A péssima novela joevalleana do PDT agora só acompanho, felizmente, como jornalista

Publiquei ontem meu primeiro artigo sobre as eleições para o Metrópoles (http://www.metropoles.com/ponto-de-vista/a-desistencia-de-frejat-ainda-e-uma-historia-malcontada ). Desde 1986 é a segunda eleição em Brasília que acompanho apenas como jornalista, sendo que, na verdade, em 1998 acompanhei apenas como cidadão, pois era editor de Mundo do Correio Braziliense, sem qualquer envolvimento com as questões locais. A eleição que acompanhei mais de perto nesse ano foi na Alemanha, onde já havia feito a cobertura das eleições de 1976 para a Rede Globo.

Para evitar conflitos de interesse e questionamentos quanto à minha isenção ao escrever para o Metrópoles, desfiliei-me do PDT.  Mas, na verdade, nada mais tinha a fazer nesse partido, ao qual havia me filiado em 7 de abril com o propósito declarado de ser candidato a governador. Dois dias antes o deputado distrital Joe Valle havia anunciado que desistia de sua candidatura ao governo de Brasília, alegando razões familiares e empresariais. Há pelo menos uma semana eu já ouvia os rumores de que isso aconteceria e comentei com diversas pessoas, entre as quais o distrital Chico Leite. Valle deixou claro, ao renunciar, que só aceitaria a candidatura ao Senado na chapa encabeçada por Jofran Frejat.

A ideia ao me filiar, defendida ou apoiada por pessoas ligadas ou não ao partido — entre os quais seu presidente, George Michel — era de que eu substituísse Valle, já que parecia óbvio, diante da história e das posições políticas do PDT, que seus dirigentes e militantes insistiriam em uma candidatura própria ao governo, especialmente tendo em vista assegurar palanque local a Ciro Gomes, e não admitiriam uma aliança com a chapa que representava os interesses do bloco de centro-direita liderado por José Roberto Arruda e Tadeu Filippelli.

Minha candidatura, como se comprovou poucos dias depois em conversas com seus dirigentes, poderia ter o apoio da Rede, do PCdoB, do PPL e do PT. A coligação com os petistas, porém, foi rejeitada liminarmente pelo presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, em conversa que tivemos na presença de George Michel. Em duas conversas com Lupi, aliás, verifiquei que ele analisava o cenário eleitoral em Brasília com base na visão distorcida, equivocada e interessada de Valle. Disse isso a ele, que retrucou: “Então só você está certo?” Respondi que certamente não só eu, mas que eu estava certo, sim. E Valle, errado.

Na verdade, a maioria dos membros da executiva regional do PDT apoiava as tentativas de Joe Valle de se abrigar na chapa de Frejat. Essa posição tinha respaldo em alguns filiados, como pude verificar em grupo de Whatsapp que reunia os pré-candidatos. Um deles, por ingenuidade ou, mais provavelmente, por ignorância, admitiu o fisiologismo ao dizer que estar com o grupo de Frejat garantiria, mesmo diante de uma derrota de Valle, o controle pelo partido de secretarias das áreas sociais e da cultura. Para eles, a eleição de Frejat estava garantida.

Valle conseguiu, com a conivência de Lupi — que provavelmente queria ganhar tempo para definir as alianças nacionais de Ciro Gomes — adiar sucessivamente os prazos que pedia para chegar a um entendimento com o grupo de Frejat. Isso levou filiados que queriam a candidatura própria e rejeitavam coligações com Frejat e Rollemberg, a formar um grupo que, no mesmo dia em que foi anunciado, passou a ser reprimido por alguns membros da executiva, que chegaram a ameaçar pré-candidatos de não serem aprovados na convenção.

Nos dois meses e meio em que estive filiado ao PDT fui convidado para uma só reunião, de pré-candidatos, na qual repetidamente a poderosa secretária-geral do partido dizia que não estávamos ali para discutir política, mas para receber instruções de advogados e contadores. Participei de outra reunião, mas essa solicitada pelo grupo defensor da candidatura própria: pudemos pelo menos defender nossa posição diante do presidente, da poderosa secretária-geral e de dois membros da executiva que acumulam essas funções com a de funcionários de Joe Valle.

