A péssima novela joevalleana do PDT agora só acompanho, felizmente, como jornalista

Publiquei ontem meu primeiro artigo sobre as eleições para o Metrópoles (http://www.metropoles.com/ponto-de-vista/a-desistencia-de-frejat-ainda-e-uma-historia-malcontada ). Desde 1986 é a segunda eleição em Brasília que acompanho apenas como jornalista, sendo que, na verdade, em 1998 acompanhei apenas como cidadão, pois era editor de Mundo do Correio Braziliense, sem qualquer envolvimento com as questões locais. A eleição que acompanhei mais de perto nesse ano foi na Alemanha, onde já havia feito a cobertura das eleições de 1976 para a Rede Globo.

Para evitar conflitos de interesse e questionamentos quanto à minha isenção ao escrever para o Metrópoles, desfiliei-me do PDT.  Mas, na verdade, nada mais tinha a fazer nesse partido, ao qual havia me filiado em 7 de abril com o propósito declarado de ser candidato a governador. Dois dias antes o deputado distrital Joe Valle havia anunciado que desistia de sua candidatura ao governo de Brasília, alegando razões familiares e empresariais. Há pelo menos uma semana eu já ouvia os rumores de que isso aconteceria e comentei com diversas pessoas, entre as quais o distrital Chico Leite. Valle deixou claro, ao renunciar, que só aceitaria a candidatura ao Senado na chapa encabeçada por Jofran Frejat.

A ideia ao me filiar, defendida ou apoiada por pessoas ligadas ou não ao partido — entre os quais seu presidente, George Michel — era de que eu substituísse Valle, já que parecia óbvio, diante da história e das posições políticas do PDT, que seus dirigentes e militantes insistiriam em uma candidatura própria ao governo, especialmente tendo em vista assegurar palanque local a Ciro Gomes, e não admitiriam uma aliança com a chapa que representava os interesses do bloco de centro-direita liderado por José Roberto Arruda e Tadeu Filippelli.

Minha candidatura, como se comprovou poucos dias depois em conversas com seus dirigentes, poderia ter o apoio da Rede, do PCdoB, do PPL e do PT. A coligação com os petistas, porém, foi rejeitada liminarmente pelo presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, em conversa que tivemos na presença de George Michel. Em duas conversas com Lupi, aliás, verifiquei que ele analisava o cenário eleitoral em Brasília com base na visão distorcida, equivocada e interessada de Valle. Disse isso a ele, que retrucou: “Então só você está certo?” Respondi que certamente não só eu, mas que eu estava certo, sim. E Valle, errado.

Na verdade, a maioria dos membros da executiva regional do PDT apoiava as tentativas de Joe Valle de se abrigar na chapa de Frejat. Essa posição tinha respaldo em alguns filiados, como pude verificar em grupo de Whatsapp que reunia os pré-candidatos. Um deles, por ingenuidade ou, mais provavelmente, por ignorância, admitiu o fisiologismo ao dizer que estar com o grupo de Frejat garantiria, mesmo diante de uma derrota de Valle, o controle pelo partido de secretarias das áreas sociais e da cultura. Para eles, a eleição de Frejat estava garantida.

Valle conseguiu, com a conivência de Lupi — que provavelmente queria ganhar tempo para definir as alianças nacionais de Ciro Gomes — adiar sucessivamente os prazos que pedia para chegar a um entendimento com o grupo de Frejat. Isso levou filiados que queriam a candidatura própria e rejeitavam coligações com Frejat e Rollemberg, a formar um grupo que, no mesmo dia em que foi anunciado, passou a ser reprimido por alguns membros da executiva, que chegaram a ameaçar pré-candidatos de não serem aprovados na convenção.

Nos dois meses e meio em que estive filiado ao PDT fui convidado para uma só reunião, de pré-candidatos, na qual repetidamente a poderosa secretária-geral do partido dizia que não estávamos ali para discutir política, mas para receber instruções de advogados e contadores. Participei de outra reunião, mas essa solicitada pelo grupo defensor da candidatura própria: pudemos pelo menos defender nossa posição diante do presidente, da poderosa secretária-geral e de dois membros da executiva que acumulam essas funções com a de funcionários de Joe Valle.

Esperava encontrar no PDT um ambiente favorável ao debate político, à análise de conjuntura, à formulação de um programa de governo. Esperava poder expor minhas posições e defendê-las, em discussões francas e distantes do ambiente de agressões e intolerância que vivemos, especialmente nas redes sociais. Em um clima de democracia interna, aceitaria disciplinadamente, como é da minha formação política desde os tempos de militância na Ala Vermelha, as decisões que fossem tomadas.

