Desenvolvimento é muito mais do que discurso ufanista

A revista da Associação Comercial do Distrito Federal, ACDF em Ação, publicou artigo meu em que critico a falta de um plano de desenvolvimento sustentável para Brasília, elaborado com método e ampla discussão com a sociedade. O desenvolvimento do DF vem sendo tratado, há muitos anos, com premissas falsas, programas pontuais e geralmente ineficazes e discursos ufanistas e desligados da realidade.

Transcrevo o artigo:

Brasília foi construída para ser a capital da República. Uma cidade essencialmente administrativa, pois. Disseminou-se a informação falsa de que Brasília, entendida como todo o território do Distrito Federal, foi projetada para receber no máximo 500 mil habitantes. Na verdade, esse foi o limite estabelecido para o Plano Piloto, e que até hoje não foi alcançado.

Brasília não foi projetada para ser uma metrópole, mas cresceu, como era inevitável, e tem três milhões de moradores. Sua área de influência próxima soma mais um milhão e meio de pessoas. A grande área metropolitana – Brasília e municípios vizinhos de Goiás — tem todos os graves problemas das cidades grandes, embora com indicadores econômicos e sociais elevados e um invejável orçamento de R$ 42,4 bilhões para 2018.

É óbvio que uma cidade deste porte, e que ainda por cima é a capital do país, precisa de um plano de desenvolvimento econômico sustentável construído a partir de instrumentos de planejamento e de um amplo e profundo debate com a sociedade civil. É nesse plano de desenvolvimento que as vocações da cidade e de cada uma de suas regiões devem ser definidas e executadas as políticas, ações e investimentos necessários.

O problema é que esse plano de desenvolvimento nunca existiu e não existe, o principal instrumento para fundamentá-lo, que é o Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE) não sai do papel e parece não haver nenhuma intenção de abrir um debate sério e qualificado com a sociedade sobre o tema. Prevalecem o voluntarismo, as ações pontuais – geralmente ineficazes – e os palpites descolados da realidade brasiliense.

Ficamos, então, no discurso genérico e raso, embora com propostas muitas vezes corretas, mas que pairam no ar. Fala-se há anos, por exemplo, em fazer de Brasília um polo de tecnologia porque aqui há muitos doutores e universidades e a população tem bom nível de instrução – como se todos os doutores fossem dessa área, se as universidades fossem de altíssima qualidade e se o nível de nosso ensino fosse bom. E como se os desempregados brasilienses estivessem aptos a trabalhar nesse setor.

Fala-se também em descentralizar os postos de trabalho, concentrados no Plano Piloto e arredores, para as cidades. Mas não se indica como fazer isso, qual a vocação clara de cada região do Distrito Federal, que tipos de atividades, e como, devem ser incentivadas, que investimentos fazer.

A verdade é que o desenvolvimento econômico de Brasília nunca foi planejado em bases científicas e realistas. Chega-se ao ponto de negar que Brasília seja uma cidade administrativa e que o setor de serviços esteja vinculado a essa realidade, inclusive à alta renda per capita. E assim se parte de uma premissa errada no rumo, naturalmente, errado.

Não há, além de planejamento, a necessária articulação entre as diversas áreas do governo para executar ações coordenadas que envolvem questões ambientais, urbanísticas, fiscais, de mobilidade. Não há diálogo com a sociedade, que vai muito além do empresariado. Enfim, desenvolvimento tem sido apenas discurso. E o pior é que, muitas vezes, ufanista. E falso.