Militantes contemporâneos têm o que aprender com maio de 68 e com a Casa de Papel

Fui convidado pelo cineclube da Aliança Francesa para debater o documentário francês Maio 68, uma estranha primavera, de Dominique Beaux. Procurei responder às perguntas dos presentes com objetividade, pois eram muitas questões colocadas e já estava tarde quando a exibição terminou. Mas em dois ou três minutos, por maior que seja a capacidade de sintetizar, muitas vezes não é possível justificar adequadamente uma ideia. Acho que foi o que aconteceu quando uma aluna da UnB perguntou como eu vejo as ocupações e as greves na universidade. Como não houve réplica, não sei o que ela achou — mas deixou o auditório logo depois.

Como disse algumas vezes no debate, cada luta tem de estar contextualizada em seu momento. Não tem sentido parar no tempo e querer repetir, 50 anos depois, sem avaliação crítica e análise da conjuntura e das condições atuais, as formas de luta dos estudantes franceses que ocuparam universidades e foram às ruas em maio de 1968. Os cenários internacional e nacional eram outros, as motivações se adequavam àqueles tempos, os tempos mudaram. Não que essas formas tenham perdido a validade, o que não pode é serem adotadas mecanicamente.

Eu disse, no debate, que não sou favorável a greves de estudantes e ocupações de prédios universitários sem um objetivo claro e eficaz. Não concordo com a greve pela greve, com a ocupação pela ocupação. Não podem ser apenas para autossatisfação da militância ou para cumprir um ritual, tem de haver um resultado, ainda que seja apenas a divulgação do movimento. Disse ainda que não vejo nada positivo em manifestações que prejudicam e irritam a população que, em vez de simpatizar com o movimento, acaba o repudiando e isolando. E apoio da população, como até os ocupantes da fábrica de dinheiro em Casa de Papel mostraram, é fundamental.

Não vejo sentido em fazer greve em uma universidade pública em situação financeira crítica, porque essa greve só prejudicará ainda mais os estudantes e em nada contribuirá para salvar a instituição. Há diversas outras formas de luta, mais eficientes, para protestar e ganhar apoio da população contra as políticas de governo que asfixiam a UnB e para  manter a universidade em funcionamento.  Os que querem acabar com a universidade pública e gratuita devem ficar muito satisfeitos quando veem professores, funcionários e estudantes contribuindo involuntariamente para o objetivo deles de desgastar a instituição.

Ademais, greves podem ser por tempo determinado, curtas, acompanhadas de manifestações com repercussão na opinião pública, e não por tempo indefinido, atrapalhando os estudos e o calendário de vida dos estudantes (formatura, estágio, intercâmbio, viagem). Portanto, não sou contra greves em si, discordo quanto à oportunidade e eficácia real de algumas delas. Também não sou contra ocupações, mas não vejo sentido em ocupar prédios e instalações administrativas da UnB, prejudicando os serviços e impedindo os professores e servidores de trabalhar — ainda mais quando a universidade está sob fogo cerrado de seus adversários. É melhor ocupar as faculdades e institutos.

Quando ocupamos o prédio do Elefante Branco, em 1968, em uma sexta-feira, bloqueamos o acesso às salas de aulas, à biblioteca e à sede do grêmio, no primeiro andar. Não entramos nas salas administrativas e da direção, no térreo. As barricadas eram na escada. Não destruímos nada, pelo contrário: fizemos uma limpeza geral no colégio — piso, paredes, carteiras —  e colocamos para funcionar a biblioteca, fechada há meses. E, ainda sob nossa ocupação, permitimos que alunos e professores tivessem aulas normalmente na segunda-feira — apenas nos dividimos para fazer pequenos discursos antes do início da primeira aula em cada sala. Tivemos apoio dos alunos e a direção negociou, não pediu à polícia que nos retirasse.

Não sou contra greves e ocupações de estudantes, mas formas de luta têm de ser avaliadas em cada circunstância. Sou, sim, contra greves indiscriminadas em serviços públicos, e que causam prejuízos à população, especialmente aos mais pobres e que mais precisam de saúde, educação, transporte e segurança. Acho também um grave erro fechar o trânsito e impedir a circulação, irritando motoristas e passageiros, quando uma grande manifestação pode ser feita sem recorrer a isso.

Sindicatos e entidades estudantis não podem se estagnar e agir como se estivéssemos em outras épocas e outras realidades, e muito menos deveriam se isolar em pequenos grupos militantes distanciados da maioria. Há diversas formas de luta que podem ser mais eficazes e eficientes para os objetivos buscados e para receber apoio da população. Uma boa e aprofundada discussão política e criatividade ajudam a sair da mesmice e encontrá-las.