O que vi, porém, foi um partido em que não há debate, em que nada se faz sem a aprovação de Carlos Lupi e dominado localmente por um grupo de seguidores do distrital Joe Valle, que colocou o partido em função de seus interesses e de seu projeto político pessoal. Eu e outros participantes do grupo de pré-candidatos fomos dele excluídos pela poderosa secretária-geral porque manifestávamos nossas posições e ela, coerente com sua natureza burocrática e autoritária, dizia que ali não era lugar para isso. Não dizia, claro, onde poderíamos debater.

Como Valle, depois de quase três meses mantendo o PDT imobilizado, não conseguiu se alojar na chapa de Frejat,  inventou-se um motivo para ele ficar menos mal: a presença do deputado Alberto Fraga na coligação. Criou-se o discurso de que o PDT não poderia estar ao lado de Fraga, por divergências ideológicas e políticas. Na verdade essa foi uma falsa justificativa para o fracasso, construída quando já se sabia que o projeto de Valle não daria certo.

Depois que a aliança com a direita gorou, e quando eu já havia anunciado que não seria candidato, Valle e sua turma passaram a defender ferrenhamente a candidatura própria, mas apenas para tentar impedir que uma possível aliança nacional do PDT com o PSB pudesse levar o partido a apoiar a reeleição do governador Rodrigo Rollemberg. Lançaram às pressas o ex-deputado Peniel Pacheco como candidato ao governo, mais uma vez sem qualquer debate interno, e Valle se dispôs a ser candidato ao Senado, voltando atrás do que havia afirmado inúmeras vezes, inclusive a mim: a única hipótese que admitia era ser candidato na chapa de Frejat.

Tenho forte desconfiança de que o lançamento da chapa Peniel-Valle não é para valer, mas posso estar errado e esse assunto agora só me interessa como colunista do Metrópoles. Vou acompanhar os desdobramentos, felizmente, apenas como jornalista.

 

 

Aliança com Frejat pode até ser boa para Joe Valle, mas é ruim para o PDT, para Ciro e para candidatos a deputado

O Metrópoles publicou hoje uma entrevista que dei ao jornalista Caio Barbieri — www.metropoles.com/distrito-federal/politica-df/alianca-entre-pdt-e-frejat-so-beneficia-joe-valle-diz-helio-doyle. Como é natural, nem tudo o que eu disse foi publicado, por isso vou detalhar mais, aqui, o que penso sobre o assunto. A entrevista está focada basicamente em dois pontos: minha crítica à postura adotada no PDT pelo deputado distrital Joe Valle, presidente da Câmara Legislativa, e minha decisão de não pleitear a candidatura a governador pelo partido. Serei direto, claro e transparente, mas não há como resumir em poucas linhas.

Antes do prazo final para filiação partidária (uma das aberrações da legislação eleitoral brasileira, mas esse é outro assunto), fui convidado para ingressar na Rede e recebi uma sondagem para me filiar ao Novo. Tive muitas conversas e reuniões com membros da Rede e dois encontros, muito bons, com o candidato do Novo ao governo, Alexandre Guerra. Militantes e dirigentes da Rede admitiam a possibilidade de eu ser candidato do partido ao governo, embora não contassem com o apoio do grupo majoritário, liderado pelo deputado distrital Chico Leite.

No dia seguinte ao anúncio de que Joe Valle tinha desistido da candidatura ao governo, já véspera do prazo final para filiação, tive um encontro com o presidente regional do PDT, George Michel, e conversei com outros integrantes do partido. Dessas conversas surgiu a ideia de me filiar ao PDT com dois objetivos — trabalhar pela eleição de Ciro Gomes e participar da elaboração de um programa de governo para Brasília — e uma possibilidade: ser candidato ao governo, já que Valle havia desistido.

Michel e eu concordamos em que nem o PDT assumia o compromisso de que eu seria candidato nem eu assumia o compromisso de ser candidato. Ele deixou claro também que poderia haver outros nomes para a disputa pelo governo. Antes de assinar a ficha de filiação, disse a Michel que precisava de duas informações: se havia alguma possibilidade de Valle voltar a ser candidato ao governo e de o PDT fazer alianças com o grupo de Frejat. A resposta foi “não” às duas questões.  Eu disse que não apoiaria as candidaturas de Joe e de Frejat ao governo, por motivos diferentes, que posso explicar em outro texto.

Na segunda-feira seguinte à filiação tive uma conversa com Valle, que repetiu para mim o que havia dito publicamente: ou seria candidato ao Senado na chapa de Frejat ou não seria candidato a nada. Eu disse a ele que teria as mesmas chances de ser eleito se fosse candidato ao Senado em uma chapa do PDT, e perguntei se não admitia ser candidato a deputado federal, pois o partido precisa fazer uma boa bancada na Câmara. Ele respondeu que não.

