A lei eleitoral favorece os “grandes”, mas nas eleições de 2018 pode ser diferente

Os grandes partidos saem com grande vantagem nas eleições de 2018: terão mais dinheiro do fundo estatal, mais tempo no rádio e na televisão, presença garantida nos debates e não precisam se preocupar com a cláusula de barreira. A legislação eleitoral, incluindo os dispositivos recentemente aprovados, foi elaborada para beneficiar grandes partidos e os políticos que já detêm mandato, dificultando o surgimento e a consolidação de novas legendas e a renovação nas casas legislativas e nos executivos. Além disso, impede o que existe em 90% dos países: a possibilidade de um cidadão ser candidato independente, sem vínculo com partido.

É natural, assim, que os candidatos a governador de Brasília que são filiados a grandes partidos sejam considerados favoritos. Terão mais dinheiro para suas campanhas e mais tempo para se apresentarem nos programas e nas inserções no rádio e na televisão, além de estarem nos debates e terem uma estrutura partidária maior. Essas vantagens aumentam se esses partidos se coligarem, acrescentando mais dinheiro e mais tempo aos candidatos.

Entre os “grandes” está o governador Rodrigo Rollemberg, do PSB, que busca ter o apoio do PSDB e de partidos menores. Estão também os que se colocam como candidatos no campo da “direita”, como Jofran Frejat (PR), Ibaneis Rocha (PMDB), Alírio Neto (PTB), Alberto Fraga (DEM) e Izalci Lucas (PSDB). Ou no campo da “esquerda”, como Joe Valle (PDT) e o candidato do PT, ainda não definido — uma das hipóteses é a professora Rosilene Correa, diretora do Sinpro, e fala-se também no procurador Eugênio Aragão. O PSD alardeia candidatura própria, mas tende a apoiar alguém de outro partido.

Os partidos “pequenos” terão candidatos, apesar das dificuldades que encontrarão. O Novo já lançou o empresário Alexandre Guerra. O PSol decidirá entre vários pré-candidatos, mas a tendência é indicar a professora Maria Fátima de Sousa, diretora da Faculdade de Ciências da Saúde e de Medicina da UnB. A Rede diz que poderá ter candidato próprio, mas está conversando com outros partidos para se coligar, tendo o distrital Chico Leite como candidato ao Senado. O PPS, que tem em seus quadros o senador Cristovam Buarque e o ex-senador Valmir Campelo, ainda não decidiu se terá candidato ou se coligará.

Dentre os citados, poucos são candidatos sem mandato e sem grande vivência na política partidária, enquadrando-se em parte desse perfil desejado pela maioria dos eleitores brasilienses: Ibaneis, Rosilene, Aragão, Guerra e Fátima (ou outro que o PSol lançar). Cada um terá de enfrentar um problema comum — serem desconhecidos dos eleitores — e alguns problemas específicos, decorrentes deles próprios e de seus partidos. Guerra e Fátima, por exemplo, são de partidos pequenos. Ibaneis é do PMDB, que não é exatamente o partido indicado para quem se coloca como outsider. O PT sofre forte desgaste.

E não é só distância da política e dos políticos tradicionais que os eleitores querem. O perfil desejado para um governador inclui experiência que demonstre competência e capacidade de diálogo e articulação e, sobretudo, honestidade e passado limpo. E embora os que se situam nos extremos do espectro político tenham seus votos, a expectativa é por alguém ao centro.

Entre o quadro de hoje e a eleição haverá uma campanha eleitoral, curta e na qual os “grandes” levarão vantagem porque a lei os beneficia. Há favoritos, assim, porque as regras não garantem que os concorrentes disputem em igualdade. Mas, na verdade, não vale a pena apostar em nenhum deles. Os tempos mudaram e as pessoas andam bastante irritadas. Nada será fácil para candidatos com esse perfil lançados por partidos menores, mas nada está ainda decidido.

 

 

O novo em 2018: Joe Valle, Cristovam, Rosso, Celina, Universal, Assembleia de Deus, Sara Nossa Terra…

Nas eleições de 2014 a coligação que apoiou a candidatura ao governo do então senador Rodrigo Rollemberg era integrada por PSB, PDT, PSD e Solidariedade. O candidato ao Senado era o então deputado José Antonio Reguffe, do PDT. Os principais candidatos a deputado federal eram Rogério Rosso, do PSD — que indicou o candidato a vice-governador, Renato Santana — e Augusto Carvalho, do Solidariedade. A Rede Sustentabilidade também apoiou a chapa, mas ainda não era formalmente um partido.