Esperava encontrar no PDT um ambiente favorável ao debate político, à análise de conjuntura, à formulação de um programa de governo. Esperava poder expor minhas posições e defendê-las, em discussões francas e distantes do ambiente de agressões e intolerância que vivemos, especialmente nas redes sociais. Em um clima de democracia interna, aceitaria disciplinadamente, como é da minha formação política desde os tempos de militância na Ala Vermelha, as decisões que fossem tomadas.

O que vi, porém, foi um partido em que não há debate, em que nada se faz sem a aprovação de Carlos Lupi e dominado localmente por um grupo de seguidores do distrital Joe Valle, que colocou o partido em função de seus interesses e de seu projeto político pessoal. Eu e outros participantes do grupo de pré-candidatos fomos dele excluídos pela poderosa secretária-geral porque manifestávamos nossas posições e ela, coerente com sua natureza burocrática e autoritária, dizia que ali não era lugar para isso. Não dizia, claro, onde poderíamos debater.

Como Valle, depois de quase três meses mantendo o PDT imobilizado, não conseguiu se alojar na chapa de Frejat,  inventou-se um motivo para ele ficar menos mal: a presença do deputado Alberto Fraga na coligação. Criou-se o discurso de que o PDT não poderia estar ao lado de Fraga, por divergências ideológicas e políticas. Na verdade essa foi uma falsa justificativa para o fracasso, construída quando já se sabia que o projeto de Valle não daria certo.

Depois que a aliança com a direita gorou, e quando eu já havia anunciado que não seria candidato, Valle e sua turma passaram a defender ferrenhamente a candidatura própria, mas apenas para tentar impedir que uma possível aliança nacional do PDT com o PSB pudesse levar o partido a apoiar a reeleição do governador Rodrigo Rollemberg. Lançaram às pressas o ex-deputado Peniel Pacheco como candidato ao governo, mais uma vez sem qualquer debate interno, e Valle se dispôs a ser candidato ao Senado, voltando atrás do que havia afirmado inúmeras vezes, inclusive a mim: a única hipótese que admitia era ser candidato na chapa de Frejat.

Tenho forte desconfiança de que o lançamento da chapa Peniel-Valle não é para valer, mas posso estar errado e esse assunto agora só me interessa como colunista do Metrópoles. Vou acompanhar os desdobramentos, felizmente, apenas como jornalista.

 

 

Desempenho dos candidatos em debate explica por que 70% não tem candidato

Estou há dias sem escrever, de novo. O primeiro motivo continua sendo a falta de tempo, mas senti-me desestimulado a escrever sobre o cenário político de Brasília para manter o silêncio obsequioso em relação ao PDT, partido ao qual — conforme informei aqui — me filiei em abril. Nos últimos dias, a única novidade relevante no campo político era o fracasso das negociações que o PDT entabulou durante três meses com Jofran Frejat e sua turma e o lançamento pela executiva do partido, finalmente, de um candidato a governador, o ex-distrital Peniel Pacheco. Há no PDT, porém, a possibilidade de uma aliança nacional com o PSB que leve a seção local a apoiar a reeleição do governador Rodrigo Rollemberg. Mas esse é um tema sobre o qual escreverei mais adiante.

Volto a escrever hoje para falar um pouco do primeiro debate entre os pré-candidatos ao governo de Brasília, promovido pelo Metrópoles com apoio das federações do comércio (Fecomércio) e da indústria (Fibra). Estranhei um pouco estar pela primeira vez no local de um debate na condição de espectador, pois em quatro eleições estava assessorando um candidato (1994, 2002, 2006 e 2014) e nas outras três (1990, 1998 e 2010) assisti aos confrontos pela televisão.

Colocando-me na posição dos cerca de 70% dos eleitores que ainda não optaram por nenhum dos candidatos e pensam em se abster ou anular o voto, o debate não provocou mudança nessa intenção. Nenhum dos candidatos mostrou algo que pudesse mudar essa opinião. Como observador político, porém, preciso considerar algumas atenuantes: foi o primeiro debate da temporada e pela primeira vez cinco dos sete candidatos se viram naquela situação tensa; as falas deles eram a todo momento interrompidas por vaias e aplausos das claques, o que dificulta a concentração e o foco, especialmente de quem não está habituado. E ainda faltaram os candidatos do PT, ainda não lançado, e do PDT — que foi apresentado quando o debate já estava estruturado.

