Ciro Gomes complica ainda mais as alianças partidárias em Brasília

O já confuso cenário para as eleições de outubro ficou ainda mais confuso com a declaração de Ciro Gomes, candidato a presidente da República pelo PDT, de que trabalha por uma aliança nacional com o PSB. Ciro pediu aos dirigentes do partido em Brasília, ansiosos por se juntar a Jofran Frejat, do PR, que aguardem uma definição da coligação presidencial antes de fechar qualquer acordo. Ou seja, se der certo a aliança com o PSB, o PDT — no qual a maioria dos dirigentes  quer o distrital Joe Valle com Frejat e a maioria da militância defende a candidatura própria — poderá ser levado a apoiar o governador Rodrigo Rollemberg.

Não será fácil essa articulação. Há, no PDT brasiliense, forte rejeição a Rollemberg, maior do que a rejeição a Frejat e sua turma. Valle, que fingiu ser candidato a governador para se cacifar ao Senado, tem sido um dos maiores críticos de Rollemberg e de seu governo. Isso apesar de o PDT ter apoiado a candidatura de Rollemberg e participado por mais de dois anos e meio de seu governo, e de Valle ter sido secretário e comandado depois, com um indicado, a poderosa área social. Os pedetistas consideram que não foram valorizados pelo governador e dois fatos, entre outros, são sempre lembrados: o veto à construção do Memorial João Goulart no Eixo Monumental e o apoio ao distrital Agaciel Maciel (PR), contra Valle, na eleição para presidente da Câmara Legislativa, em 2017.

Valle também se ressente do apoio dado por Rollemberg à então pedetista Celina Leão na eleição para a presidência da Câmara, em 2015. Pesou, na época, o empenho de Celina pela eleição de Rollemberg e a falta de apoio de Valle, que preferia ter seu partido apoiando o então governador Agnelo Queiroz. Celina, com poucos meses de governo, rompeu com o governo e se tornou uma das mais ferrenhas oposicionistas, tendo se filiado ao PPS e agora ao PP. Valle era um dos fortes críticos de Rollemberg na Câmara, mas aceitou participar do governo e deixou para pregar o rompimento quando ficou claro que a impopularidade do governador dificultaria a reeleição.

E para tornar o cenário ainda mais confuso, Ciro Gomes quer como seu candidato a vice-presidente o empresário Benjamin Steinbruch, filiado ao PP — partido que em Brasília é controlado, de fora, pelo ex-vice-governador Tadeu Filippelli, que é do MDB. O PP está apoiando Frejat e terá Celina Leão como candidata a deputada. Não dá para imaginar o PP e Celina apoiando Rollemberg.

Tudo isso mostra que em boa parte as indefinições do quadro eleitoral em Brasília devem-se às indefinições nacionais. Ciro, por exemplo, já falou também em ter Josué Alencar, do PR — o partido de Arruda e de Frejat — como seu vice. Isso facilitaria a composição desejada por Valle. Mas o PR pode apoiar Geraldo Alckmin, do PSDB ou Jair Bolsonaro, do PSL, o que pode influir, aqui, nas candidaturas do tucano Izalci Lucas e do general Paulo Chagas (PRP).

Não há vínculo obrigatório entre as chapas para presidente e para governador, mas enquanto as composições nacionais não forem definidas o quadro em Brasília tende a continuar incerto.