Joe Valle, Cristovam, Rosso e o pântano político que montaram em busca de Frejat

Não dá para levar a sério a farofada partidária montada pelo senador Cristovam Buarque (PPS), pelo deputado federal Rogério Rosso (PSD) e pelo deputado distrital Joe Valle (PDT) com o objetivo de impedir a reeleição do governador Rodrigo Rollemberg (PSB). Até porque crescem as desconfianças de que o pântano político liderado pelos três tem como objetivo tirar Jofran Frejat da órbita da “direita” e tê-lo como candidato ao governo.

O relato do jornalista Caio Barbieri, do Metrópoles, sobre a reunião que o grupo fez na terça-feira mostra bem esse pântano em que estão se metendo PPS, PSD, PDT, PCdoB, PPL e Pros, e que em sua última reunião teve a presença do PR e do PSDB — que estavam também na reunião que o deputado federal Alberto Fraga (DEM) promoveu no dia seguinte em sua casa, como resposta, e da qual participaram ainda o PMDB e o PTB.

Barbieri mostra que o jogo de cena montado na reunião de terça para dar ideia de unidade foi desmascarado pelos próprios participantes, que não conseguiram esconder suas divergências. O presidente do PR, Salvador Bispo, por exemplo, questionou a ausência de “lideranças importantes”, provavelmente se referindo a Alberto Fraga, ao ex-vice-governador Tadeu Filippelli (PMDB) e ao ex-deputado Alírio Neto (PTB). Rosso tentou justificar: “Neste primeiro momento, separamos um grupo de temperamento mais ameno”. E completou: “Todos serão convidados, sem vetos”. O deputado Raimundo Ribeiro (PPS) disse que ali não cabiam “preconceitos”.

Para mostrar que não quer se juntar a esse grupo, Fraga, que não tem temperamento ameno, marcou uma reunião para o dia seguinte, e lá estavam Jofran Frejat (PR), Alírio Neto (PTB), Filippelli e o deputado federal Izalci Lucas (PSDB). Esse grupo, com raízes rorizistas e arrudistas e que Fraga chama de “direita”, mantém alguma coerência política e ideológica e se divide porque Frejat, Fraga, Alírio, Izalci e Ibaneis Rocha, do PMDB, se dizem pré-candidatos a governador.

Já a farofada juntou partidos de esquerda e centro-esquerda (PCdoB, PPL e PDT) com legendas de centro-direita e direita (PSDB, PPS, PSD, PR e Pros). Izalci, presidente do PSDB, esteve nas duas reuniões, enquanto a outra ala de seu partido, liderada por Maria de Lourdes Abadia, participa do governo de Rollemberg. O PR mandou seu presidente para a reunião da farofada, mas seu candidato, Frejat, só foi à casa de Fraga. O Pros, do deputado federal Ronaldo Fonseca, estava lá mas não esconde sua proximidade com o governador. O deputado Raimundo Ribeiro é notoriamente simpático ao grupo rorizista-arrudista.

A direita e a farofada têm grandes divergências entre elas e internas. Só o que as une é derrotar Rollemberg. A direita tem vários pretendentes ao governo, entre os quais Frejat. Que,  pelo jeito, está na mira da farofada.

 

 

A lei eleitoral favorece os “grandes”, mas nas eleições de 2018 pode ser diferente

Os grandes partidos saem com grande vantagem nas eleições de 2018: terão mais dinheiro do fundo estatal, mais tempo no rádio e na televisão, presença garantida nos debates e não precisam se preocupar com a cláusula de barreira. A legislação eleitoral, incluindo os dispositivos recentemente aprovados, foi elaborada para beneficiar grandes partidos e os políticos que já detêm mandato, dificultando o surgimento e a consolidação de novas legendas e a renovação nas casas legislativas e nos executivos. Além disso, impede o que existe em 90% dos países: a possibilidade de um cidadão ser candidato independente, sem vínculo com partido.

É natural, assim, que os candidatos a governador de Brasília que são filiados a grandes partidos sejam considerados favoritos. Terão mais dinheiro para suas campanhas e mais tempo para se apresentarem nos programas e nas inserções no rádio e na televisão, além de estarem nos debates e terem uma estrutura partidária maior. Essas vantagens aumentam se esses partidos se coligarem, acrescentando mais dinheiro e mais tempo aos candidatos.

Entre os “grandes” está o governador Rodrigo Rollemberg, do PSB, que busca ter o apoio do PSDB e de partidos menores. Estão também os que se colocam como candidatos no campo da “direita”, como Jofran Frejat (PR), Ibaneis Rocha (PMDB), Alírio Neto (PTB), Alberto Fraga (DEM) e Izalci Lucas (PSDB). Ou no campo da “esquerda”, como Joe Valle (PDT) e o candidato do PT, ainda não definido — uma das hipóteses é a professora Rosilene Correa, diretora do Sinpro, e fala-se também no procurador Eugênio Aragão. O PSD alardeia candidatura própria, mas tende a apoiar alguém de outro partido.

