Acusar falsamente, não se desculpar e fugir das redes não fica bem para quem quer ser governador

O deputado Alberto Fraga, do DEM, diz que será candidato ao governo de Brasília. As apostas políticas, porém, são de que acabará sendo candidato ao Senado. Mas não se deve descartar a possibilidade de que irá mesmo é tentar a reeleição para a Câmara dos Deputados. É melhor garantir um mandato de deputado federal para os próximos quatro anos, ainda mais para quem tem processos em tramitação. Fraga não se elege governador e pode se eleger senador — mas não está garantido.

Fraga sofreu enorme desgaste nos últimos dias ao postar informações falsas sobre a vereadora Marielle Franco, executada no Rio de Janeiro. Sem procurar checar a veracidade do que estava reproduzindo e no seu tom habitual, preconceituoso e violento, Fraga cometeu a indignidade de fazer acusações mentirosas a uma mulher assassinada brutalmente. Para piorar o que já estava ruim, Fraga reconheceu que errou mas não pediu desculpas, e cancelou suas contas nas redes sociais — nas quais estava sendo bombardeado e agora é chamado de covarde. Nada bom para qualquer pessoa, ainda mais para quem quer ser governador.

Fraga, coronel da PM, é o típico político que tem muitos votos, mas não o suficiente — 50,01% dos votos válidos — para se eleger governador. Dependendo do número de candidatos, pode se eleger senador com seu teto de votos, que dificilmente passa dos 20%. Mas correrá risco, ainda mais com sua propensão de falar e fazer bobagens.

O eleitorado de Fraga tem a mesma composição básica do de Jair Bolsonaro: é a direita radical, homofóbica, conservadora e adepta de métodos violentos para combater a criminalidade e, por extensão, para derrotar adversários políticos e ideológicos. A direita e os conservadores moderados e democráticos terão outras opções, mais “civilizadas”, em outubro.

Fraga e Bolsonaro fazem muito barulho, mas não terão os votos da maioria absoluta dos brasilienses e dos brasileiros nas próximas eleições.

 

Execução de Marielle não é mais uma dentre tantas mortes, é um fato de dimensões políticas

Nada vale mais que uma vida, qualquer vida. Não interessa se a vida é de esquerda, de centro ou de direita, ou se tem ou não tem ideologia. Por isso é deplorável que se comemore  a morte de alguém, por pior que a pessoa morta nos pareça. É igualmente deplorável que a execução de uma parlamentar no exercício do mandato, seja quem for, não seja unanimemente condenada, por toda a sociedade e por todo o espectro político, como um atentado à liberdade e à democracia. E o pior, que procurem “justificar” o assassinato.

A morte da vereadora Marielle Franco provocou uma justa comoção e revolta em todos os que valorizam e respeitam a vida, não aceitam assassinatos e execuções, temem a escalada da violência no país e defendem a tolerância e a convivência das diferenças em uma sociedade democrática. A comoção e a revolta são maiores, o que é natural, entre os que comungam com os princípios, ideias e práticas de Marielle e pelos que se identificam com ela pela origem, pela cor e pelas escolhas que fez ao longo de sua vida encurtada.

Não deveríamos esperar sentimentos positivos dos que exaltam a morte, defendem a violência e querem resolver a pancada ou à bala suas diferenças com os que pensam e agem diferente. Dos que confundem, por ignorância ou conveniência, a defesa dos direitos humanos universalmente reconhecidos com a defesa da impunidade de criminosos. Há tempos de guerra e tempos de paz, e não estamos vivendo sequer uma guerra civil, ainda que alguns queiram, por oportunismo e politicagem, dar esse sentido ao combate à criminalidade.

Não têm sentido, nesse momento, as reclamações de que a execução de Marielle ganhou uma dimensão exagerada, quando outras vítimas de criminosos e assassinatos de policiais não recebem o mesmo tratamento. Por esse raciocínio, pode-se dizer também que os assassinatos de cerca de 30 militantes de causas sociais nos últimos dois anos, especialmente no interior do país, também não receberam o mesmo destaque. Ou que se fala pouco de Anderson Gomes, o motorista que morreu por estar ao lado da vereadora.

É óbvio que a repercussão da morte de Marielle teria de ser maior do que as inúmeras outras. Ela foi executada a tiros no Rio de Janeiro, cidade conhecida em todo o mundo. Era uma vereadora de um partido de extrema-esquerda, de origem pobre, militante ativa, negra e homossexual. O fato ocorreu no momento em que há uma intervenção federal e militar na área de segurança do estado, assolado pela violência e pela criminalidade. A reação a esse assassinato, a mobilização popular que se seguiu e a cobertura da imprensa são proporcionais à dimensão do fato.

Além disso, a execução tem repercussão na vida política do país e, como vimos, até mesmo em nossas relações internacionais. O momento é extremamente delicado: ano eleitoral, polarização exacerbada. As autoridades têm a obrigação de desvendar o crime e prender os culpados, aumenta a desesperança da população diante do aumento da violência, a intervenção militar no Rio de Janeiro está colocada em xeque. Proliferam especulações e acusações sobre a autoria e a motivação da execução de Marielle.

Nenhuma outra morte dentre as tantas no Rio, inclusive a de mais de uma centena e meia de policiais, tem essa dimensão política e institucional. Todas, porém, têm de ser lamentadas. E é preciso encontrar, com racionalidade e sem demagogia, com medidas concretas e sem exibicionismos, os caminhos para tornar o Rio e o Brasil mais seguros para a população e, principalmente, salvar vidas, seja de pessoas comuns, de policiais, de Andersons e de Marielles.