Todos os candidatos mostraram-se despreparados para se apresentar ao eleitor, na forma e no conteúdo. Não prepararam bem nem as perguntas nem as respostas, perderam oportunidades, divagaram. Nenhum se destacou especialmente e isso possibilitou ao governador Rodrigo Rollemberg não se sair mal — sem se sair bem — diante dos ataques de seis oponentes e da plateia por eles levada. O auditório lotado fez com que os sete se dirigissem aos barulhentos presentes e não aos que poderiam estar assistindo em vídeo ou áudio. É claro que em uma transmissão em canal de televisão aberta a postura tem de ser outra.

Pelas falas dos candidatos deu para prever qual será a estratégia de cada um, mas deu para ver também que a maioria precisa rever suas estratégias. Os políticos tradicionais — Rollemberg, Jofran Frejat, Eliana Pedrosa e Izalci Lucas — repetiram chavões de políticos tradicionais, naturalmente, e só se diferenciam porque o primeiro é situação e os demais são oposição. Frejat, desconhecendo que os eleitores não acreditam mais em promessas mirabolantes, anunciou a criação de uma universidade pública, sem informar de onde sairão os recursos para isso. Os que se apresentam como renovadores — Fátima Sousa, Alexandre Guerra e Paulo Chagas — não conseguiram mostrar com clareza o que e como farão diferente, mas pelo menos os três deixaram claro onde se situam no espectro político.

O debate de ontem, grandioso e bem organizado, foi apenas um ensaio, ou um jogo de pré-temporada. Os candidatos que souberem entender onde erraram e corrigirem os erros poderão se sair melhor nos próximos.

 

 

Brasília pode repetir Tocantins: governador eleito pela minoria e sem legitimidade

A eleição para o governo de Brasília tem, até agora, tudo para repetir o que aconteceu no primeiro e no segundo turnos em Tocantins: o governador eleito perdeu para as abstenções e para os votos nulos e em branco. Mas certamente o eleito, que além de político tradicional é acusado de corrupção, não está nem aí para isso. Pela absurda legislação eleitoral brasileira, ele será o governador de direito. Sem legitimidade, mas terá o comando do executivo estadual e o poder e privilégios dele decorrentes.

No segundo turno dessa eleição extemporânea em Tocantins, a abstenção foi de 34,86% do eleitorado, 23,4% anulou o voto e 2,6% votou em branco. Ou seja, 51,8% dos eleitores não votou em nenhum dos dois candidatos e o vencedor teve apenas 35% dos votos dos tocantinenses — embora, dos votos considerados válidos (mais uma aberração da legislação eleitoral), tenha recebido 75%. Não há nenhuma dúvida de que a maioria dos tocantinenses, somando os não votos aos dados ao adversário derrotado, não quer o eleito como governador.

Em Brasília, se permanecer o atual quadro de candidatos, com polarização entre o governador Rodrigo Rollemberg e o opositor Jofran Frejat, pode acontecer a mesma coisa. Mesmo se um dos outros candidatos que se apresentam como via alternativa (até agora, Izalci Lucas e Eliana Pedrosa) consiga crescer, os índices de não votos continuará grande, já que ambos representam as velhas práticas políticas, têm origem no tronco Roriz-Arruda e não empolgarão os eleitores desconfiados e desalentados.

Os três candidatos que realmente poderiam significar uma renovação, todos sem mandato (como quer a maioria dos eleitores) e com posições políticas e ideológicas bem diferenciadas, são ainda desconhecidos da população, estão em partidos pequenos, têm tempo mínimo na televisão e dois deles sequer têm direito de participar dos debates promovidos pelas emissoras — duas outras graves deformações da lei eleitoral. O PT, ainda sem candidato, tem a estrutura e benefícios da lei para ser competitivo, mas está altamente desgastado perante o eleitorado brasiliense.

A permanência desse cenário é o melhor dos mundos para Frejat, que entre os que já escolheram candidato lidera nas pesquisas, e para Rollemberg, que apesar do elevadíssimo índice de rejeição a seu governo e de desaprovação pessoal ainda tem chances de vencer se receber um “voto útil” contra a volta do esquema rorizista-arrudista ao Buriti. Para eles não interessa que seja lançado um candidato que preencha o perfil traçado pelos eleitores em todas as pesquisas qualitativas: ficha limpa, honesto, com experiência de gestão, capacidade de diálogo e, de preferência, sem ter exercido mandato.