O PDT, o PSD e a Rede romperam com o governo de Rollemberg neste semestre. O PSB é o partido do governador e o Solidariedade ainda se mantém na base governista. Eis que agora, como noticia o repórter Francisco Dutra, no Jornal de Brasília, três dos então apoiadores de Rollemberg estão articulando uma chapa para disputar o governo: o deputado distrital pedetista Joe Valle, o deputado federal Rogério Rosso e o senador Cristovam Buarque, que em 2014 era do PDT e agora está no PPS – partido que não participou da coligação que elegeu o governador.

Para avaliar o que, além do tempo na televisão, significa esse aliança de PDT, PSD e PPS — que falam em agregar partidos da direita conservadora, como os predominantemente evangélicos PRB (Igreja Universal), PSC (Assembleia de Deus), Podemos (Sara Nossa Terra) e PHS — é bom ver o que mudou de 2014 para cá:

  • O distrital Joe Valle, eleito com apenas 14.223 votos, elegeu-se presidente da Câmara Legislativa este ano com apoio de parlamentares denunciados por corrupção e tem se apresentado como candidato ao governo ou ao Senado. Ser presidente da Câmara pode dar mais visibilidade ao distrital, mas ao mesmo tempo a instituição está no fundo do poço em termos de credibilidade, respeitabilidade e popularidade. Todos os deputados denunciados e respondendo a processos continuam exercendo seus mandatos, sob as vistas de Joe Valle.
  • O deputado Rogério Rosso, que em 2014 apoiava entusiasticamente o governo e a reeleição de Dilma Rousseff, seguindo orientação de seu mentor Gilberto Kassab, tornou-se um dos mais próximos aliados e defensores de Eduardo Cunha e do impeachment. Por duas vezes tentou ganhar a presidência da Câmara, já de olho na disputa pelo governo de Brasília em 2018. Sem sucesso, desgastado e sem a proteção de Eduardo Cunha, recolhido à prisão em Curitiba, Rosso mergulhou na obscuridade. Só não foi preso, como os ex-governadores José Roberto Arruda e Agnelo Queiroz e o vice-governador Tadeu Filippelli, por ter foro privilegiado. Seu líder Kassab também está envolvido em atos de corrupção.
  • O senador Cristovam Buarque deixou o PDT frustrado: queria disputar a presidência da República, mas Ciro Gomes filiou-se ao partido já consagrado como candidato. Foi então para o PPS na esperança de ter o apoio de seu amigo e conterrâneo Roberto Freire, mas foi humilhado quando Freire disse publicamente que ele não tem mais votos e tentou fazer do apresentador Luciano Huck o candidato do partido. Ao apoiar o impeachment de Dilma e medidas do presidente Temer, Cristovam perdeu seu eleitorado à esquerda e receia não conseguir a reeleição ao Senado. Sua esperança é ter o apoio de evangélicos e ser a opção de segundo voto.
  • O PPS de Cristovam é hoje, também, o partido de dois deputados distritais denunciados na Operação Drácon e que se colocam na extrema-direita na Câmara Legislativa: a ex-presidente Celina Leão, afastada judicialmente do cargo, e Raimundo Ribeiro, que chegou a ser líder do governo de Rollemberg.
  • O mais importante apoiador de Rollemberg em 2014 não foi nenhum desses, mas o senador José Antonio Reguffe, que teve mais votos que o governador. Reguffe estava no PDT e hoje não tem partido. Não é candidato em 2018 e não demonstra nenhuma intenção em apoiar essa coligação PDT-PSD-PPS-Evangélicos.

O mais provável candidato a governador, caso essa aliança se viabilize, é o distrital Joe Valle, que foi do PSB. Cristovam pode ser o candidato ao Senado e Rosso tentar a reeleição à Câmara. Dá, assim, para entender porque a quase totalidade dos eleitores brasilienses diz que ainda não tem candidato a governador e não se entusiasma por nenhuma das alternativas já colocadas.

Dança de cadeiras no governo em nome da velha política e da reeleição

O secretário adjunto de Trabalho vai para o lugar do secretário adjunto de Ciência, Tecnologia e Inovação, que vai para o lugar do presidente da Fundação de Apoio à Pesquisa (FAP), que ficou sabendo disso ao ler matéria dos repórteres Manoela Alcântara e Ian Ferraz publicada no Metrópoles. As mudanças nada têm a ver com eficiência, competência ou interesse público — são para entregar a Secretaria Adjunta do Trabalho ao deputado federal Ronaldo Fonseca, do Pros, e não deixar desabrigados o atual ocupante do cargo, Thiago Jarjour, e o secretário adjunto de Ciência, Tecnologia e Inovação, Tiago Coelho. Assim é a velha política, assim é o governo de Rodrigo Rollemberg.