Na semana seguinte à minha filiação sugeri a Michel e à secretária-geral, Eroídes Lessa, que a executiva formasse um grupo para iniciar a elaboração de um programa de governo. Esse grupo, do qual eu me propus a participar, iria se reunir com as zonais do partido e com entidades da sociedade civil para recolher subsídios. Eroídes, que já havia dito que discordava de minha candidatura, desestimulou-me, falando sobre as dificuldades em debater com as zonais. A ideia, claro, não foi para a frente.

Tive, logo depois que me filiei, uma conversa com o presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, na presença de Michel. Fiz uma análise sobre o quadro eleitoral em Brasília, nada diferente do que tenho escrito, e sobre as possibilidades que via para uma candidatura própria do PDT ao governo, que teria o apoio da Rede, do PCdoB e do PPL, com possibilidades de ampliação. Ele disse que concordava, mas que tinha de dar tempo a Valle, para que ele revisse sua decisão. O prazo era de uma semana, mas foi sendo sucessivamente adiado —  agora até 30 de junho.

Tive, três semanas depois, nova conversa com Lupi, também com a presença de Michel, e reiterei minhas opiniões: o PDT tinha condições de lançar candidato ao governo, formar alianças e ir para o segundo turno, com grandes possibilidades de ser vitorioso. A aliança com Frejat não traria nenhum ganho eleitoral ou político ao partido, a seu candidato Ciro Gomes e aos que disputariam as eleições para deputado federal e deputado distrital. Informei a Lupi que tinha me reunido com dirigentes da Rede, do PCdoB e do PPL, que tinham assegurado a formação de uma coligação na qual eu seria candidato ao governo e Chico Leite ao Senado. Contei também que tinha sido procurado por dirigentes do PT, que sondaram a possibilidade de uma aliança ainda no primeiro turno.

Nesses dois meses e meio em que estou no PDT participei de apenas uma reunião no partido, de pré-candidatos, em meados de maio. Não havia me declarado pré-candidato, mas fui convidado e não iria rejeitar a primeira possibilidade de participar de algo. Nessa reunião, Valle informou que a executiva havia dado a ele prazo até 15 de junho para entrar na chapa de Frejat. Contestei a decisão, na forma e no conteúdo, propondo que o assunto fosse debatido pelos filiados e não apenas pelos dirigentes — entre os quais funcionários da Câmara Legislativa, subordinados ao presidente da casa. Fui rechaçado por alguns dos presentes e recebi apoio de outros. Assim que acabou a reunião mandei mensagem a Valle sugerindo que conversássemos. Reiterei a proposta várias vezes, sem sucesso.

Depois dessa reunião é que formamos um grupo para articular a defesa da candidatura própria. Alguns integrantes foram ameaçados, outros hostilizados. Propusemos que os dirigentes nos ouvissem e que fosse aberto um debate amplo no partido, sem sucesso. Resolvemos procurar os distritais do partido. O deputado distrital Reginaldo Veras nos recebeu e se manifestou contra a aliança com Frejat, mas o deputado distrital Cláudio Abrantes apareceu meia hora depois do horário marcado para a reunião e nos deixou esperando por mais uma hora, até que desistimos e fomos embora. A executiva deu mais 15 dias para Valle fechar a aliança com Frejat, prolongando a novela que vem desde a primeira semana de abril. A proposta de uma plenária de militantes para discutir o tema foi rejeitada.

Por tudo isso é que digo que a maioria da executiva regional do PDT, sem debater com os filiados e de forma autoritária, está cometendo um grave erro ao abrir mão de uma candidatura ao governo de Brasília e de liderar uma coligação de centro-esquerda com grandes possibilidades de vitória. Erra mais ainda ao aceitar a participação na chapa liderada por Jofran Frejat, articulada por José Roberto Arruda, Tadeu Filippelli e Valdemar Costa Neto, entre outros, e que simboliza a volta ao governo dos grupos políticos que tanto mal fizeram a Brasília e foram duas vezes derrotados, em 2010 e 2014.

O lançamento de um novo candidato pelo PDT, depois da desistência de Joe Valle, deveria ter sido imediato, no máximo em maio. As protelações inviabilizam, na prática, a candidatura própria. O partido perde uma grande oportunidade por se submeter aos interesses pessoais e políticos de Valle e do grupo que ele lidera. Mas sobre isso escreverei em uma próxima postagem.

 

 

 

 

 

 

 

A “direita” se apresenta dividida agora como estratégia para se unir depois

O senador Cristovam Buarque, do PPS, preocupado com sua reeleição, anunciou hoje que estará numa chapa na qual o deputado Izalci Lucas (PSDB) será o candidato a governador. Não se falou em candidato a vice-governador e à outra cadeira do Senado que estará em disputa. Essa chapa, segundo eles, juntará também PSD (Rogério Rosso), PRB (Igreja Universal e Sara Nossa Terra) e os inexpressivos PMB, PSDC, PSC, Patriota e PSL.