Os partidos “pequenos” terão candidatos, apesar das dificuldades que encontrarão. O Novo já lançou o empresário Alexandre Guerra. O PSol decidirá entre vários pré-candidatos, mas a tendência é indicar a professora Maria Fátima de Sousa, diretora da Faculdade de Ciências da Saúde e de Medicina da UnB. A Rede diz que poderá ter candidato próprio, mas está conversando com outros partidos para se coligar, tendo o distrital Chico Leite como candidato ao Senado. O PPS, que tem em seus quadros o senador Cristovam Buarque e o ex-senador Valmir Campelo, ainda não decidiu se terá candidato ou se coligará.

Dentre os citados, poucos são candidatos sem mandato e sem grande vivência na política partidária, enquadrando-se em parte desse perfil desejado pela maioria dos eleitores brasilienses: Ibaneis, Rosilene, Aragão, Guerra e Fátima (ou outro que o PSol lançar). Cada um terá de enfrentar um problema comum — serem desconhecidos dos eleitores — e alguns problemas específicos, decorrentes deles próprios e de seus partidos. Guerra e Fátima, por exemplo, são de partidos pequenos. Ibaneis é do PMDB, que não é exatamente o partido indicado para quem se coloca como outsider. O PT sofre forte desgaste.

E não é só distância da política e dos políticos tradicionais que os eleitores querem. O perfil desejado para um governador inclui experiência que demonstre competência e capacidade de diálogo e articulação e, sobretudo, honestidade e passado limpo. E embora os que se situam nos extremos do espectro político tenham seus votos, a expectativa é por alguém ao centro.

Entre o quadro de hoje e a eleição haverá uma campanha eleitoral, curta e na qual os “grandes” levarão vantagem porque a lei os beneficia. Há favoritos, assim, porque as regras não garantem que os concorrentes disputem em igualdade. Mas, na verdade, não vale a pena apostar em nenhum deles. Os tempos mudaram e as pessoas andam bastante irritadas. Nada será fácil para candidatos com esse perfil lançados por partidos menores, mas nada está ainda decidido.

 

 

Acabou a polarização entre azuis e vermelhos e eleição para governador está indefinida

Quando em 1994 o azul Valmir Campelo e o vermelho Cristovam Buarque disputaram a eleição para governador havia uma terceira via, a amarela Maria de Lourdes Abadia, terceira colocada. A polarização entre azuis e vermelhos havia começado na eleição anterior, quando Joaquim Roriz se elegeu no primeiro turno, ficando o petista Carlos Saraiva em segundo, à frente do então senador Maurício Corrêa, do PDT.

Em 1998, o verde José Roberto Arruda disputou contra Roriz e Cristovam e não passou do primeiro turno. Em 2002 foram muitos os candidatos além de Roriz e do petista Geraldo Magela, que disputaram o segundo turno: entre eles, Benedito Domingos, Rodrigo Rollemberg e Carlos Alberto Torres. A terceira via se dividiu.

Em 2006 o quadro foi diferente e não havia uma terceira via clara. Diante da relutância de Roriz em escolher o candidato para sucedê-lo — entre Arruda, Abadia, Maurício Corrêa e Tadeu Filippelli — o DEM se antecipou e lançou a chapa “pura” Arruda e Paulo Octávio à revelia do então governador. Para não ficar sem candidato, Roriz lançou, sem convicção, a candidatura de Abadia com Corrêa de vice. No decorrer da campanha fez acordo com Arruda, que ganhou no primeiro turno com 50,38%. A candidata do PT, Arlete Sampaio, ficou em terceiro lugar.

Em 2010 foi Toninho Andrade, do PSol, que fez o papel de terceira via, contra Agnelo Queiroz e Joaquim Roriz, sucedido pela mulher, Weslian, devido a problemas legais. Em 2014, com Roriz já fora da batalha, Arruda — e depois Jofran Frejat — e Agnelo Queiroz foram derrotados pela terceira via de Rodrigo Rollemberg.

O cenário político de Brasília é hoje muito diferente e não há mais a polarização entre azuis e vermelhos. Roriz e Arruda estão fora da disputa direta, o PT está enfraquecido não só pelos dois terceiros lugares como pelos desgastes recentes do partido. Admitindo-se que Rollemberg, como candidato à reeleição, seja agora a primeira via, não se sabe sequer quem é a segunda, pois ele sofre a oposição de partidos à esquerda e à direita cuja força ainda não dá para medir.

A eleição para governador em 2018 está indefinida, embora o governador e Jofran Frejat, o duas vezes ex-candidato a vice (de Roriz e de Arruda), estejam liderando as pesquisas. Não podem, porém, ser considerados favoritos, pois seus índices são muito baixos. Prevalecem, por larga margem, os que não têm candidato ou que votarão nulo ou em branco.

Quem falar agora em “praticamente eleito” e “favorito” ou não está entendendo o quadro político-eleitoral ou está fazendo lobby para algum candidato. Tudo é possível, até o que hoje parece impossível, e muita coisa ainda pode acontecer.