O presidente da FAP, Wellington Almeida, é professor da Universidade de Brasília e não faz questão nenhuma de continuar no cargo, mas poderia ter sido informado da intenção do governador por ele próprio, e não por dois repórteres. A única pessoa do governo que conversou com Wellington sobre o assunto, depois de publicada a matéria, foi seu presumido sucessor. Mas essa é uma trapalhada típica da atual gestão, que age assim desde o início do mandato. Na FAP, Wellington não só consertou erros cometidos por seus antecessores como contrariou interesses poderosos e ilegítimos.

Thiago Jarjour deixou o PDT quando o partido rompeu com o governo. Será candidato a deputado distrital, mas está sem partido. Tiago Coelho é o presidente do PSB e mantém a tradição negativa, herdada de Marcos Dantas e de Jaime Recena, de acumular a função partidária com cargo no governo. O deputado Ronaldo Fonseca, evangélico, é um dos novos aliados da direita conservadora que Rollemberg cooptou depois que o PDT, o PSD e a Rede romperam com seu governo. Para atendê-los com cargos e verbas, o governador deverá fazer mudanças também em administrações regionais.

 

Abadia ganha estrutura no governo para fazer política de olho em 2018

A criação de secretarias e outras estruturas de poder para entregá-las a políticos é prática antiga em Brasília. É uma maneira de o governador ganhar aliados e os agraciados receberem um cargo que lhes dá exposição, poder, votos e verbas. Só quem perde é a população: as despesas com as secretarias são grandes e o dinheiro gasto com elas, que poderia ser bem aplicado, financia negociatas políticas e campanhas eleitorais. Além do que as secretarias vinculadas ao toma lá dá cá da velha politicagem são geralmente ineficientes e improdutivas.

Há em muita gente a ideia de que ter uma secretaria para chamar de sua é fundamental. Defendem a redução do número de secretarias, desde que não seja a que lhe interessa, que é “essencial”. É verdade que os governos, ao manterem e criarem secretarias sem necessidade ou sem serem parte de uma visão estratégica, contribuem para isso.

O governo de Brasília funcionaria muito bem com 10 secretarias, ou até 12. Algumas das atuais secretarias poderiam ser subsecretarias, departamentos ou órgãos executores. Mas ser secretário dá status e alguns privilégios e há quem não admita trocar o brega broche com a coluna do Alvorada (usado pelo primeiro escalão) pelo que representa a bandeira de Brasília (usado pelo segundo escalão). Recentemente, por exemplo, foi recriada, sem nenhuma razão forte, a Secretaria de Comunicação.

No atual governo já existe uma secretaria exclusivamente para atender ao presidente do PSB, Marcos Dantas, candidato a deputado federal. A secretaria é totalmente dispensável e sua ação se limita a um programa eleitoreiro  denominado Cidade Limpa. Todo o tempo e a estrutura da Secretaria de Cidades é gasto com a política, de olho na reeleição do governador (que não falta aos eventos marqueteiros do programa) e à eleição de Marcos Dantas.

Agora o governador Rodrigo Rollemberg está criando outra secretaria dispensável, denominada pomposamente de “Especial de Projetos Estratégicos”. O objetivo real é impedir a candidatura do deputado Izalci Lucas ao governo, aliar-se ao PSDB em 2018 (e somar seu tempo de TV para a reeleição) e dar à ex-governadora Maria de Lourdes Abadia um instrumento, pago pelo contribuinte, para ela fazer política e se viabilizar como candidata a deputada ou a vice-governadora.

O que a nova secretaria teoricamente fará, outros órgãos do governo fazem e podem continuar fazendo. Inclusive, se funcionasse, a Secretaria de Cidades poderia fazer. Mas, na verdade, a Secretaria de Projetos Estratégicos nada fará, além de política e politicagem, com vistas a 2018. E a um alto custo para os cofres públicos.

Afinal, assim é a velha política.

Secretaria Especial para Abadia é mais uma jogada da velha política

O que leva o governador Rodrigo Rollemberg a criar uma secretaria para a ex-governadora Maria de Lourdes Abadia, do PSDB? E o que leva Abadia a aceitar uma secretaria de mentirinha inventada para ela? A resposta é óbvia: as eleições de 2018. Rollemberg e Abadia estão simplesmente dando mais uma demonstração prática do que é a velha política, que tanto mal tem feito ao Brasil e a Brasília.

“Ah, mas é assim que funciona”, dizem os adeptos do fisiologismo e da utilização de recursos públicos em benefício de políticos e candidatos, assim como os comodistas e oportunistas da linha “sempre foi assim”. Eles têm razão — sempre foi assim e é assim que tem funcionado. Mas nem precisa ser assim nem há garantias de que continuará funcionando. A velha política ainda dá as cartas, mas a população já está saturada dessas práticas que custam muito caro ao Estado e aos cidadãos.