Não é à toa que, em partidos que poderiam lançar alguém com esse perfil, como PDT e Rede, haja os que trabalham para impedir. Há velhos políticos também entre os que se apresentam como renovadores e de esquerda.

 

Nova pesquisa mostra que eleição para governador está indefinida e não há certezas

A eleição para governador de Brasília continua indefinida e sem favoritos, e agora quem confirma isso é o instituto O&P, que tem credibilidade, diferentemente de outros. Uma pesquisa quantitativa, neste momento, apenas indica tendências altamente volúveis dos eleitores e teria de ser analisada a partir da série histórica, para que se possa avaliar a evolução ou involução de cada candidato. Basta ver pesquisas feitas no mês de junho em eleições anteriores para verificar as mudanças nos índices, e que levaram favoritos a sequer ir para o segundo turno e colocaram “azarões” em primeiro lugar.

O dado mais relevante da pesquisa O&P é que 49,5% dos eleitores brasilienses não têm candidato. Diante dos nomes apresentados, 40,1% não optam por nenhum deles, e a esses se somam os que não sabem ainda em quem votarão ou não responderam. Isso comprova o que mostram as pesquisas qualitativas: nenhum dos candidatos apresentados preenche, ainda que por não ser conhecido, os requisitos que os eleitores desejam para um governador: honesto, ficha limpa, distante das velhas práticas políticas, de preferência sem mandato, competente como gestor e com capacidade de articulação política.

Para esse índice elevado contribuem também, naturalmente, o desalento e a desesperança do povo, aos quais se soma o descrédito dos políticos e das instituições. Há a percepção, entre os eleitores, de que nada mudará com seus votos, pois continuarão nos executivos e legislativos os mesmos corruptos, picaretas e demagogos de sempre, que se preocuparão apenas com seus interesses pessoais e com a preservação de seus poderes e privilégios.

Se examinamos os índices dos candidatos apresentados, podemos chegar a uma conclusão simplista: haverá segundo turno entre Jofran Frejat e qualquer um dos demais. Simplista por ser resultado de uma leitura rápida e porque entre essa pesquisa e o dia das eleições haverá a definição do quadro de candidatos e coligações e, principalmente, uma campanha eleitoral. Nada do que a O&P apresenta pode ser tomado como definitivo e servir para as argumentações panfletárias do tipo “fulano é imbatível” ou “já ganhou” (há jornalistas, acreditem, que ainda recorrem ao velhíssimo recurso do “pode mandar fazer o terno da posse”), “sicrano está derrotado” ou “beltrano não tem a menor chance”.

Frejat, com 17,3% das intenções de voto, realmente apresenta hoje mais condições de ir para o segundo turno. Mas, com tanto tempo exposto, não parece ter um teto muito maior do que os índices que alcança e, como mostra a pesquisa, terá de convencer os eleitores de que a turma que o apoia, composta de presos, denunciados e condenados, não terá qualquer interferência em sua gestão. O que, em uma campanha, é difícil, mesmo tentando fazer uma maquiagem na chapa ao colocar para disputar o Senado políticos aparentemente limpos e que foram, ou se apresentavam, como de esquerda.

O governador Rodrigo Rollemberg, com escassos 9,5%, seria o concorrente natural de Frejat no segundo turno. Mas esse índice é extremamente baixo para um governante, que tem um nível de rejeição altíssimo. Todos estarão contra o governador na campanha e os demais candidatos, ainda mais com uma margem de erro de 3,1 pontos percentuais, estão na cola de Rollemberg: Eliana Pedrosa (6%), Izalci Lucas (4,7%), Paulo Chagas (4,6%), Fátima Sousa (3,1%) e Alexandre Guerra (3%). É preciso considerar que Chagas, Fátima e Guerra são praticamente desconhecidos e, embora seus partidos tenham poucos recursos, podem crescer na campanha.

