Desempenho dos candidatos em debate explica por que 70% não tem candidato

Estou há dias sem escrever, de novo. O primeiro motivo continua sendo a falta de tempo, mas senti-me desestimulado a escrever sobre o cenário político de Brasília para manter o silêncio obsequioso em relação ao PDT, partido ao qual — conforme informei aqui — me filiei em abril. Nos últimos dias, a única novidade relevante no campo político era o fracasso das negociações que o PDT entabulou durante três meses com Jofran Frejat e sua turma e o lançamento pela executiva do partido, finalmente, de um candidato a governador, o ex-distrital Peniel Pacheco. Há no PDT, porém, a possibilidade de uma aliança nacional com o PSB que leve a seção local a apoiar a reeleição do governador Rodrigo Rollemberg. Mas esse é um tema sobre o qual escreverei mais adiante.

Volto a escrever hoje para falar um pouco do primeiro debate entre os pré-candidatos ao governo de Brasília, promovido pelo Metrópoles com apoio das federações do comércio (Fecomércio) e da indústria (Fibra). Estranhei um pouco estar pela primeira vez no local de um debate na condição de espectador, pois em quatro eleições estava assessorando um candidato (1994, 2002, 2006 e 2014) e nas outras três (1990, 1998 e 2010) assisti aos confrontos pela televisão.

Colocando-me na posição dos cerca de 70% dos eleitores que ainda não optaram por nenhum dos candidatos e pensam em se abster ou anular o voto, o debate não provocou mudança nessa intenção. Nenhum dos candidatos mostrou algo que pudesse mudar essa opinião. Como observador político, porém, preciso considerar algumas atenuantes: foi o primeiro debate da temporada e pela primeira vez cinco dos sete candidatos se viram naquela situação tensa; as falas deles eram a todo momento interrompidas por vaias e aplausos das claques, o que dificulta a concentração e o foco, especialmente de quem não está habituado. E ainda faltaram os candidatos do PT, ainda não lançado, e do PDT — que foi apresentado quando o debate já estava estruturado.

Todos os candidatos mostraram-se despreparados para se apresentar ao eleitor, na forma e no conteúdo. Não prepararam bem nem as perguntas nem as respostas, perderam oportunidades, divagaram. Nenhum se destacou especialmente e isso possibilitou ao governador Rodrigo Rollemberg não se sair mal — sem se sair bem — diante dos ataques de seis oponentes e da plateia por eles levada. O auditório lotado fez com que os sete se dirigissem aos barulhentos presentes e não aos que poderiam estar assistindo em vídeo ou áudio. É claro que em uma transmissão em canal de televisão aberta a postura tem de ser outra.

Pelas falas dos candidatos deu para prever qual será a estratégia de cada um, mas deu para ver também que a maioria precisa rever suas estratégias. Os políticos tradicionais — Rollemberg, Jofran Frejat, Eliana Pedrosa e Izalci Lucas — repetiram chavões de políticos tradicionais, naturalmente, e só se diferenciam porque o primeiro é situação e os demais são oposição. Frejat, desconhecendo que os eleitores não acreditam mais em promessas mirabolantes, anunciou a criação de uma universidade pública, sem informar de onde sairão os recursos para isso. Os que se apresentam como renovadores — Fátima Sousa, Alexandre Guerra e Paulo Chagas — não conseguiram mostrar com clareza o que e como farão diferente, mas pelo menos os três deixaram claro onde se situam no espectro político.

O debate de ontem, grandioso e bem organizado, foi apenas um ensaio, ou um jogo de pré-temporada. Os candidatos que souberem entender onde erraram e corrigirem os erros poderão se sair melhor nos próximos.

 

 

Brasília pode repetir Tocantins: governador eleito pela minoria e sem legitimidade

A eleição para o governo de Brasília tem, até agora, tudo para repetir o que aconteceu no primeiro e no segundo turnos em Tocantins: o governador eleito perdeu para as abstenções e para os votos nulos e em branco. Mas certamente o eleito, que além de político tradicional é acusado de corrupção, não está nem aí para isso. Pela absurda legislação eleitoral brasileira, ele será o governador de direito. Sem legitimidade, mas terá o comando do executivo estadual e o poder e privilégios dele decorrentes.

No segundo turno dessa eleição extemporânea em Tocantins, a abstenção foi de 34,86% do eleitorado, 23,4% anulou o voto e 2,6% votou em branco. Ou seja, 51,8% dos eleitores não votou em nenhum dos dois candidatos e o vencedor teve apenas 35% dos votos dos tocantinenses — embora, dos votos considerados válidos (mais uma aberração da legislação eleitoral), tenha recebido 75%. Não há nenhuma dúvida de que a maioria dos tocantinenses, somando os não votos aos dados ao adversário derrotado, não quer o eleito como governador.

Em Brasília, se permanecer o atual quadro de candidatos, com polarização entre o governador Rodrigo Rollemberg e o opositor Jofran Frejat, pode acontecer a mesma coisa. Mesmo se um dos outros candidatos que se apresentam como via alternativa (até agora, Izalci Lucas e Eliana Pedrosa) consiga crescer, os índices de não votos continuará grande, já que ambos representam as velhas práticas políticas, têm origem no tronco Roriz-Arruda e não empolgarão os eleitores desconfiados e desalentados.

