Assim é a velha política: deputados se vendem e são comprados, alianças oportunistas são articuladas

A Câmara dos Deputados, que já é rotineiramente uma enorme feira livre onde tudo se vende e tudo se compra, a partir de hoje é um gigantesco mercado: deputados estão se colocando à venda e sendo comprados com respaldo da legislação que esses mesmos deputados aprovaram. É um comércio imoral, mas legalizado, no qual deputados federais são mercadorias que não têm qualquer valor de uso para a sociedade, mas que rendem muito dinheiro para eles próprios e para os donos de partidos.

Como a absurda e restritiva legislação eleitoral estabelece que os valores do fundo eleitoral, o tempo nos horários gratuitos no rádio e na televisão e a presença ou não nos debates promovidos pelas emissoras dependem do número de deputados que cada partido tem, o valor de troca dos parlamentares está alto. E esse mercado terá influência nas eleições de outubro aqui em Brasília.

A legislação eleitoral foi feita para beneficiar quem está no poder ou tem mandato, como se só o fato de ter poder ou mandato já não fossem vantagens suficientes para a disputa eleitoral. Os candidatos dos grandes partidos ou que formam amplas coligações têm mais dinheiro e tempo de TV, candidatos de partidos médios que não lançam candidatos majoritários têm mais dinheiro para os candidatos proporcionais. Candidatos de partidos pequenos ou que não se coligam têm menos tudo.

Deputados distritais e federais já entram com grande vantagem sobre os que não têm mandato: dispõem de funcionários pagos pelo Estado para fazer campanha, verba indenizatória para pagar imóveis, automóveis e combustível, além de “consultores” e “assessores”. O vice-governador Renato Santana, com sua enorme e dispendiosa equipe que nada faz no governo, e o senador sem voto Hélio José, com seus mais de 90 funcionários e as benesses do Senado, já estão na disputa com a estrutura de campanha montada com dinheiro público. O que dizer, então, do governador Rodrigo Rollemberg, que tem a máquina do governo, milhares de cargos e a caneta que nomeia e demite, contrata e distrata?

Os ex-deputados e ex-presidiários Roberto Jefferson e Valdemar da Costa Neto prometem gastar muito dinheiro nas campanhas de seus candidatos a governador, Alírio Neto (PTB) e Jofran Frejat (PR). O deputado Joe Valle (PDT), que já tem a seu favor o mandato e os privilégios assegurados pela Câmara Legislativa, corre loucamente atrás de outros partidos, não interessa quais e o que defendem, para formar uma coligação que lhe garanta mais tempo de TV e mais “estrutura” para sua campanha. Rollemberg, que sempre esteve na esquerda, busca partidos conservadores e de direita para fortalecer sua candidatura.

Esse é o jogo, as regras são essas: a corrida é de mil metros, mas alguns já largam 500 metros à frente, outros 250 metros. O pragmatismo eleitoral é exaltado como meritório. Mas os eleitores, que não aguentam mais a velha politicagem, a corrupção e os corruptos, podem mostrar que o dinheiro, o tempo de TV e a famosa “estrutura” (o que é isso, exatamente?) não têm mais esse peso todo e que os tempos são outros. Só saberemos, porém, em outubro.

Roberto Jefferson e Valdemar Costa Neto querem “espaços de poder” em Brasília

Duas lamentáveis e corruptas figuras da política brasileira estão por trás de dois dos pré-candidatos a governador de Brasília: os ex-deputados e ex-presos Roberto Jefferson e Valdemar da Costa Neto. O candidato de Jefferson, poderoso chefão do PTB, é o ex-deputado distrital Alírio Neto. Valdemar, capo do PR, apoia o ex-deputado federal Jofran Frejat. Ambos prometem que seus candidatos terão muito dinheiro para gastar em suas campanhas, graças aos recursos públicos dos fundos partidário e eleitoral.

Toda a expectativa de renovação da política brasiliense pode se frustrar diante da legislação eleitoral que foi descaradamente aprovada pelo Congresso justamente para impedir a renovação. Os maiores partidos, todos envolvidos em acusações de corrupção, terão mais dinheiro para a campanha, mais tempo nos horários gratuitos no rádio e na televisão e garantia de que seus candidatos participarão dos debates promovidos pelas emissoras.

Será uma batalha desigual. Partidos que não terão candidatos a presidente disporão de mais recursos para aplicar em campanhas estaduais, e é isso que farão o PTB e o PR. Afinal, seus dirigentes — ou melhor, donos — precisam ter onde comandar estruturas estatais que lhes garantam contratos e empregos. Por isso incentivam Alírio e Frejat a se manterem na disputa. Caso um deles não vá para o segundo turno, terá mais cacife para negociar com um dos candidatos e assegurar os falados “espaços de poder” — leia-se, dinheiro e cargos.

Terão também condições favoráveis na disputa o governador Rodrigo Rollemberg (PSB) e os candidatos, se houver, do PSDB (quem se coloca é o deputado Izalci Lucas), do DEM (deputado Alberto Fraga), do PDT (deputado distrital Joe Valle) e do PT (que ainda não definiu o candidato). Também não estará mal, se continuar candidato, o ex-senador Valmir Campelo, do PPS.

Em grande desvantagem estão os dois únicos pré-candidatos já definidos que realmente representam uma renovação positiva no espectro político brasiliense: o liberal Alexandre Guerra, do Novo, e a socialista Fátima de Sousa, do PSol. Guerra é empresário, Fátima é professora universitária, e nunca disputaram um mandato eletivo. Guerra, pela direita, e Fátima, pela esquerda, poderão ganhar eleitores descontentes com a velha política e com as práticas corruptas que enredam os demais pré-candidatos (todos os já lançados são velhos políticos, nem todos corruptos, ressalve-se).

O quadro político, porém, continua indefinido e muitos movimentos ainda acontecerão até o prazo para a filiação partidária e para a realização das convenções. Muita coisa pode mudar e quem apostar desde já corre o risco de perder tudo.

PS: a preguiça leva jornalistas a chamarem partidos políticos de “siglas”, o que não faz o menor sentido, mas se generalizou — como tantas outras bobagens adotadas pelo jornalismo nacional. Há palavras que podem evitar a repetição de “partido”: legenda, agremiação, organização. Ah, não cabem no título… Então tá.