Mas, paradoxalmente, também não dá para dizer que Rollemberg não tem chances. Sua situação é crítica, mas uma movimentação dos eleitores que rejeitam os candidatos que simbolizam a volta do esquema Roriz-Arruda (Frejat, Pedrosa e Izalci) ao Buriti pode levar ao “voto útil” no governador, se Chagas, Fátima e Guerra não conseguirem se colocar como alternativas reais de vitória. O PT ainda não disse quem será seu candidato. E por enquanto há um grande eleitor que se mantém em silêncio, mas que pode desbalançar o quadro para o lado que pender: o senador José Antonio Reguffe.

A eleição está aberta, não há certezas. Terão melhores chances de crescer os que se preocuparem menos com coligações a qualquer custo, tempo de TV, dinheiro e cabos eleitorais e se voltarem prioritariamente para traçar e executar as melhores estratégias, usar corretamente as redes sociais e se sair bem nos debates na televisão.

 

Prever resultado das eleições agora ainda é precipitado, imaginem em 2016

Ainda em 2016, analistas amadores e profissionais precipitados faziam especulações sobre as eleições para governador em 2018. No dia 7 de novembro de 2016 publiquei em minha coluna no Jornal de Brasília a seguinte nota, que está  no meu livro Assim é a Velha Política – http://www.heliodoyle.com.br/assimeavelhapolitica/

“Sete perguntas ainda sem respostas, entre tantas que poderiam ser feitas, mostram como é precipitado estar já agora fazendo previsões para as eleições de 2018 em Brasília:

1 – Tadeu Filippelli vai passar incólume pelas delações premiadas?

2 – Rogério Rosso será presidente da Câmara dos Deputados?

3 – Celina Leão voltará à presidência da Câmara Legislativa?

4 – Quantos e quais distritais serão denunciados pelo Ministério Público a partir da Operação Drácon?

5 – Izalci Lucas e Alberto Fraga escaparão dos inquéritos e processos contra eles?

6 – Rodrigo Rollemberg conseguirá, em um ano e meio, dar uma virada em seu governo?

7 – Os partidos à esquerda conseguirão se unir em torno de um candidato viável?”

Com exceção da pergunta 4, que é aberta, a resposta para todas as demais é “não”. Filippelli, Rosso, Celina, Izalci, Fraga e Rollemberg eram então considerados fortes candidatos ao governo. Só Izalci e Rollemberg permanecem na disputa, ambos enfraquecidos, e ainda não se sabe sequer se o deputado federal pelo PSDB será mesmo candidato ao Buriti.

Já estamos a quatro meses das eleições e o cenário ainda está confuso. Há algumas certezas, mas nem todos os candidatos foram definidos e coligações ainda estão sendo negociadas. Quem diz ou escreve que fulano está eleito, ou que sicrano é imbatível, está fazendo propaganda de candidato, não análise política. Em 2016 e agora.

 

Legislação e caciques partidários impedem a renovação e velhos políticos são eleitos

Menos de 30% dos eleitores de Tocantins votaram nos dois candidatos que vão para o segundo turno nas eleições extemporâneas para governador. Cerca de 80% dos eleitores não queria nenhum dos dois mais votados, velhos e antiquados políticos, um deles com acusações de corrupção, e que são o oposto da renovação desejada pela população. O único candidato que poderia representar essa renovação, o juiz Márlon Reis, da Rede, teve apenas 9,9% dos votos. O deputado Mauro Carlese teve 30,31% dos votos válidos e o senador Vicentinho Alves teve 22,22%.

O que ocorreu em Tocantins não é muito diferente dos resultados em eleições para prefeitos, realizadas no mesmo dia, e na também eleição extemporânea no Amazonas, no ano passado: metade dos eleitores rejeitando todos os candidatos e eleição, com minoria de votos, de velhos e, alguns, corruptos políticos tradicionais. Os dois candidatos que vão para o segundo turno em Tocantins têm, juntos, menos de 30% dos votos dos eleitores aptos (17% e 12%). O mesmo, se permanecer o quadro atual de candidatos, poderá acontecer nas eleições de outubro em Brasília.