Os três candidatos que realmente poderiam significar uma renovação, todos sem mandato (como quer a maioria dos eleitores) e com posições políticas e ideológicas bem diferenciadas, são ainda desconhecidos da população, estão em partidos pequenos, têm tempo mínimo na televisão e dois deles sequer têm direito de participar dos debates promovidos pelas emissoras — duas outras graves deformações da lei eleitoral. O PT, ainda sem candidato, tem a estrutura e benefícios da lei para ser competitivo, mas está altamente desgastado perante o eleitorado brasiliense.

A permanência desse cenário é o melhor dos mundos para Frejat, que entre os que já escolheram candidato lidera nas pesquisas, e para Rollemberg, que apesar do elevadíssimo índice de rejeição a seu governo e de desaprovação pessoal ainda tem chances de vencer se receber um “voto útil” contra a volta do esquema rorizista-arrudista ao Buriti. Para eles não interessa que seja lançado um candidato que preencha o perfil traçado pelos eleitores em todas as pesquisas qualitativas: ficha limpa, honesto, com experiência de gestão, capacidade de diálogo e, de preferência, sem ter exercido mandato.

Não é à toa que, em partidos que poderiam lançar alguém com esse perfil, como PDT e Rede, haja os que trabalham para impedir. Há velhos políticos também entre os que se apresentam como renovadores e de esquerda.

 

Nova pesquisa mostra que eleição para governador está indefinida e não há certezas

A eleição para governador de Brasília continua indefinida e sem favoritos, e agora quem confirma isso é o instituto O&P, que tem credibilidade, diferentemente de outros. Uma pesquisa quantitativa, neste momento, apenas indica tendências altamente volúveis dos eleitores e teria de ser analisada a partir da série histórica, para que se possa avaliar a evolução ou involução de cada candidato. Basta ver pesquisas feitas no mês de junho em eleições anteriores para verificar as mudanças nos índices, e que levaram favoritos a sequer ir para o segundo turno e colocaram “azarões” em primeiro lugar.

O dado mais relevante da pesquisa O&P é que 49,5% dos eleitores brasilienses não têm candidato. Diante dos nomes apresentados, 40,1% não optam por nenhum deles, e a esses se somam os que não sabem ainda em quem votarão ou não responderam. Isso comprova o que mostram as pesquisas qualitativas: nenhum dos candidatos apresentados preenche, ainda que por não ser conhecido, os requisitos que os eleitores desejam para um governador: honesto, ficha limpa, distante das velhas práticas políticas, de preferência sem mandato, competente como gestor e com capacidade de articulação política.

Para esse índice elevado contribuem também, naturalmente, o desalento e a desesperança do povo, aos quais se soma o descrédito dos políticos e das instituições. Há a percepção, entre os eleitores, de que nada mudará com seus votos, pois continuarão nos executivos e legislativos os mesmos corruptos, picaretas e demagogos de sempre, que se preocuparão apenas com seus interesses pessoais e com a preservação de seus poderes e privilégios.

Se examinamos os índices dos candidatos apresentados, podemos chegar a uma conclusão simplista: haverá segundo turno entre Jofran Frejat e qualquer um dos demais. Simplista por ser resultado de uma leitura rápida e porque entre essa pesquisa e o dia das eleições haverá a definição do quadro de candidatos e coligações e, principalmente, uma campanha eleitoral. Nada do que a O&P apresenta pode ser tomado como definitivo e servir para as argumentações panfletárias do tipo “fulano é imbatível” ou “já ganhou” (há jornalistas, acreditem, que ainda recorrem ao velhíssimo recurso do “pode mandar fazer o terno da posse”), “sicrano está derrotado” ou “beltrano não tem a menor chance”.

Frejat, com 17,3% das intenções de voto, realmente apresenta hoje mais condições de ir para o segundo turno. Mas, com tanto tempo exposto, não parece ter um teto muito maior do que os índices que alcança e, como mostra a pesquisa, terá de convencer os eleitores de que a turma que o apoia, composta de presos, denunciados e condenados, não terá qualquer interferência em sua gestão. O que, em uma campanha, é difícil, mesmo tentando fazer uma maquiagem na chapa ao colocar para disputar o Senado políticos aparentemente limpos e que foram, ou se apresentavam, como de esquerda.

O governador Rodrigo Rollemberg, com escassos 9,5%, seria o concorrente natural de Frejat no segundo turno. Mas esse índice é extremamente baixo para um governante, que tem um nível de rejeição altíssimo. Todos estarão contra o governador na campanha e os demais candidatos, ainda mais com uma margem de erro de 3,1 pontos percentuais, estão na cola de Rollemberg: Eliana Pedrosa (6%), Izalci Lucas (4,7%), Paulo Chagas (4,6%), Fátima Sousa (3,1%) e Alexandre Guerra (3%). É preciso considerar que Chagas, Fátima e Guerra são praticamente desconhecidos e, embora seus partidos tenham poucos recursos, podem crescer na campanha.