Não é uma plataforma de governo, ou pelo menos diretrizes para um programa, que unem Izalci, Cristovam e esses partidos — são os interesses políticos e pessoais de cada um dos personagens envolvidos. Quem duvidar, pergunte a eles o que farão no governo. As respostas serão óbvias e demagógicas, a mesmice de sempre. Vão criticar o governo de Rodrigo Rollemberg e dizer que é preciso impedir a reeleição dele. E não passarão disso.

O lançamento da chapa Izalci-Cristovam está obviamente identificado com a candidatura a presidente do tucano Geraldo Alckmin, mas o anúncio de hoje cumpre uma estratégia combinada com o candidato Jofran Frejat, que é do PR, partido que ainda não definiu quem apoiará na eleição nacional. Os dois blocos continuarão a conversar, enquanto aguardam as definições de alianças para presidente da República, mas praticamente já acertaram a união em uma chapa que terá Frejat para governador, Izalci como seu vice e Cristovam e Alberto Fraga (ou Paulo Octávio) para o Senado. Não é à toa que não se falou em vice e na outra cadeira ao Senado. Estão fora dessa articulação, por enquanto, Alírio Neto (PTB) e Eliana Pedrosa (Podemos), ambos autoproclamados candidatos a governador.

Continuam, pois, as negociações no bloco político que tem sua origem em Joaquim Roriz e José Roberto Arruda, identificado como a “direita” em Brasília, e que agora ganhou a adesão do ex-petista e ex-pedetista Cristovam Buarque. Espera-se que eles, depois de acertarem seus projetos pessoais, digam aos brasilienses, na campanha, o que pretendem fazer no governo e no Senado.

Em tempo: o governador Rodrigo Rollemberg diz que não quis passar a impressão de que em sua visita ao senador Reguffe recebeu o apoio dele, nem “plantou” nota sobre isso em coluna. Acredito e retifico o que publiquei.

 

Roriz e Arruda nada fizeram. O TCDF avisou. Paulo Tadeu protelou. Agnelo e Rollemberg ignoraram

Demagogia e oportunismo são características da velha política e dos velhos políticos. Esses dois ingredientes, como era inevitável, estão presentes em muitos dos discursos, comentários e entrevistas que têm sido feitos a respeito do desabamento do viaduto no Eixão Sul. Tenta-se “faturar” politicamente o desastre, especialmente para desgastar, em ano eleitoral, o governador Rodrigo Rollemberg e sua gestão. Da parte de políticos, há poucas análises e avaliações sérias e muita retórica vazia.

Tanto o governador quanto seus auxiliares responsáveis pela área têm, sim, responsabilidade pelo que ocorreu. As obras em pontes e viadutos deteriorados e que são riscos para as pessoas não foram priorizadas e não mereceram a atenção necessária. Faltou ao governador reconhecer publicamente esse grave erro, antes de anunciar as tardias medidas posteriores ao desastre. Um governante tem de ter coragem de se autocriticar. Faltou também anunciar uma rigorosa e rápida investigação interna para apurar as responsabilidades, mesmo tendo o diretor do Departamento de Estradas de Rodagem, Henrique Luduvice, sido corretamente demitido.

As pontes e viadutos, porém, não estariam na situação em que estão se os governos anteriores tivessem se preocupado em fazer a manutenção e os reparos necessários. Por isso caem na vala da demagogia e do oportunismo as críticas vindas de políticos que estão e estiveram profundamente vinculados aos ex-governadores Joaquim Roriz, José Roberto Arruda e Agnelo Queiroz. Todos eles optaram por fazer novas obras — que rendem mais popularidade e, como se tem visto, muito dinheiro — e desprezaram as reformas que prejudicariam o trânsito e poderiam causar aborrecimentos à população.

Não tem muito sentido também a exaltação ao Tribunal de Contas do Distrito Federal. A pedido do Ministério Público de Contas, em 2011, os técnicos do tribunal realmente fizeram um ótimo trabalho de levantamento dos problemas nas pontes e viadutos. O governo da época, de Agnelo Queiroz, foi alertado para os riscos, mas pouco fez, a ponto de ser repreendido pelo tribunal. O TCDF, porém, enredou-se em seu formalismo burocrático e não tomou medidas eficazes para exigir dos governos de Agnelo e de Rollemberg a realização das obras. Ficou no cômodo “eu avisei…”

E tem mais: em 19 de fevereiro de 2014 o conselheiro Paulo Tadeu pediu vistas do processo, impedindo sua tramitação. Tadeu só o devolveu no dia 10 de outubro de 2014, dizendo, em poucas linhas, concordar com o voto do relator, Renato Rainha. Passou quase oito meses com o processo na gaveta. Tadeu, antes de assumir a cadeira no TCDF, era deputado pelo PT e secretário de Governo de Agnelo. Pediu vistas no ano eleitoral, quando Agnelo disputava a reeleição, e devolveu o processo cinco dias depois da votação em primeiro turno. Mera coincidência?

