Greve em serviços públicos, no Brasil de hoje, é contra o povo e favorece as privatizações

Os empregados das empresas públicas que operam o metrô e o fornecimento de energia (Companhia do Metrô e CEB) estão em greve por aumentos salariais e outros benefícios. Consideram que esgotaram todas as tentativas de negociação e assim só lhes restou recorrer à paralisação dos serviços. Até aí, tudo parece bem, pois fazer greve é um direito dos trabalhadores, internacionalmente reconhecido, inclusive para os que prestam serviços públicos. É comum termos notícias de greves assim na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo.

Isso, porém, não impede que paralisações em serviços públicos sejam contestadas mesmo por aqueles que, por princípio, defendem o direito de greve. E os partidos e organizações de esquerda deveriam ser os primeiros a abrir o debate sobre o assunto, partindo de uma constatação óbvia: os cidadãos, especialmente os que mais precisam e utilizam os serviços públicos, são os mais prejudicados com as greves em hospitais e postos de saúde, escolas e universidades, nos serviços de transporte e de segurança, no fornecimento de água e energia, no atendimento a quem precisa de documentos.

Greves que levam à interrupção de serviços públicos não são contra empresários que resistem a dar aumentos, nem contra governantes insensíveis às necessidades dos trabalhadores. São contra o povo, impedido de ter assistência médica, de frequentar as aulas, de andar de ônibus e metrô, de receber serviços públicos básicos e essenciais. Não tem nenhum sentido para alguém que se coloca como de esquerda defender os interesses de alguns, ainda que trabalhadores, contra os interesses da maioria do povo.

Em segundo lugar, essas greves são contra a instituição serviço público, já tão desmoralizada pela ineficiência e pelo mau atendimento à população. A esquerda, que tem entre suas bandeiras a defesa dos serviços prestados pelo Estado, cai em contradição ao defender incondicionalmente movimentos que reforçam as teses favoráveis à privatização e à redução da máquina pública. Se fosse realizada hoje uma consulta aos brasilienses que utilizam o metrô ou estão sem energia elétrica, a privatização das duas empresas seria aprovada por larga maioria. Pelo menos os serviços não seriam interrompidos todo ano, quando não mais vezes. E talvez fossem de mais qualidade.

Greves em escolas públicas prejudicam os alunos cujos pais não podem pagar mensalidades em colégios privados e muito menos em cursinhos preparatórios. Sem aulas, muitas vezes por meses seguidos, os que estudam em escolas públicas veem aumentar ainda mais o fosso que os separa dos que podem cursar as escolas privadas. Os alunos de universidades públicas demoram mais a se formar do que os das faculdades privadas, por causa das longas greves de professores e servidores.

Na saúde é ainda pior. Consultas marcadas com mais de seis meses de antecedência e cirurgias são adiadas, exames não são feitos, e fica a critério de alguns médicos decidir o que é urgente e o que não é, o doente que deve e o que não deve ser atendido. As greves pioram o que é péssimo. O fechamento de delegacias e a suspensão do policiamento cria mais insegurança na população e beneficia os bandidos. A falta de energia afeta a vida cotidiana e os negócios de inúmeras pessoas, e assim por adiante.

Greves em serviços públicos que atendem diretamente à população, na realidade brasileira, são greves contra o povo e contra a eficiência do Estado e só beneficiam os defensores do Estado mínimo e das privatizações. Justificam-se menos ainda quando essas paralisações têm como objetivo o atendimento de reivindicações de categorias já bem remuneradas e que recebem benefícios que a maioria dos trabalhadores não têm. Não que servidores e empregados públicos não tenham o direito de querer repor perdas e ter aumentos, mas é preciso considerar a realidade do Brasil e de Brasília. E, afinal, há outras formas de reivindicar.

Esse tema, porém, ainda rende outras notas.

 

O que ajuda e o que atrapalha a difícil reeleição de Rollemberg

Não dá para dizer que o governo de Rodrigo Rollemberg é de esquerda. Não é nem na composição de sua base política nem nos métodos e no conteúdo das políticas e ações que implementa. Mas também não é um governo de direita, embora tenha tido e mantenha na Câmara Legislativa aliados bem identificados com essa corrente ideológica e extremamente conservadores.

Pode-se concluir então que Rollemberg é uma expressão do centro político, nem esquerda nem direita, mas com viés progressista. A julgar pelas pesquisas, esse perfil centrista e “centrado” é o mais desejado hoje pelos eleitores. Se esse fosse o único fator a pesar na sua reeleição, Rollemberg estaria bem: o perfil centrista poderia ser um trunfo para 2018. Outro trunfo é a percepção popular de que Rollemberg não é corrupto, embora seja colocado no balaio dos políticos tradicionais nos quais o povo não confia.

Mas essas vantagens que o governador tem em relação aos demais candidatos já colocados, à esquerda e à direita, são reduzidas por uma razão simples: seu governo é reprovado por expressiva maioria dos eleitores e seu desempenho pessoal como governador é muito mal avaliado. Embora elevadíssima, essa rejeição não inviabiliza desde já sua reeleição, dependendo de quem serão os demais candidatos, mas será muito difícil para ele manter o posto no Palácio do Buriti.

Além disso, Rollemberg está isolado politicamente: não constituiu uma base de apoio na população e nas entidades da sociedade civil e tem uma base parlamentar fluida e inconfiável, que majoritariamente não deverá apoiá-lo em 2018. Não deverá também estar coligado nem com os partidos mais relevantes à esquerda nem com os à direita, que se movimentam intensamente para derrotá-lo. A Rede Sustentabilidade é uma das poucas alternativas de coligação para o PSB de Rollemberg.

O tempo é muito curto para que Rollemberg possa melhorar sua avaliação, especialmente a pessoal — o governo pode até ser bem avaliado, mas se o governador é rejeitado, a reeleição fica difícil. Rollemberg fixou uma imagem de honesto e bem-intencionado, mas que não sabe administrar nem articular e não tem a coragem e a ousadia necessárias para enfrentar os enormes problemas de Brasília.

Para reverter esse quadro em tão curto prazo, Rollemberg terá de não apenas mostrar realizações de seu governo — e as há, como houve em todos os governos anteriores, até mesmo no de Agnelo Queiroz. Terá de mostrar uma mudança de atitude pessoal e política, passando aos eleitores a ideia clara de que um segundo mandato será diferente, tanto em relação a seu desempenho como governador quanto na adoção de medidas que indiquem a superação de velhos métodos e práticas políticas que fazem com que sua gestão, em essência, seja diferente das anteriores apenas quanto a não haver corrupção sistêmica e endêmica.

Mas não adianta prometer que fará diferente em 2019, pois as promessas de 2014 não se cumpriram. Se vai mudar, tem de ser agora.