Ao criar uma Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos para dar a Abadia um posto no governo, Rollemberg faz o que sempre se fez para lotear a administração pública em benefício dos políticos e de seus apadrinhados. Segundo as notícias, a nova secretaria cuidará de bairros como Sol Nascente, Por do Sol e Vila Buritizinho, que, se for verdade, são os tais assuntos estratégicos. É claro que não é preciso criar uma nova secretaria — com cargos comissionados e despesas com seu custeio — para isso. Mas, como raciocinam os velhos políticos, eleger é preciso, economizar o dinheiro público não é preciso.

Abadia representa a parcela do PSDB que trava luta interna contra o deputado federal Izalci Lucas, autoproclamado candidato ao governo de Brasília. Izalci tem o controle do partido e vem se recusando a convocar eleições para os diretórios zonais e para o diretório regional. O grupo ligado a Abadia não quer Izalci no comando do PSDB e muito menos como candidato a governador, e admite uma aliança com Rollemberg.

Rollemberg quer impedir a candidatura de Izalci e ter o PSDB a seu lado em 2018. Abadia — que foi vice-governadora de Joaquim Roriz, assumiu o governo por nove meses e perdeu a reeleição para José Roberto Arruda — seria a opção para compor a chapa como vice. As alianças partidárias para disputar a presidência da República podem atrapalhar esses planos, pois ainda não se sabe se o PSB de Rollemberg estará coligado com os tucanos. Mas, de qualquer maneira, não há vinculação obrigatória da chapa nacional com as chapas dos estados e do DF.

Tudo é provisório e não existe uma só certeza sobre as eleições de 2018 em Brasília. Mas os velhos políticos, à esquerda, ao centro e à direita, estão se movimentando intensamente.

PS: Assim que soube, pelo Metrópoles, da criação da Secretaria Especial para Abadia, enviei ao governador algumas perguntas, para checar informações. Ainda não tive as respostas.

 

O que ajuda e o que atrapalha a difícil reeleição de Rollemberg

Não dá para dizer que o governo de Rodrigo Rollemberg é de esquerda. Não é nem na composição de sua base política nem nos métodos e no conteúdo das políticas e ações que implementa. Mas também não é um governo de direita, embora tenha tido e mantenha na Câmara Legislativa aliados bem identificados com essa corrente ideológica e extremamente conservadores.

Pode-se concluir então que Rollemberg é uma expressão do centro político, nem esquerda nem direita, mas com viés progressista. A julgar pelas pesquisas, esse perfil centrista e “centrado” é o mais desejado hoje pelos eleitores. Se esse fosse o único fator a pesar na sua reeleição, Rollemberg estaria bem: o perfil centrista poderia ser um trunfo para 2018. Outro trunfo é a percepção popular de que Rollemberg não é corrupto, embora seja colocado no balaio dos políticos tradicionais nos quais o povo não confia.

Mas essas vantagens que o governador tem em relação aos demais candidatos já colocados, à esquerda e à direita, são reduzidas por uma razão simples: seu governo é reprovado por expressiva maioria dos eleitores e seu desempenho pessoal como governador é muito mal avaliado. Embora elevadíssima, essa rejeição não inviabiliza desde já sua reeleição, dependendo de quem serão os demais candidatos, mas será muito difícil para ele manter o posto no Palácio do Buriti.

Além disso, Rollemberg está isolado politicamente: não constituiu uma base de apoio na população e nas entidades da sociedade civil e tem uma base parlamentar fluida e inconfiável, que majoritariamente não deverá apoiá-lo em 2018. Não deverá também estar coligado nem com os partidos mais relevantes à esquerda nem com os à direita, que se movimentam intensamente para derrotá-lo. A Rede Sustentabilidade é uma das poucas alternativas de coligação para o PSB de Rollemberg.

O tempo é muito curto para que Rollemberg possa melhorar sua avaliação, especialmente a pessoal — o governo pode até ser bem avaliado, mas se o governador é rejeitado, a reeleição fica difícil. Rollemberg fixou uma imagem de honesto e bem-intencionado, mas que não sabe administrar nem articular e não tem a coragem e a ousadia necessárias para enfrentar os enormes problemas de Brasília.

Para reverter esse quadro em tão curto prazo, Rollemberg terá de não apenas mostrar realizações de seu governo — e as há, como houve em todos os governos anteriores, até mesmo no de Agnelo Queiroz. Terá de mostrar uma mudança de atitude pessoal e política, passando aos eleitores a ideia clara de que um segundo mandato será diferente, tanto em relação a seu desempenho como governador quanto na adoção de medidas que indiquem a superação de velhos métodos e práticas políticas que fazem com que sua gestão, em essência, seja diferente das anteriores apenas quanto a não haver corrupção sistêmica e endêmica.

Mas não adianta prometer que fará diferente em 2019, pois as promessas de 2014 não se cumpriram. Se vai mudar, tem de ser agora.