Brasília pode repetir Tocantins: governador eleito pela minoria e sem legitimidade

A eleição para o governo de Brasília tem, até agora, tudo para repetir o que aconteceu no primeiro e no segundo turnos em Tocantins: o governador eleito perdeu para as abstenções e para os votos nulos e em branco. Mas certamente o eleito, que além de político tradicional é acusado de corrupção, não está nem aí para isso. Pela absurda legislação eleitoral brasileira, ele será o governador de direito. Sem legitimidade, mas terá o comando do executivo estadual e o poder e privilégios dele decorrentes.

No segundo turno dessa eleição extemporânea em Tocantins, a abstenção foi de 34,86% do eleitorado, 23,4% anulou o voto e 2,6% votou em branco. Ou seja, 51,8% dos eleitores não votou em nenhum dos dois candidatos e o vencedor teve apenas 35% dos votos dos tocantinenses — embora, dos votos considerados válidos (mais uma aberração da legislação eleitoral), tenha recebido 75%. Não há nenhuma dúvida de que a maioria dos tocantinenses, somando os não votos aos dados ao adversário derrotado, não quer o eleito como governador.

Em Brasília, se permanecer o atual quadro de candidatos, com polarização entre o governador Rodrigo Rollemberg e o opositor Jofran Frejat, pode acontecer a mesma coisa. Mesmo se um dos outros candidatos que se apresentam como via alternativa (até agora, Izalci Lucas e Eliana Pedrosa) consiga crescer, os índices de não votos continuará grande, já que ambos representam as velhas práticas políticas, têm origem no tronco Roriz-Arruda e não empolgarão os eleitores desconfiados e desalentados.

Os três candidatos que realmente poderiam significar uma renovação, todos sem mandato (como quer a maioria dos eleitores) e com posições políticas e ideológicas bem diferenciadas, são ainda desconhecidos da população, estão em partidos pequenos, têm tempo mínimo na televisão e dois deles sequer têm direito de participar dos debates promovidos pelas emissoras — duas outras graves deformações da lei eleitoral. O PT, ainda sem candidato, tem a estrutura e benefícios da lei para ser competitivo, mas está altamente desgastado perante o eleitorado brasiliense.

A permanência desse cenário é o melhor dos mundos para Frejat, que entre os que já escolheram candidato lidera nas pesquisas, e para Rollemberg, que apesar do elevadíssimo índice de rejeição a seu governo e de desaprovação pessoal ainda tem chances de vencer se receber um “voto útil” contra a volta do esquema rorizista-arrudista ao Buriti. Para eles não interessa que seja lançado um candidato que preencha o perfil traçado pelos eleitores em todas as pesquisas qualitativas: ficha limpa, honesto, com experiência de gestão, capacidade de diálogo e, de preferência, sem ter exercido mandato.

Não é à toa que, em partidos que poderiam lançar alguém com esse perfil, como PDT e Rede, haja os que trabalham para impedir. Há velhos políticos também entre os que se apresentam como renovadores e de esquerda.