realmente precisa de horário gratuito será, para se defender, o governador Rodrigo Rollemberg, óbvio alvo de todos os demais candidatos.

Dois casos nas eleições municipais devem ser lembrados, ambos em metrópoles: Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Alexandre Kalil foi para o segundo turno em Belo Horizonte com apenas 20 segundos na TV e no rádio, enquanto seu opositor, João Leite, tinha 2 minutos e meio – ou 150 segundos. Kalil juntou três partidos pequenos (PHS, PV e Rede), João Leite era apoiado por PSDB, DEM, PPS e PP. No segundo turno, com tempo igual para os dois, Kalil venceu.

Marcelo Freixo, do PSol, coligado com o PCB, foi para o segundo turno, no Rio, com 11 segundos de tempo. Disputou e perdeu para Marcelo Crivela, que tinha três partidos coligados  (PRB, PTN, PR) e 1 minuto e 11 segundos. Ambos foram para o segundo turno derrotando quatro candidatos com tempo maior que os deles: Pedro Paulo (PMDB e mais 15 partidos), 3´30; Jandira Feghalli (PCdoB e PT), 1´27; Indio da Costa (PSD, PMB, PSB), 1´24; Carlos Osório (PSDB, PPS), 1´16.

Pode de nada adiantar ficar juntando partidos em busca de muito tempo na TV, “estrutura” e “capilaridade”. Essa eleição, provavelmente, não será como aquelas que passaram em 2014, 2010, 2006…

 

 

Tempo de TV desigual leva à disputa desigual e a tenebrosas transações

O sistema eleitoral brasileiro é ruim, incoerente e feito para manter o status quo. Beneficia os grandes partidos e os políticos com mandato, favorece as negociatas e dificulta a renovação e o surgimento de novas forças políticas. Uma de suas excrescências, as coligações em eleições para deputado e vereador, vai acabar nas eleições municipais de 2020, o que é bom, embora já pudesse estar vigorando agora. Permanecerá a possibilidade de os partidos se coligarem em eleições majoritárias, para presidente da República, governador, prefeito e senador — o que não é necessariamente um mal.

Seria melhor que cada partido apresentasse nas eleições sua verdadeira cara, suas ideias, mas faz sentido as legendas se unirem em torno de um programa comum para disputar o governo. Um problema é que geralmente essa aliança não se dá em função de programas e plataformas, mas de interesses. O maior deles é o tempo que os partidos têm nos programas e inserções no rádio e na televisão. Ou seja, partidos se unem apenas para aumentar sua presença nesses meios.

O tempo no rádio e na televisão tem sido fonte de renda para alguns partidos e seus donos, que cobram um preço alto para cedê-lo a candidatos. Além do dinheiro, esses partidos exigem presença na chapa majoritária, cargos e até contratos no possível futuro governo. É assim que, em boa parte, os grandes partidos conseguem somar tempo para seus candidatos, geralmente mais competitivos do que os dos pequenos partidos. Os grandes aumentam suas chances de ganhar a eleição, os pequenos e os sem candidatos fortes ganham dinheiro e nacos de “poder”.

Não são as coligações para eleições majoritárias, portanto, que estão erradas. O que mancha a limpeza da disputa eleitoral é a diferenciação de tempo para os candidatos, que já entram na disputa em enorme desigualdade. Enquanto um candidato de grande partido, com muitos coligados, pode ter 4 ou 5 minutos, por exemplo, outro, de partido pequeno, terá apenas 10 segundos. É como se um corredor de 100 metros largasse 50 metros à frente do seu competidor.

O correto seria que cada candidato a presidente, governador ou prefeito tivesse o mesmo tempo para suas apresentações. É verdade que há partidos demais, e que isso atrapalha, mas os caminhos para acabar com agremiações sem representatividade e que vivem de negociatas são outros, entre os quais o fim das coligações proporcionais. Seria muito aceitável que cada candidato a governador tivesse dois minutos por período — dez candidatos, assim, ocupariam 20 minutos.