 

 

 

 

Dinheiro para manutenção de pontes e viadutos tem, o que faltou e falta é priorizar

Um relatório de auditores do Tribunal de Contas do DF, de 2011, alertou o governo sobre o péssimo estado de viadutos e pontes em Brasília. Em alguns, como o que desabou parcialmente hoje, a necessidade de reparos era considerada urgente. Antes de o TCDF se manifestar vários engenheiros já haviam avisado, pela imprensa, que a população corria riscos devido à falta de manutenção de vias de grande movimento. Mas nem o governo anterior, de Agnelo Queiroz, nem o atual, de Rodrigo Rollemberg, cuidaram do viaduto no início do Eixão Sul.

Rollemberg, em pífia entrevista coletiva, informou que fez o serviço em alguns viadutos, mas não todos, pois não tinha recursos nos três primeiros anos de gestão, corroborando a desastrada fala do diretor do Departamento de Estradas de Rodagem, Henrique Luduvice, que justificou a sua omissão com falta de dinheiro. O governador disse que o governo gastou R$ 67 milhões na reforma de pontes e viadutos, como se isso fosse um grande feito.

Não há desculpa nem para Rollemberg nem para Agnelo, e os conselheiros do TCDF deveriam ser chamados a explicar porque nada fizeram diante da desatenção dos governadores às recomendações de seus auditores. Mas se os engenheiros, pelo menos desde o início deste século, e o tribunal, em 2011, constataram a falta de manutenção, a responsabilidade vem de longe: os governadores anteriores – especialmente José Roberto Arruda e Joaquim Roriz — também não cuidaram das pontes e viadutos. Se tivessem se preocupado com a manutenção, elas não chegariam à situação apontada no relatório. Espera-se que o ex-vice-governador Tadeu Filippelli, que durante 15 anos comandou direta ou indiretamente a Secretaria de Obras em três governos, não venha a fazer demagogia às custas do desabamento.

Quanto à alegada falta de dinheiro, vale uma comparação, ainda que com as devidas limitações: os donos de um imóvel são alertados por especialistas de que a casa está com problemas em algumas vigas e corre o risco de desabar. A reforma vai ser cara, mas os proprietários têm o dinheiro para realizá-la. Eles preferem, porém, gastar em outras coisas. Consertam uma das vigas e deixam as outras para depois, pois querem construir um novo salão, promover festas, comprar carro novo, pagar um professor particular para os filhos e por aí vai. Acontece que um dia uma das vigas não resiste e há o esperado desmoronamento. Felizmente ninguém estava em casa na hora, mas a família poderia ter morrido.

Pois é: não haveria riscos e desabamentos se este governo e os anteriores tivessem aplicado na manutenção de pontes e viadutos o dinheiro que gastaram em residências oficiais e outras mordomias, carros oficiais, inaugurações e eventos eleitoreiros, publicidade ufanista, carnaval de rua, eventos pretensamente “culturais” para agradar distritais, remuneração de servidores comissionados inúteis indicados por deputados, alugueis dispensáveis, viagens de secretários e outros servidores ao exterior e coisas assim. Sem falar no gasto com megalomanias lucrativas (para alguns) como o estádio para 70 mil pessoas.

 

 

Desgaste da esquerda limita pretensões do PT e do PSol em Brasília

Os petistas de Brasília estão menos ambiciosos e nas eleições de outubro ficarão satisfeitos se mantiverem o resultado de 2014, quando o partido elegeu uma deputada federal e quatro distritais. Não pensam em eleger o governador — como em 1994 e 2010 — e não acreditam muito na possibilidade de o deputado Wasny de Roure ser eleito para o Senado. A candidatura de Lula à presidência da República, apesar da condenação de hoje, é considerada crucial pelos petistas brasilienses, que confiam na popularidade do líder maior para puxar votos e, quem sabe, ajudar a eleger cinco distritais.

Não são grandes também as ambições do PSol, que quer eleger um deputado federal e dois distritais, sabendo que há a possibilidade de ficar com apenas um distrital. O PSol, como o PT, não tem ilusões de que conseguirá eleger governador e senador — não porque não tenha bons candidatos, mas porque o ambiente não parece muito favorável, na cidade, a candidatos de extrema-esquerda. O desgaste político e ético do PT respinga no PSol e as avaliações negativas das gestões de Agnelo Queiroz (PT) e Rodrigo Rollemberg (PSB) dificultam as pretensões de candidatos a governador que os eleitores considerem com perfis semelhantes aos deles. Esse, aliás, será o discurso da “direita” rorizista-arrudista: a esquerda não sabe governar.