Mas, paradoxalmente, também não dá para dizer que Rollemberg não tem chances. Sua situação é crítica, mas uma movimentação dos eleitores que rejeitam os candidatos que simbolizam a volta do esquema Roriz-Arruda (Frejat, Pedrosa e Izalci) ao Buriti pode levar ao “voto útil” no governador, se Chagas, Fátima e Guerra não conseguirem se colocar como alternativas reais de vitória. O PT ainda não disse quem será seu candidato. E por enquanto há um grande eleitor que se mantém em silêncio, mas que pode desbalançar o quadro para o lado que pender: o senador José Antonio Reguffe.

A eleição está aberta, não há certezas. Terão melhores chances de crescer os que se preocuparem menos com coligações a qualquer custo, tempo de TV, dinheiro e cabos eleitorais e se voltarem prioritariamente para traçar e executar as melhores estratégias, usar corretamente as redes sociais e se sair bem nos debates na televisão.

 

Legislação e caciques partidários impedem a renovação e velhos políticos são eleitos

Menos de 30% dos eleitores de Tocantins votaram nos dois candidatos que vão para o segundo turno nas eleições extemporâneas para governador. Cerca de 80% dos eleitores não queria nenhum dos dois mais votados, velhos e antiquados políticos, um deles com acusações de corrupção, e que são o oposto da renovação desejada pela população. O único candidato que poderia representar essa renovação, o juiz Márlon Reis, da Rede, teve apenas 9,9% dos votos. O deputado Mauro Carlese teve 30,31% dos votos válidos e o senador Vicentinho Alves teve 22,22%.

O que ocorreu em Tocantins não é muito diferente dos resultados em eleições para prefeitos, realizadas no mesmo dia, e na também eleição extemporânea no Amazonas, no ano passado: metade dos eleitores rejeitando todos os candidatos e eleição, com minoria de votos, de velhos e, alguns, corruptos políticos tradicionais. Os dois candidatos que vão para o segundo turno em Tocantins têm, juntos, menos de 30% dos votos dos eleitores aptos (17% e 12%). O mesmo, se permanecer o quadro atual de candidatos, poderá acontecer nas eleições de outubro em Brasília.

Não é difícil entender a contradição entre os desejos dos eleitores e os resultados das urnas:

  • A legislação eleitoral aprovada pelo Congresso Nacional foi feita sob medida para beneficiar os atuais detentores de mandato e os partidos maiores, com redução dos períodos de campanha e de programa gratuitos na TV, liberação de “pré-campanha” (na qual quem tem recursos do Estado e de corporações sindicais e empresariais leva vantagem), distribuição desigual dos tempos dos programas de TV e restrição à participação de partidos pequenos em debates.
  • Os caciques dos partidos maiores prestigiam seus políticos tradicionais e impedem a apresentação de candidatos que representem a renovação, os chamados outsiders, para manter suas estruturas de poder. Uma exceção foi o PSB, que admitiu a candidatura de Joaquim Barbosa para presidente. Um exemplo contrário foi o MDB de Brasília, que filiou o advogado Ibaneis Rocha mas impediu sua candidatura.
  • Os outsiders têm de se filiar a partidos menores, que têm pouco ou nenhum tempo de televisão, poucos recursos dos fundos eleitoral e partidário e alguns sequer têm direito a participar dos debates nas emissoras de TV. A desvantagem é gigantesca, mesmo com a possibilidade de utilização das redes sociais. Esses candidatos, geralmente, não conseguem a visibilidade suficiente para ter uma boa votação.
  • Desiludido, desesperançado e sem acreditar nos candidatos e nos partidos, metade dos eleitores prefere não ir votar ou anular o voto. Em Tocantins, a abstenção foi de 30,14%, os votos nulos foram 17,13% e os em branco foram 2,66%. Total: 49,33%.
  • Os votos nulos e brancos e as abstenções, que poderiam ser carreados para a renovação, acabam beneficiando os políticos tradicionais, que se elegem com poucos votos.

Em Brasília os candidatos que fogem aos padrões da velha política estão no PSol (Fátima Souza), no Novo (Alexandre Guerra) e no PRP (Paulo Chagas). Os demais candidatos já colocados — Jofran Frejat, Rodrigo Rollemberg, Izalci Lucas, Alírio Neto, Eliana Pedrosa – são a encarnação dos velhos métodos e práticas que a maioria dos eleitores rejeita. A questão é que PSol, Novo e PRP são partidos pequenos, com poucos recursos e prejudicados pela legislação, e seus candidatos, desconhecidos do eleitorado, dificilmente terão condições de superar essas deficiências no curto período da campanha. Além do que, por estarem nos extremos do espectro político,  PSol e PRP terão dificuldades também em empolgar os eleitores hoje claramente tendendo a um perfil mais centrado.

Um candidato representativo da nova política teria chances melhores se concorresse por um partido ou coligação que lhe desse mais visibilidade perante o eleitorado. Mas, aos velhos políticos que dominam esses partidos não interessa renovação, e sim manter tudo como está. Ainda que elegendo governadores rejeitados pela maioria real dos eleitores, pois o que interessa é ganhar e manter o poder.