Não tem justificativa, quando se fala em igualdade de oportunidades, é condicionar o tempo no rádio e na televisão ao número de deputados federais que um partido elege ou ganha nas “janelas” para mudança de legenda. Seria ainda ruim, mas mais coerente, condicionar o tempo ao número de votos na eleição para os executivos.

Uma alternativa intermediária para acabar com o comércio de tempo pelos partidos seria estabelecer que, havendo coligação, o tempo disponível para ela é o do partido que tiver o maior, e não a soma de todos. Exemplificando: quatro partidos coligados, com 2 minutos, 1,5 minuto, 30 segundos e 15 segundos, não terão 4 minutos e 15 segundos, mas 2 minutos, que é o tempo do maior deles. Não é uma boa solução, apenas reduz a absurda desigualdade entre os candidatos.

A propósito: tem sido grande a movimentação de partidos em Brasília em busca de coligações a qualquer custo para disputar o governo. É bom terem cuidado, porque hoje, para o eleitor, antes só que mal acompanhado. Tempo de TV é importante, mas não justifica qualquer aliança.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não chore pelo PSD, governador. Em 2018 talvez seja melhor estar só que mal acompanhado

O velho ditado “antes só que mal acompanhado” não é bem visto pelos políticos, com pouquíssimas exceções. O senso comum é de que sozinho um candidato ou partido não ganha eleições, e isolado ninguém consegue governar. É preciso fazer alianças, coligações e coalizões. As exceções são os partidos que, por posições ideológicas ou saber que não têm chances de vitória, preferem disputar as eleições sem se misturar aos demais.

Depois da eleição presidencial de 1989, disputada por 22 candidatos, os partidos passaram a buscar a coligação com o maior número possível de legendas, especialmente para aumentar o tempo nos programas e inserções gratuitos no rádio e na televisão. Quanto mais partidos coligados, mais tempo. Além disso, a soma de estruturas partidárias — dinheiro, material, cabos eleitorais, lideranças — possibilita mais presença e visibilidade dos candidatos na campanha.

Em 2018, porém, talvez seja diferente. O eleitorado, como mostram as pesquisas qualitativas (que a maioria dos políticos e jornalistas, pelo jeito, não leem, e se leem não entendem) está farto da política, dos políticos e dos partidos. Não acredita em mais ninguém e sequer nas instituições. Mal humorado e desesperançado, devido à crise econômica, aos péssimos serviços prestados pelo Estado e aos sucessivos casos de corrupção, o eleitor repudia as práticas que identifica com politicagem e demagogia.

Por isso é bem possível que, assim como têm rejeitado as movimentações de políticos tradicionais para formar alianças para 2018, badaladas em textos e fotos por colunas e blogs como isso os ajudasse, os eleitores prefiram votar em candidatos e partidos que não se unam por interesses apenas eleitoreiros, muitas vezes descaracterizando-se. Dá para arriscar dizer que, diferentemente do que acontecia em eleições anteriores, o maior tempo na televisão provavelmente não compensará a formação das chamadas alianças espúrias. Afinal, agora temos as redes sociais.

Pode ser que não seja assim e que em 2018 prevaleça a força das coligações. Mas, de qualquer maneira, o governador Rodrigo Rollemberg não deve lamentar o rompimento do PSD com seu governo. O partido de Rogério Rosso e Renato Santana — assim como o Solidariedade de Augusto Carvalho e Sandra Faraj — entrou na coligação em 2014 para dar mais tempo de TV a Rollemberg e Reguffe. Nada mais.

O PSD levou mais problemas e ônus ao governo do que benefícios e bônus. Nada fez de útil para a população. Eleitoralmente, pouco representa. Com o líder maior, Gilberto Kassab, acusado de corrupção, o tempo de TV que tem não vale a má companhia. Nesse caso, é melhor mesmo estar só que mal acompanhado.