O PSol já tem uma candidata ao governo, embora não oficializada. Parece ser uma boa candidata para cumprir os objetivos do partido: Fátima de Sousa é enfermeira, tem grande experiência em saúde básica, é professora universitária e diretora da Faculdade das Ciências da Saúde da UnB. O auditor federal Marivaldo Pereira deve ser candidato ao Senado. O PT ainda não conseguiu encontrar um candidato com o perfil adequado para ajudar a legenda a eleger deputados e, quem sabe, o senador, pois os mais conhecidos quadros do partido irão disputar as eleições para as câmaras. O único nome que tem sido levantado é o da professora Rosilene Corrêa, dirigente do sindicato da categoria.

É interessante lembrar que nas duas vezes em que o PT conseguiu eleger o governador foi com candidatos sem história de militância orgânica: Cristovam Buarque filiou-se em 1990 já com o propósito de se candidatar ao governo; Agnelo Queiroz filiou-se em 2008 para ser o candidato do partido em 2010. Cristovam era apenas, para quase todos os petistas, uma boa opção de candidato para ajudar a eleger deputados federais e distritais — não esperavam sequer que conseguisse chegar ao segundo turno.

Quando Agnelo trocou o PCdoB pelo PT poucos petistas acreditavam que ele poderia ser eleito governador. Seria também, como Cristovam, um bom candidato para puxar votos, mas a reeleição do governador José Roberto Arruda era considerada tranquila e nenhum quadro tradicional do PT queria ir para o “sacrifício”. Mas veio a Operação Caixa de Pandora, Arruda foi afastado e o quadro eleitoral mudou. O deputado Geraldo Magela, então, animou-se a ser o candidato a governador e enfrentou Agnelo em eleições prévias, sendo derrotado.

O PT, para não ficar fora do debate eleitoral, poder se defender e eleger deputados, precisa de um candidato a governador que seja limpo, disposto e bom de fala para aproveitar o potencial de votos que o partido tem em Brasília, estimado em cerca de 12%. Precisa de alguém para perder, mas desta vez, diferentemente das anteriores, com pouca probabilidade de haver surpresas.

 

 

 

Não há favoritos e antes da eleição tem uma janela e uma campanha eleitoral

Alguns pontos que devem ser considerados sobre a eleição de governador:

  • Rodrigo Rollemberg anunciou que vai disputar a reeleição e já cumpre, prematuramente, agenda de candidato.
  • Muitos podem contar, sem mentir, que foram sondados para ser o vice-governador e disputar o Senado na chapa de Rollemberg. À esquerda e à direita, no governo e fora dele. Se todos decidirem aceitar, o governador terá problemas.
  • Os únicos candidatos realmente novos que apareceram até agora são o empresário Alexandre Guerra, do Novo, a professora Fátima de Sousa, do PSol, e o advogado Ibaneis Rocha, do PMDB. Todos os demais são políticos que já exerceram mandatos.
  • Ibaneis, porém, é o novo que já entrou velho na disputa. Ao ingressar no PMDB e buscar alianças com o que há de mais velho na política brasiliense, deixou de ser um outsider. Está sendo chamado de Benjamin Button.
  • A candidatura do deputado Izalci Lucas a governador só vingará em duas hipóteses: se o PSDB não se aliar ao PSB na eleição para presidente da República ou, se houver essa aliança, se ele mudar para um partido que queira lança-lo.
  • Embora seja do PR, Jofran Frejat não é o candidato preferido de José Roberto Arruda. Mas é o preferido do dono do partido, Valdemar Costa Neto.
  • Se todos os anunciados postulantes a governador permanecerem na disputa, a lista será grande: PDT, Rede, PSDB, DEM, PTB, PMDB, PR, PRB e Psol anunciaram nomes; PT, PCdoB e PSD dizem que terão candidatos; PSB tem Rollemberg.
  • Boa parte dos que se colocam hoje como candidatos a governador vai acabar disputando cadeiras para o Senado e para a Câmara dos Deputados. Talvez até para a Câmara Legislativa.
  • Antes do registro das candidaturas haverá uma “janela” para que detentores de mandato mudem de um partido para outro.
  • Antes das eleições haverá uma campanha eleitoral.
  • Nos primeiros meses de 2014 as pesquisas pareciam indicar que o favorito era José Roberto Arruda, mas na verdade mostravam claramente, para quem soube lê-las, que era Rodrigo Rollemberg — mesmo que Arruda permanecesse na disputa. Agora, as pesquisas mostram que o quadro está totalmente indefinido e a disputa em aberto.

