Por enquanto, maioria dos eleitores brasilienses ainda não sabe em quem votar ou vai anular o voto

Não dá ainda, a menos de sete meses do pleito, para arriscar previsões sobre a eleição para governador de Brasília.  Como já escrevi aqui, quem cravar o vencedor, ou mesmo os nomes de quem vai para o segundo turno, é irresponsável, vidente ou cabo eleitoral de algum candidato. O quadro continua incerto, principalmente porque não se sabe sequer quem serão mesmo os candidatos. Há alguns já considerados certos, mas as indefinições ainda são muito relevantes.

Pesquisas realizadas recentemente e o sentimento do pulso dos brasilienses dão algumas indicações que deveriam ser consideradas por candidatos e seus estrategistas:

  • Seis a sete entre 10 eleitores não simpatizam com nenhum dos possíveis candidatos já colocados. Estima-se que um quarto dos eleitores tem forte tendência a anular o voto, se os candidatos forem esses. A rejeição aos políticos tradicionais continua altíssima e são bem poucos os eleitores que conhecem os candidatos que fogem dos padrões tradicionais, como Alexandre Guerra (Novo), Fátima de Sousa (PSol) e Paulo Chagas (PRP).
  • Se os pré-candidatos do tronco rorizista-arrudista estão aguardando uma pesquisa para saber qual deles está mais bem colocado e deve ser o cabeça de chapa do grupo, podem economizar o dinheiro: é Jofran Frejat (PR), muito à frente de Alberto Fraga (DEM), Izalci Lucas (PSDB) e Alírio Neto (PTB).
  • É enorme o risco de o governador Rodrigo Rollemberg (PSB) não ir sequer para o segundo turno. Pode-se dizer que oito em 10 eleitores desaprovam sua gestão e nem todos, entre os poucos que a aprovam, pretendem votar nele. Para a maioria, neste  governo Brasília ficou pior do que antes. A chance de Rollemberg é se tornar o “voto útil” no segundo turno, se chegar nele, contra um candidato do grupo à direita, especialmente se não for Frejat.
  • Fala-se nos deputados distritais Joe Valle (PDT) para governador e Chico Leite (Rede) para senador, embora esses dois partidos tenham candidatos à presidência já declarados (Ciro Gomes e Marina Silva). Mas, se a dupla for essa, faria mais sentido, hoje, inverter a chapa, pois Chico Leite tem mais do que o dobro das intenções de voto de Joe Valle.
  • O PT ainda não tem candidato a governador, mas é real a possibilidade de, pela primeira vez, não estar entre os três primeiros colocados.
  • De qualquer maneira, nenhum candidato anunciado tem intenção de voto significativa até agora. Nem Frejat, que está à frente dos demais.
  • As duas cadeiras em disputa para o Senado estão mais para o senador Cristovam Buarque (PPS) e para Jofran Frejat ou para o deputado Alberto Fraga, se não forem candidatos ao governo. As chances de Leila do Vôlei (PRB) e Chico Leite não devem ser desconsideradas. Mas a maioria do eleitorado também não sabe ainda em quem votar para senador.

Nada, mas nada mesmo, porém, pode ser considerado definitivo. O quadro atual, que em si já é incerto, pode sofrer inúmeras mudanças diante de variáveis como as candidaturas à presidência da República, as definições finais de candidatos e coligações e, claro, a campanha que cada um conseguirá fazer. O enorme número de eleitores que não sabem em quem votar ou não querem votar em ninguém pode mudar todo o quadro, se houver migração deles para algum candidato.

O dilema da Rede: coligação com a velha política ou candidato próprio ao governo

Em meio à intensa e desordenada movimentação dos partidos em busca de coligações para disputar o governo de Brasília e as cadeiras no Senado e nas câmaras, há uma legenda sobre a qual pouco se tem falado: a Rede Sustentabilidade, o partido liderado por Marina Silva, candidata a presidente da República. Formalmente, a Rede decidiu que terá candidato ao governo, o deputado distrital Chico Leite. Mas no meio político é dado como certo que Leite será mesmo é candidato ao Senado, não se sabe em que chapa — até porque as chapas não estão formadas.

