Paralisação de caminhoneiros é corporativista, perigosa e prejudica a população

Não pude escrever nos últimos dias, ocupado com o trabalho e com os eventos que, na sexta, no sábado e no domingo, reuniram aqui em Brasília mais de 150 ex-alunos do Ciem — o emblemático Centro Integrado de Ensino Médio da Universidade de Brasília, escola que funcionou de 1964 a 1970 e que continuaria moderna e revolucionária nos tempos de hoje. Alguns desses ex-alunos não se viam desde os anos 1960 e 1970 e o reencontro foi emocionante, 50 anos depois do para nós marcante ano de 1968 e do privilégio que é ter estudado no Ciem.

A falta de tempo me ajudou a ganhar alguns dias para compreender melhor e poder escrever sobre a mobilização de caminhoneiros que ainda paralisa o país. Mobilização que em parte é um locaute de empresários do setor, em parte é uma greve consentida de seus empregados e em parte é uma paralisação de motoristas autônomos. Os empresários, os motoristas empregados e os autônomos têm interesses comuns, mas, como é natural, também têm contradições entre eles. Isso se reflete em vários aspectos do movimento, inclusive na falta de um comando centralizado. As lideranças são diversas em termos de entidades representativas, posicionamentos políticos e concepções estratégicas da mobilização — ou da falta de estratégia.

O movimento dos caminhoneiros é corporativista e voltado especialmente para os interesses dos empresários do setor, com reivindicações que atendem também a seus empregados e aos caminhoneiros autônomos. A redução do preço do óleo diesel e a fixação de uma nova política de reajuste, não vinculada às variações do dólar, interessa a todos eles, pois aumenta o lucro das empresas e assegura o emprego e a ocupação dos trabalhadores. Da mesma forma, outras medidas, como a redução das taxas de pedágio e a garantia de mercado para autônomos, são positivas para o conjunto do setor.

Apenas alguns segmentos dos caminhoneiros deram ao movimento um caráter político, uns defendendo a intervenção dos militares, outros pregando a derrubada de Temer, poucos vendo na paralisação nacional uma possibilidade de greve geral de trabalhadores. E todos se aproveitando da total falta de apoio popular ao presidente da República e ao governo, que mostraram claramente fragilidade política e de gestão e incapacidade para administrar a situação crítica, negociar com os manifestantes e encontrar soluções viáveis. Um governo sem legitimidade e incompetente não é capaz de enfrentar com sucesso uma crise dessas proporções.

Setores de esquerda, que se encantam magicamente com a palavra greve e acham que trabalhadores estão sempre lutando pela revolução social, apoiam a mobilização corporativista como se estivéssemos às vésperas da tomada do Palácio de Inverno. Parecem ver no fechamento de rodovias, no desabastecimento de combustível e outros produtos essenciais, nos prejuízos causados aos deslocamentos da população e no fechamento de escolas e postos de saúde um sinal de que vivemos uma greve geral revolucionária. E, raciocinam, se é contra o golpista Temer, é bom.

Esses “esquerdistas” (sim, como as aspas colocadas por Lênin ao falar da doença infantil do comunismo) não enxergam os verdadeiros objetivos da paralisação nem os males que causa à população, direta e indiretamente. É natural que muita gente justamente indignada e revoltada com a situação do país, com a corrupção, com os políticos demagogos e ladrões, com os péssimos serviços públicos, com a alta carga de tributos e com os constantes aumentos nos preços dos combustíveis veja o movimentos dos caminhoneiros com simpatia e aprovação. Afinal, alguém está se mexendo. Mas isso não quer dizer que o locaute-greve-paralisação seja necessariamente positivo para o país e para a população. E, na verdade, não é.

Basta ver que as soluções apresentadas pelo governo para acabar com o movimento, e que beneficiam os empresários e autônomos,  vão prejudicar, e muito, os brasileiros e brasileiras. Para reduzir os preços do diesel e dar outras vantagens ao setor de transporte rodoviário de cargas, sem prejudicar a Petrobrás, haverá queda de arrecadação e, consequentemente, menos dinheiro ainda para saúde, educação e outras áreas. Quando se diz que o Tesouro irá arcar com os prejuízos, leia-se: os cidadãos irão arcar com os prejuízos. Uns poucos ganham, muitos perdem.

Assim tem sido o Brasil, há anos. Os empresários, os servidores públicos e corporações mais bem organizadas e com maior poder de pressão — como igrejas, por exemplo — conseguem mais benefícios (desonerações, subsídios, isenções tributárias, benefícios de todo tipo, aumentos salariais, redução de carga de trabalho e por aí adiante) e isso tem um alto preço, pago pelos cidadãos com menos ou nenhum poder de pressionar os governos. Entre os quais estão, obviamente, os mais pobres e os miseráveis.

O poder de pressão dos caminhoneiros, em uma sociedade democrática, é enorme. Sim, porque se houvesse a intervenção militar que alguns deles pedem, os blindados e os fuzis das Forças Armadas já teriam acabado com o movimento e vários deles estariam presos e provavelmente seriam torturados, ou mortos. Uma paralisação de caminhoneiros, com intenção política e articulada com outros segmentos empresariais, pode derrubar um governo. Os “esquerdistas” que apoiam a atual mobilização deveriam se lembrar do que aconteceu com Salvador Allende.

 

 

A greve dos metroviários continua, o governo assiste, a “esquerda” aplaude e o povo se lasca

A greve dos metroviários de Brasília vai completar um mês. Eles querem reajuste dos salários e a contratação de mais empregados para operar o ineficiente, dispendioso, atrasado e inacabado metrô de Brasília. A empresa pública que opera o sistema e o governo de Brasília, que a sustenta, alegam que não há como aumentar os salários no valor desejado pelos funcionários e contratar mais de 300 novos empregados.