Não é difícil entender a contradição entre os desejos dos eleitores e os resultados das urnas:

  • A legislação eleitoral aprovada pelo Congresso Nacional foi feita sob medida para beneficiar os atuais detentores de mandato e os partidos maiores, com redução dos períodos de campanha e de programa gratuitos na TV, liberação de “pré-campanha” (na qual quem tem recursos do Estado e de corporações sindicais e empresariais leva vantagem), distribuição desigual dos tempos dos programas de TV e restrição à participação de partidos pequenos em debates.
  • Os caciques dos partidos maiores prestigiam seus políticos tradicionais e impedem a apresentação de candidatos que representem a renovação, os chamados outsiders, para manter suas estruturas de poder. Uma exceção foi o PSB, que admitiu a candidatura de Joaquim Barbosa para presidente. Um exemplo contrário foi o MDB de Brasília, que filiou o advogado Ibaneis Rocha mas impediu sua candidatura.
  • Os outsiders têm de se filiar a partidos menores, que têm pouco ou nenhum tempo de televisão, poucos recursos dos fundos eleitoral e partidário e alguns sequer têm direito a participar dos debates nas emissoras de TV. A desvantagem é gigantesca, mesmo com a possibilidade de utilização das redes sociais. Esses candidatos, geralmente, não conseguem a visibilidade suficiente para ter uma boa votação.
  • Desiludido, desesperançado e sem acreditar nos candidatos e nos partidos, metade dos eleitores prefere não ir votar ou anular o voto. Em Tocantins, a abstenção foi de 30,14%, os votos nulos foram 17,13% e os em branco foram 2,66%. Total: 49,33%.
  • Os votos nulos e brancos e as abstenções, que poderiam ser carreados para a renovação, acabam beneficiando os políticos tradicionais, que se elegem com poucos votos.

Em Brasília os candidatos que fogem aos padrões da velha política estão no PSol (Fátima Souza), no Novo (Alexandre Guerra) e no PRP (Paulo Chagas). Os demais candidatos já colocados — Jofran Frejat, Rodrigo Rollemberg, Izalci Lucas, Alírio Neto, Eliana Pedrosa – são a encarnação dos velhos métodos e práticas que a maioria dos eleitores rejeita. A questão é que PSol, Novo e PRP são partidos pequenos, com poucos recursos e prejudicados pela legislação, e seus candidatos, desconhecidos do eleitorado, dificilmente terão condições de superar essas deficiências no curto período da campanha. Além do que, por estarem nos extremos do espectro político,  PSol e PRP terão dificuldades também em empolgar os eleitores hoje claramente tendendo a um perfil mais centrado.

Um candidato representativo da nova política teria chances melhores se concorresse por um partido ou coligação que lhe desse mais visibilidade perante o eleitorado. Mas, aos velhos políticos que dominam esses partidos não interessa renovação, e sim manter tudo como está. Ainda que elegendo governadores rejeitados pela maioria real dos eleitores, pois o que interessa é ganhar e manter o poder.

 

Os painéis não deveriam estar lá, mas governo só os retirou para impedir críticas do Metrópoles

Nenhum posicionamento político, ou sobre qualquer assunto, tem de ser maniqueísta, alinhado com o que os outros pensam e muito menos sintonizado com a polarização tão em voga. É verdade que tomar posições que não o colocam de modo automático em um campo ou em outro não é fácil: quem se posiciona sem alinhamento total com um dos lados sofre muitas críticas, quando não ofensas e ataques baixos, dos dois lados.

É o caso da retirada, pelo governo de Brasília — a Agefis é apenas um instrumento — dos paineis de publicidade instalados nas empenas dos prédios situados na área central do Plano Piloto. A legislação não permite e urbanistas criticam isso há anos, mas os painéis continuavam lá, impunemente, protegidos pela conivência do Executivo, omissão do Legislativo e liminares do Judiciário. Aliás, alguns juízes e desembargadores têm, ao longo da história de Brasília, sido protagonistas ativos, por incompetência ou má-fé, de agressões causadas à cidade.

Mas é óbvio que a retirada apenas agora, às vésperas da eleição, é uma ação política do governo, incomodado pelo painel do portal Metrópoles. O painel, em local de grande movimento, vinha expondo críticas ao governador Rodrigo Rollemberg e a sua gestão — o que, além de ser um direito do portal é o que fazem nove entre dez brasilienses. Como não tem como enquadrar o Metrópoles como faz com outros veículos de imprensa, algum gênio sugeriu ao governador que aproveitasse para aplicar a lei há tantos anos esquecida.