Inicialmente havia a tendência de a Rede se coligar com o PDT e com o PV, apoiando a candidatura do também distrital Joe Valle ao governo e tendo o presidente dos verdes, Eduardo Brandão, como candidato a vice-governador. Mas Valle, que já havia ensaiado uma aproximação com o PT e com Jofran Frejat, do PR, patrocinou reuniões tentando unir o PDT a partidos de diversas tendências, como PPS, PSD, PCdoB, PPL, PRB e PSDB. A Rede, prudentemente, recusou-se a participar dessa farofada política, que não subsistiu.

Valle será lançado candidato a governador para ajudar, em Brasília, a candidatura de Ciro Gomes a presidente da República. Se a Rede fechar com ele, lançando Chico Leite ao Senado, Marina Silva não terá candidato a governador na cidade e o partido perderá a oportunidade de se apresentar aos eleitores no auditório maior. Leite em nada se beneficiará por estar na chapa liderada pelo PDT e a Rede sairá das eleições menor do que entrou.

Leite e a Rede perderão mais ainda se aceitarem o convite do governador Rodrigo Rollemberg para participar de sua chapa — que, pelas negociações que vêm sendo realizadas com PSDB, Pros, PRB e Solidariedade, estará bem à direita no espectro político. A não ser que o PSB resolva apoiar a candidatura de Marina Silva a presidente, o que parece muito improvável.

Por isso existe, na Rede, um movimento para que seja mantida a decisão de apresentar candidato próprio ao governo. E o nome mais viável, até agora, é o de Chico Leite. O quase inexistente tempo nos horários gratuitos não é a maior dificuldade para a campanha — o problema é que se a Rede não conseguir a filiação de dois parlamentares federais até 7 de abril não terá direito, pela absurda e restritiva legislação eleitoral, de participar dos debates promovidos pelas emissoras de televisão.

A Rede, apesar de desgastes sofridos, ainda é identificada com a renovação e com a nova política. Aliar-se à velha política em coligações oportunistas e sem consistência a descaracterizará e não fará bem nem à legenda nem a Marina. E muito menos a Chico Leite e aos candidatos a deputado.

 

Contra Rollemberg: primeiro a gente se junta, depois a gente resolve o que vai fazer de diferente

Partidos políticos são instituições em decadência, por vários motivos: perderam a representatividade, são poucos os que ainda têm identidade e princípios ideológicos, a maioria existe para fazer negócios que beneficiam seus “donos”, muitos de seus membros importantes são acusados de corrupção e daí por adiante. A legislação cartorial brasileira exige que para ser candidato um cidadão esteja filiado a um partido — uma clara violação do direito que todos têm de eleger e serem eleitos, pois o postulante tem de ultrapassar muitas barreiras para ser lançado candidato pelo partido.

Os partidos políticos podem se reerguer e conquistar um papel importante na vida política do país, e é desejável que isso aconteça. Mas seus líderes deveriam então se preocupar em adotar novas práticas e métodos políticos, mais adequados ao tempo em que vivemos, e não em persistir em velhas e antiquadas fórmulas. Como, por exemplo, a de formar alianças sem discussão programática e unindo forças que nada ou pouco têm uma com a outra, apenas por oportunismo político ou para beneficiar uma ou outra candidatura.

Uma aliança de partidos disparatados pode ocorrer em situações de guerra, calamidade ou algo que leve à necessidade do que comumente se chama de “governo de salvação nacional”. Justifica-se quando a situação é caótica e só a união das forças políticas, por um prazo determinado, pode mudar o quadro. Alianças, em situações normais, não precisam ser entre os iguais, e comportam forças diferentes ideologicamente. Mas há um limite para as diferenças e as alianças têm de se basear em uma plataforma comum para cumprir objetivos claramente determinados.