Diante do impasse e da demora de uma decisão judicial que resolva o conflito, os usuários do metrô enfrentam mais dificuldades para se locomover do que as já habituais. São eles, os que usam o sistema de transporte público semiparalisado, os mais prejudicados pela greve. Os que andam de ônibus também perdem, pois os veículos estão recebendo mais passageiros. E as vias estão mais lentas, com a adição dos que preferiram usar seus automóveis na falta de metrô.

A empresa do metrô está perdendo muito dinheiro com a greve, mas, como é uma empresa pública, esse prejuízo recai sobre os cofres do Estado. Ou seja: quem paga a conta é a população, que vê aumentarem ainda mais os subsídios ao metrô – dinheiro que poderia estar sendo mais bem aplicado em benefício do povo.

O que o governo perde é prestígio, pois é injustificável sua inação e omissão diante do problema que afeta a população e os cofres públicos. Diante da impossibilidade de atender as reivindicações dos metroviários – na verdade irreais e descoladas da realidade da cidade e do país — o governo teria de mostrar isso à sociedade e enfrentar os grevistas com fatos e argumentos.

O sindicato dos metroviários e seus representados nada perdem. Os empregados estão há um bom tempo sem trabalhar, ou trabalhando em escalas tranquilas, recebem seus salários (melhores do que os de colegas de outros metrôs brasileiros) e terão algum reajuste por decisão judicial (e para isso não precisavam paralisar os serviços). O sindicato posa de atuante e defensor de sua categoria, mas demonstra na prática que participa da corrente que considera os interesses de um segmento acima dos interesses da população. E, o que é mais grave, ainda recebe o apoio de partidos que se dizem de esquerda.

Mas é a “esquerda”, entre aspas, de que falava Lenin. Autor que esses “esquerdistas” não devem ter lido.

Greve em serviços públicos, no Brasil de hoje, é contra o povo e favorece as privatizações

Os empregados das empresas públicas que operam o metrô e o fornecimento de energia (Companhia do Metrô e CEB) estão em greve por aumentos salariais e outros benefícios. Consideram que esgotaram todas as tentativas de negociação e assim só lhes restou recorrer à paralisação dos serviços. Até aí, tudo parece bem, pois fazer greve é um direito dos trabalhadores, internacionalmente reconhecido, inclusive para os que prestam serviços públicos. É comum termos notícias de greves assim na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo.

Isso, porém, não impede que paralisações em serviços públicos sejam contestadas mesmo por aqueles que, por princípio, defendem o direito de greve. E os partidos e organizações de esquerda deveriam ser os primeiros a abrir o debate sobre o assunto, partindo de uma constatação óbvia: os cidadãos, especialmente os que mais precisam e utilizam os serviços públicos, são os mais prejudicados com as greves em hospitais e postos de saúde, escolas e universidades, nos serviços de transporte e de segurança, no fornecimento de água e energia, no atendimento a quem precisa de documentos.

Greves que levam à interrupção de serviços públicos não são contra empresários que resistem a dar aumentos, nem contra governantes insensíveis às necessidades dos trabalhadores. São contra o povo, impedido de ter assistência médica, de frequentar as aulas, de andar de ônibus e metrô, de receber serviços públicos básicos e essenciais. Não tem nenhum sentido para alguém que se coloca como de esquerda defender os interesses de alguns, ainda que trabalhadores, contra os interesses da maioria do povo.

Em segundo lugar, essas greves são contra a instituição serviço público, já tão desmoralizada pela ineficiência e pelo mau atendimento à população. A esquerda, que tem entre suas bandeiras a defesa dos serviços prestados pelo Estado, cai em contradição ao defender incondicionalmente movimentos que reforçam as teses favoráveis à privatização e à redução da máquina pública. Se fosse realizada hoje uma consulta aos brasilienses que utilizam o metrô ou estão sem energia elétrica, a privatização das duas empresas seria aprovada por larga maioria. Pelo menos os serviços não seriam interrompidos todo ano, quando não mais vezes. E talvez fossem de mais qualidade.

Greves em escolas públicas prejudicam os alunos cujos pais não podem pagar mensalidades em colégios privados e muito menos em cursinhos preparatórios. Sem aulas, muitas vezes por meses seguidos, os que estudam em escolas públicas veem aumentar ainda mais o fosso que os separa dos que podem cursar as escolas privadas. Os alunos de universidades públicas demoram mais a se formar do que os das faculdades privadas, por causa das longas greves de professores e servidores.

Na saúde é ainda pior. Consultas marcadas com mais de seis meses de antecedência e cirurgias são adiadas, exames não são feitos, e fica a critério de alguns médicos decidir o que é urgente e o que não é, o doente que deve e o que não deve ser atendido. As greves pioram o que é péssimo. O fechamento de delegacias e a suspensão do policiamento cria mais insegurança na população e beneficia os bandidos. A falta de energia afeta a vida cotidiana e os negócios de inúmeras pessoas, e assim por adiante.

Greves em serviços públicos que atendem diretamente à população, na realidade brasileira, são greves contra o povo e contra a eficiência do Estado e só beneficiam os defensores do Estado mínimo e das privatizações. Justificam-se menos ainda quando essas paralisações têm como objetivo o atendimento de reivindicações de categorias já bem remuneradas e que recebem benefícios que a maioria dos trabalhadores não têm. Não que servidores e empregados públicos não tenham o direito de querer repor perdas e ter aumentos, mas é preciso considerar a realidade do Brasil e de Brasília. E, afinal, há outras formas de reivindicar.

Esse tema, porém, ainda rende outras notas.