Se não fosse o painel do Metrópoles, o governo, depois de esperar três anos e meio, nada faria contra os demais. Foi, assim, uma clara ação contra a liberdade de expressão e de imprensa, cometida por um governo que recorreu por diversas vezes à Justiça para impedir que seus adversários políticos o criticassem em programas partidários no rádio e na televisão — e, o pior, que incrivelmente conseguiu decisões favoráveis a essa tese no Tribunal de Justiça do DF. E no qual um secretário dá broncas e faz ameaças a repórteres e editores quando não gosta do que publicam.

Não sou favorável aos painéis com publicidade nas empenas dos prédios e não acho que caibam comparações com outras cidades que têm desenho urbano completamente diferente do projeto do Plano Piloto. Se acham que a lei deva ser alterada, para permiti-los, que se inicie um processo de debate para que a Câmara Legislativa decida, ainda que decisões de deputados distritais sejam sempre um perigo para os brasilienses.

A atitude de retirá-los agora, porém, mostrou que o governo não quer ser criticado e está muito mal assessorado na política e na comunicação.

A “direita” se apresenta dividida agora como estratégia para se unir depois

O senador Cristovam Buarque, do PPS, preocupado com sua reeleição, anunciou hoje que estará numa chapa na qual o deputado Izalci Lucas (PSDB) será o candidato a governador. Não se falou em candidato a vice-governador e à outra cadeira do Senado que estará em disputa. Essa chapa, segundo eles, juntará também PSD (Rogério Rosso), PRB (Igreja Universal e Sara Nossa Terra) e os inexpressivos PMB, PSDC, PSC, Patriota e PSL.

Não é uma plataforma de governo, ou pelo menos diretrizes para um programa, que unem Izalci, Cristovam e esses partidos — são os interesses políticos e pessoais de cada um dos personagens envolvidos. Quem duvidar, pergunte a eles o que farão no governo. As respostas serão óbvias e demagógicas, a mesmice de sempre. Vão criticar o governo de Rodrigo Rollemberg e dizer que é preciso impedir a reeleição dele. E não passarão disso.

O lançamento da chapa Izalci-Cristovam está obviamente identificado com a candidatura a presidente do tucano Geraldo Alckmin, mas o anúncio de hoje cumpre uma estratégia combinada com o candidato Jofran Frejat, que é do PR, partido que ainda não definiu quem apoiará na eleição nacional. Os dois blocos continuarão a conversar, enquanto aguardam as definições de alianças para presidente da República, mas praticamente já acertaram a união em uma chapa que terá Frejat para governador, Izalci como seu vice e Cristovam e Alberto Fraga (ou Paulo Octávio) para o Senado. Não é à toa que não se falou em vice e na outra cadeira ao Senado. Estão fora dessa articulação, por enquanto, Alírio Neto (PTB) e Eliana Pedrosa (Podemos), ambos autoproclamados candidatos a governador.

Continuam, pois, as negociações no bloco político que tem sua origem em Joaquim Roriz e José Roberto Arruda, identificado como a “direita” em Brasília, e que agora ganhou a adesão do ex-petista e ex-pedetista Cristovam Buarque. Espera-se que eles, depois de acertarem seus projetos pessoais, digam aos brasilienses, na campanha, o que pretendem fazer no governo e no Senado.

Em tempo: o governador Rodrigo Rollemberg diz que não quis passar a impressão de que em sua visita ao senador Reguffe recebeu o apoio dele, nem “plantou” nota sobre isso em coluna. Acredito e retifico o que publiquei.

 

E lá vai Cristovam atrás de nova coligação, tudo por sua reeleição

Os políticos tradicionais de Brasília, apegados a seus interesses particulares e exercendo plenamente o que aprenderam nas escolas da velha politicagem, correm de um lado para outro procurando formar coligações para disputar as eleições de outubro. Devem estar engordando, tantos são os cafés da manhã e da tarde, almoços e jantares que fazem para dividir os cargos em disputa. Precisam simular seriedade e posar bem para as fotos que enviam para colunas e blogs amigos, tentando passar a impressão de que estão debatendo temas importantíssimos para a cidade.

Pois não estão. As discussões que fazem são em torno de pessoas, nomes. Quem vai ser candidato ao governo, quem vai para o Senado, como serão as chapas para deputado federal e deputado distrital. Nada falam de programa ou plataforma de governo, de metas, de ações. Em alguns casos, já estão loteando o “futuro” governo, definindo a quem caberão indicações, especialmente para secretarias e empresas rentáveis — acho que dá para entender para quê.