A tentativa do senador Cristovam Buarque (PPS) e do distrital Joe Valle (PDT) de formar um bloco unindo PCdoB, PDT, Rede, PV, PPS, PDS e PRB para disputar as eleições de outubro não explica a que vem. O que pode unir esses partidos, pelo que se sabe, é apenas impedir a reeleição do governador Rodrigo Rollemberg e do candidato do bloco de partidos e políticos de centro-direita e de direita. Assim como essa turma, oriunda da raiz rorizista-arrudista e que reúne Jofran Frejat, Tadeu Filippelli, Ibaneis Rocha, Alberto Fraga, Alírio Neto, Izalci Lucas e outros, fala apenas em tirar Rollemberg do Buriti, sem apresentar um só item programático.

Para justificar a união em blocos heterogêneos, coloca-se como objetivo fundamental impedir a reeleição. Não se diz à população o que será feito diferente — e não valem generalidades como melhorar a gestão e torná-la mais eficiente. Na verdade, essas coligações sem princípios são montadas apenas para melhorar as chances de candidatos, majoritários ou proporcionais, e passam à população a ideia de conchavos politiqueiros à margem dos eleitores.

Basta dar uma passada rápida pelos partidos que Cristovam e Joe querem juntar para verificar as discrepâncias. Com margem de erro, da esquerda para a direita:

  • PCdoB: aliado tradicional do PT, comunista sem sectarismos, lançou Manoela D´Ávila como candidata a presidente da República. Não participou do governo de Rollemberg e faz oposição a Michel Temer.
  • PDT: integrou a coligação que elegeu Rollemberg e seu governo, tendo rompido no ano passado. Tem Ciro Gomes como candidato a presidente e também faz oposição a Temer. O deputado Joe Valle coloca-se como candidato a governador.
  • Rede: também integrou a coligação e participou do governo até final de 2017. É contra Temer. Marina Silva é a candidata a presidente e o distrital Chico Leite apresenta-se como candidato ao governo ou ao Senado.
  • PV: o deputado distrital Israel Batista comanda uma secretaria do governo de Rollemberg e tem vários cargos na administração, assim como o presidente Eduardo Brandão, que já se ofereceu para ser o candidato a vice do governador.
  • PPS: o partido alinha-se ao governo de Michel Temer e nunca participou da gestão de Rollemberg. O senador Cristovam Buarque quer ser candidato a presidente da República, mas não tem apoio interno (a tendência é coligar-se ao PSDB) e pode tentar uma terceira eleição para o Senado. Entre os quadros do PPS estão os distritais Celina Leão e Raimundo Ribeiro, acusados de corrupção e fortes opositores do governador,e o ex-senador Valmir Campelo.
  • PSD: aliado de Temer, foi da coligação que elegeu Rollemberg, indicando o vice-governador, e participou do governo até 2017. O deputado federal Rogério Rosso foi um dos mais próximos aliados de Eduardo Cunha e teve apoio do hoje presidiário para disputar a presidência da Câmara.
  • PRP: o partido da Igreja Universal do Reino de Deus apoia Temer, participa do governo de Rollemberg e o distrital Julio César é da base aliada ao governo. Seu dirigente Wanderley Tavares, porém, se coloca como candidato ao governo.

Os articuladores do bloco que vai do PCdoB ao PRB deveriam se lembrar do que houve na eleição de 1990: juntaram-se PDT, PSDB, PSB, PCB, PCdoB e PEB para apoiar a candidatura ao governo do então senador Maurício Corrêa, o mais votado em 1986. Essa grande coligação lançou o senador Pompeu de Sousa para a reeleição. O PT, sozinho, lançou o desconhecido médico Carlos Saraiva e Saraiva para o governo e o professor Lauro Campos para o Senado.

Nessa eleição, Joaquim Roriz elegeu-se no primeiro turno (55,49%), Saraiva ficou em segundo (20,27%) e Corrêa apenas em terceiro (14,28%). Valmir Campelo, da chapa de Roriz, elegeu-se senador (47,27%), o petista Lauro Campos ficou em segundo (34,13%) e Pompeu de Sousa (7,38%) ainda ficou em quarto, atrás de Lindbergh Cury, do PMDB (9,60%).