A velha politicagem começa atuante em 2018

A nota publicada hoje na coluna Eixo Capital, do Correio Braziliense, é uma síntese da velha politicagem que persiste no Distrito Federal: três pretensos candidatos ao governo de Brasília estiveram na segunda feira na casa do ex-deputado e ex-vice-governador Tadeu Filippelli: Ibaneis Rocha (PMDB), Jofran Frejat (PR) e Joe Valle (PDT). A nota, da jornalista Ana Maria Campos, não revela o que exatamente conversaram os quatro próceres da política brasiliense na residência do vice-governador de Agnelo Queiroz.

A matéria publicada ontem no Jornal de Brasília, assinada por Milena Lopes, dá uma pista: “Uma grande aliança, com partidos e políticos de tudo o que é lado, com o intuito de derrubar o governador Rodrigo Rollemberg nas urnas, em outubro, é gestada na capital”. O texto cita Tadeu Filippelli, Frejat, Ibaneis, Cristovam Buarque (PPS), Rogério Rosso (PSD), Alírio Neto (PTB), Alberto Fraga (DEM) e Izalci Lucas (PSDB), além do ex-governador José Roberto Arruda, como possíveis participantes dessa “grande aliança”.

Há meses que os políticos tradicionais de Brasília vêm tomando café, almoçando, jantando e se encontrando para conversar sobre as eleições de 2018. As mais esperadas e as mais estranhas alianças entre eles já foram especuladas. Joe Valle, por exemplo, já se reuniu com os antigos aliados do PT, mas cultiva a turma originária do tronco Roriz-Arruda. Cristovam Buarque, que sempre esteve à esquerda no espectro eleitoral, bandeou-se para a turma à direita.

A razão da união de todos eles é derrotar o governador Rodrigo Rollemberg. Os que realmente querem disputar o governo contra Rollemberg buscam formar a maior aliança possível em torno de suas candidaturas. Aos que almejam uma cadeira no Senado ou na Câmara dos Deputados também interessa a constituição de um bloco politicamente forte que os favoreça eleitoralmente.

A união de antigos “vermelhos” com os “azuis” e “verdes” de Roriz e de Arruda é justificada com uma construção teórica pretensamente elaborada sobre o fim da distinção entre esquerda e direita e com um discurso vazio e oportunista sobre a necessidade de “salvar” Brasília do que consideram — com o respaldo de pesquisas — péssima e desastrosa gestão de Rollemberg.

Mas, depois de tantas conversas e comes e bebes, esses velhos políticos já poderiam pelo menos ir além das frases demagógicas sobre “má gestão” e mostrar à população no que exatamente se opõem a Rollemberg e o que propõem de diferente, ainda que em linhas gerais, para um novo governo em 2019.

Rollemberg dizia que iria renovar e não fazer o “mais do mesmo”, mas manteve os velhos esquemas e vícios do governo e da política e faz o “mesmo do mesmo”. Não faz um bom governo e, diante da perda de aliados, radicalizou sua guinada à direita e procura justificar sua aliança com tucanos, conservadores e fundamentalistas religiosos.

A grande e heterogênea aliança contra ele, porém, nada apresenta de novo, nem nas ideias nem nos métodos. Pelo jeito, quer apenas recuperar o espaço de poder — com todas as suas benesses políticas e financeiras — que alguns deles perderam em 2010 e outros, como Filippelli, em 2014.

 

 

Reeleição causa mais males do que benefícios e deveria acabar, com mandatos de cinco anos

Chefes de governo em regimes parlamentaristas frequentemente exercem o cargo por muitos anos. Não são eleitos diretamente, mas pelo Legislativo, e geralmente só são substituídos quando o partido do qual são membros perde a maioria parlamentar. Podem ser derrubados também por uma moção de desconfiança, mas isso tem sido raro. O único país parlamentarista que proíbe a permanência do mesmo governante por mais de dois mandatos parlamentares é Cuba, em decisão recente.

Em regimes presidencialistas os chefes de governo têm de se submeter ao voto popular periodicamente e na maioria dos países podem se reeleger — ou indefinidamente, ou apenas uma vez, ou depois de permanecerem fora do governo por um mandato. Há países, como o Brasil, em que a reeleição é permitida apenas para o mandato seguinte, mas depois da alternância o ex-governante pode voltar a ser eleito. Nos Estados Unidos não pode.

Até a década de 1990 não existia reeleição na maioria dos países da América Latina, ou não era possível se reeleger para um novo mandato imediato. No Brasil a reeleição foi aprovada em 1998, para beneficiar o então presidente Fernando Henrique Cardoso. Juscelino Kubitschek não pôde se reeleger em 1960, mas iria se candidatar em 1965, se os golpistas de 1964 não tivessem acabado com as eleições diretas.