O senador Cristovam Buarque, do PPS, está fazendo um papel ridículo, correndo como barata tonta em torno de possíveis candidatos ao governo para viabilizar sua reeleição. Sem nenhuma experiência como articulador político, pois sempre teve quem articulasse para ele, tentou a farofada que juntava do PCdoB ao PRB, buscou o grupo que presumivelmente juntaria Alírio Neto (PTB) com Izalci Lucas (PSDB), agora tenta se unir a Jofran Frejat (PR). Tem de garantir sua reeleição a qualquer custo, até mesmo de sua coerência. Afinal, posa de padrão de honestidade.

Em torno de que se aliam esses políticos? De seus projetos pessoais, principalmente. Só sabem fazer o discurso fácil de que é preciso derrotar o governador Rodrigo Rollemberg e “salvar” Brasília. Rollemberg, por sua vez, dedica-se a aproveitar a estrutura de governo para fazer campanha antecipada, com muita demagogia, e também sem dizer o que fará para não repetir o mau governo por mais quatro anos. Já sabe que estão sobrando poucos partidos para apoiá-lo.

A verdade é que os velhos políticos continuam com suas práticas nefastas e não se atualizaram. Cada um cuida de seu projeto pessoal e os partidos não têm nenhum significado para eles, a não ser a sustentação financeira de suas campanhas. Não estão entendendo o que acontece no país e em Brasília e acham que o desalento da população levará o eleitor à inércia e assim se elegerão. O pior é que isso pode dar certo para eles, e errado para os brasilienses.

Em tempo: Rollemberg, em sua pré-campanha pela reeleição, visitou o senador José Reguffe em casa e divulgou texto simpático a ele. Quis passar a impressão de que Reguffe o apoia. Valeu até publicar foto de quatro anos atrás. Demagogia e enganação também são típicos da velha política.

 

 

Possibilidade de reeleição deveria acabar, para o bem do povo e dos maus governantes

A possibilidade de reeleição para presidente, governador e prefeito surgiu no Brasil, em 1997, como um casuísmo para beneficiar o então presidente Fernando Henrique Cardoso. Foi aprovada no Congresso graças à pressão dos aliados do governo e à compra de votos de parlamentares. Até então, os mandatos nos executivos eram de cinco anos, sem reeleição. Agora são de quatro anos, renováveis por mais quatro.

Há diversas propostas para acabar com a reeleição e esse poderá ser um dos temas para debate depois das eleições de outubro. Embora possa ser defendida em tese, pois a recondução do governante depende do voto popular, a reeleição tem inúmeros aspectos negativos. A começar pelo fato de que, no primeiro mandato, os presidentes, governadores e prefeitos se dedicam mais a preparar suas reeleições do que a governar efetivamente. Já tomam posse de olho nas urnas.

Ao se candidatar à reeleição, um governante já sai com grande vantagem sobre seus oponentes, mesmo que sua gestão esteja sendo um desastre. Pode nomear e exonerar, liberar (ou não) verbas, assinar (ou não) contratos, cumprir agendas eleitoreiras, fazer demagogia com dinheiro público, montar equipe disfarçada de campanha com servidores pagos pelo Estado, e aí por adiante. Tem a “máquina” e a “caneta”, como se diz na linguagem dos políticos.

Seria muito bom que acabasse a possibilidade de reeleição e os mandatos voltassem a ser de cinco anos. Bom para a democracia, para a igualdade de oportunidades entre os candidatos, para a gestão pública e para a população. E bom também para os governantes que não conseguem se reeleger, pois a derrota é um atestado público de mau governo. O então governador Agnelo Queiroz sequer passou para o segundo turno. O presidente Michel Temer dificilmente se arriscará a disputar a reeleição. O governador Rodrigo Rollemberg deveria pensar bem nisso, ainda há tempo.

Em tempo: em 1997 eu era filiado ao PT e me opus à reeleição de Cristovam Buarque — por ser contra o instituto e por considerá-lo um mau governador. Defendia, então, a candidatura da vice-governadora Arlete Sampaio. Deixei o PT em 1998, quando a candidatura de Cristovam foi definida pelos iludidos petistas que contavam com mais quatro anos de governo. A derrota foi o castigo ao oportunismo.