Há quem defenda a reeleição no Brasil alegando que quatro anos de mandato é pouco e que o governante se submete ao voto para continuar, podendo o eleitor ratificar ou não a sua permanência. O primeiro argumento pode ser superado pela adoção de um mandato maior, de cinco anos, como era até a Constituição de 1988, ou de seis, como no Chile. No segundo ponto — a disputa pela reeleição — é que estão hoje as principais objeções à reeleição. Uma delas é a vantagem que leva sobre os demais candidatos, por deter o poder e disputar a eleição ocupando o cargo.

Para se reeleger, governantes deixam de tomar decisões importantes, mas que criam atritos com alguns segmentos. O então governador José Roberto Arruda, por exemplo, deixou para fazer a concessão do metrô no segundo mandato — que não houve. Desde o ano anterior à eleição, os governantes dedicam-se mais à sua campanha do que ao governo propriamente dito. As ações de governo são voltadas para a reeleição, não para a população. Prevalecem eventos e posturas demagógicas e eleitoreiras.

Está sendo assim em Brasília. De olho na difícil, mas não impossível reeleição, o governador Rodrigo Rollemberg só pensa nisso. É interessante ver o que escreveu Aldenir Paraguassú, que foi administrador do Lago Sul. Aliás, no início do governo o único administrador realmente indicado pela comunidade, como tinha prometido Rollemberg, foi Paraguassú:

“O próximo ano de 2018 inexoravelmente será assustadoramente repleto de manifestações, medidas e providências, ou não, típicas do velho modelo “estruturado”, com o propósito único de dar continuidade ao poder (…) Lamentavelmente, como em todos os governos passados e ultrapassados, o asfalto será recapeado, a grama podada, as faixas marcadas, a atuação da Agefis sensivelmente minimizada, autuações quase nenhuma, ou seja, liberação geral. Ninguém pode perder votos, não importa se a cidade perde e a sociedade também, além de pagar a conta. (…) Esperemos os mais esdrúxulos acordos e combinações em benefício de poucos, jamais em torno de propostas e projetos que possam beneficiar muitos.”

A reeleição, no Brasil, causa mais prejuízos à população do que benefícios. Deveria acabar, assim como deveriam ser limitados os mandatos legislativos.

 

Governo e governador são reprovados com notas 3,5 e 2,9, mas Rollemberg lidera em pesquisa

É muito grande a reprovação, pelos brasilienses, de Rodrigo Rollemberg e de seu governo. Mas o governador lidera as intenções de voto espontâneas e estimuladas, segundo pesquisa reservada realizada em Brasília nos primeiros dias deste mês. Rollemberg e os demais candidatos citados, porém, perdem feio para os votos nulos e em branco e para os que não quiseram responder em quem pretendem votar em 2018. A pesquisa, com margem de erro de 3,5%, pode não ser muito precisa — e provavelmente não é — quanto aos números, mas dá indicações sobre o que pensam hoje os brasilienses a respeito do governo e das eleições.

O governo, avaliado pelos pesquisados com notas de zero a 10, é reprovado por 58,5% (notas 0 a 3) dos brasilienses e aprovado por 12,8% (notas 7 a 10). A nota média do governo é 3,5. O governador tem os mesmos 12,8% de aprovação, mas a reprovação é maior, de 60,3%, recebendo nota média de 2,9.

Rollemberg é o mais citado espontaneamente para o governo (10,9%), seguido de Jofran Frejat (3%), Toninho do PSol e Joaquim Roriz (2,5%), Erika Kokay (2,2%), Izalci Lucas (1,8%), Alberto Fraga e Arlete Sampaio (1,6%), Reguffe (1,4%) e José Roberto Arruda (1%). Mas 64,7% dizem que não sabem ou votarão nulo ou em branco.

Quando a intenção de voto é estimulada, Rollemberg recebe 15,3% das intenções de voto, seguido de Jofran Frejat (10,6%), Toninho do PSol (7,7%), Izalci Lucas (4,8%), Arlete Sampaio e Alberto Fraga (4,6%), Joe Valle (1,3%) e Ibaneis Rocha (menos de 1%). Nulos, em branco e não sabem em quem votar somam 44,5% dos eleitores. A única rejeição expressiva é a de Rollemberg (35,8%), sendo a de Frejat de 8,3% e as demais ainda menores.

Dos nomes listados para escolha do eleitor, dois deles não se declaram candidatos: Toninho do PSol e Arlete Sampaio, do PT, que provavelmente serão candidatos a deputado distrital. Mas as intenções de voto que receberam podem dar indicações da votação que os candidatos de seus partidos poderiam ter se as eleições fossem hoje.

Na próxima nota, observações sobre o que mostra essa pesquisa.