Avaliação do governo de Rollemberg tem de ir além da lista de obras e realizações

Para refutar a ideia de que sua gestão vai mal, o governador Rodrigo Rollemberg costuma citar uma série de realizações. Fala, entre outras coisas, do fechamento do lixão, de obras em áreas mais carentes, dos viadutos do Lago Norte, da desocupação da orla do Paranoá, do combate à grilagem e de mais verbas para a cultura e para a ciência e tecnologia.

É bom que o governo tenha o que apresentar, mas todos os governadores de Brasília realizaram obras e implementaram medidas positivas para a população. Uns mais, outros menos. Especialmente no momento histórico em que vivemos, porém, não basta a um governo fazer esta ou aquela obra, melhorar algo aqui ou ali. Isso é a obrigação básica, não é o que faz a diferença. É preciso fazer muito mais do que isso para ter um governo bem avaliado.

O julgamento do governo tem de ser mais amplo: se está efetivamente contribuindo para a mudança, a inovação, a renovação e a implantação de novos métodos de gestão pública e de exercício da política em Brasília. Se tem um relacionamento correto com a sociedade e contribui para possibilitar a participação popular nas questões públicas, para termos a prática da democracia em toda a sua dimensão participativa.

É preciso avaliar também se o governo está executando políticas públicas efetivas para extinguir a miséria e reduzir os níveis de pobreza e as desigualdades existentes entre os habitantes de Brasília e também entre seus núcleos urbanos e rurais. E se está oferecendo serviços públicos de qualidade para a população, especialmente para os que mais precisam da atenção do Estado.

Minha resposta, infelizmente, é negativa para todos os quesitos. Especialmente tendo em vista o alto nível de envolvimento que tive na gestação deste governo, desde a eleição de Rollemberg para o Senado em 2010, frequentemente me pedem que avalie o governo e o desempenho do governador e explique porque são tão mal avaliados.

Vou fazer isso nas próximas notas, nos próximos dias. Havia a expectativa de que este fosse um governo que inovasse e renovasse, que mudasse radicalmente a gestão e a política, que rompesse com velhas práticas. E assim melhorasse substancialmente a gestão e os serviços públicos. Mas nada disso aconteceu.

Reconheço a existência de duas crises herdadas de gestões anteriores – a financeira e a hídrica — e reconheço o esforço para superá-las e modernizar aspectos da gestão, com acertos e erros. Reconheço também um avanço muito importante: a inexistência da corrupção sistêmica e cotidiana que grassou em governos anteriores. Não que não haja nada de errado, pois há, mas não na dimensão de gestões passadas e envolvendo diretamente o governador. Isso é muito relevante, especialmente nos dias de hoje.

Mas, em suma, não há diferenças substanciais entre este e os governos que o antecederam e se esperava que houvesse. O que se faz é o mesmo do mesmo. Com boa vontade, talvez um pouco mais do mesmo.

 

Abadia ganha estrutura no governo para fazer política de olho em 2018

A criação de secretarias e outras estruturas de poder para entregá-las a políticos é prática antiga em Brasília. É uma maneira de o governador ganhar aliados e os agraciados receberem um cargo que lhes dá exposição, poder, votos e verbas. Só quem perde é a população: as despesas com as secretarias são grandes e o dinheiro gasto com elas, que poderia ser bem aplicado, financia negociatas políticas e campanhas eleitorais. Além do que as secretarias vinculadas ao toma lá dá cá da velha politicagem são geralmente ineficientes e improdutivas.

Há em muita gente a ideia de que ter uma secretaria para chamar de sua é fundamental. Defendem a redução do número de secretarias, desde que não seja a que lhe interessa, que é “essencial”. É verdade que os governos, ao manterem e criarem secretarias sem necessidade ou sem serem parte de uma visão estratégica, contribuem para isso.

O governo de Brasília funcionaria muito bem com 10 secretarias, ou até 12. Algumas das atuais secretarias poderiam ser subsecretarias, departamentos ou órgãos executores. Mas ser secretário dá status e alguns privilégios e há quem não admita trocar o brega broche com a coluna do Alvorada (usado pelo primeiro escalão) pelo que representa a bandeira de Brasília (usado pelo segundo escalão). Recentemente, por exemplo, foi recriada, sem nenhuma razão forte, a Secretaria de Comunicação.

No atual governo já existe uma secretaria exclusivamente para atender ao presidente do PSB, Marcos Dantas, candidato a deputado federal. A secretaria é totalmente dispensável e sua ação se limita a um programa eleitoreiro  denominado Cidade Limpa. Todo o tempo e a estrutura da Secretaria de Cidades é gasto com a política, de olho na reeleição do governador (que não falta aos eventos marqueteiros do programa) e à eleição de Marcos Dantas.

Agora o governador Rodrigo Rollemberg está criando outra secretaria dispensável, denominada pomposamente de “Especial de Projetos Estratégicos”. O objetivo real é impedir a candidatura do deputado Izalci Lucas ao governo, aliar-se ao PSDB em 2018 (e somar seu tempo de TV para a reeleição) e dar à ex-governadora Maria de Lourdes Abadia um instrumento, pago pelo contribuinte, para ela fazer política e se viabilizar como candidata a deputada ou a vice-governadora.

O que a nova secretaria teoricamente fará, outros órgãos do governo fazem e podem continuar fazendo. Inclusive, se funcionasse, a Secretaria de Cidades poderia fazer. Mas, na verdade, a Secretaria de Projetos Estratégicos nada fará, além de política e politicagem, com vistas a 2018. E a um alto custo para os cofres públicos.

Afinal, assim é a velha política.

Secretaria Especial para Abadia é mais uma jogada da velha política

O que leva o governador Rodrigo Rollemberg a criar uma secretaria para a ex-governadora Maria de Lourdes Abadia, do PSDB? E o que leva Abadia a aceitar uma secretaria de mentirinha inventada para ela? A resposta é óbvia: as eleições de 2018. Rollemberg e Abadia estão simplesmente dando mais uma demonstração prática do que é a velha política, que tanto mal tem feito ao Brasil e a Brasília.

“Ah, mas é assim que funciona”, dizem os adeptos do fisiologismo e da utilização de recursos públicos em benefício de políticos e candidatos, assim como os comodistas e oportunistas da linha “sempre foi assim”. Eles têm razão — sempre foi assim e é assim que tem funcionado. Mas nem precisa ser assim nem há garantias de que continuará funcionando. A velha política ainda dá as cartas, mas a população já está saturada dessas práticas que custam muito caro ao Estado e aos cidadãos.

Ao criar uma Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos para dar a Abadia um posto no governo, Rollemberg faz o que sempre se fez para lotear a administração pública em benefício dos políticos e de seus apadrinhados. Segundo as notícias, a nova secretaria cuidará de bairros como Sol Nascente, Por do Sol e Vila Buritizinho, que, se for verdade, são os tais assuntos estratégicos. É claro que não é preciso criar uma nova secretaria — com cargos comissionados e despesas com seu custeio — para isso. Mas, como raciocinam os velhos políticos, eleger é preciso, economizar o dinheiro público não é preciso.

Abadia representa a parcela do PSDB que trava luta interna contra o deputado federal Izalci Lucas, autoproclamado candidato ao governo de Brasília. Izalci tem o controle do partido e vem se recusando a convocar eleições para os diretórios zonais e para o diretório regional. O grupo ligado a Abadia não quer Izalci no comando do PSDB e muito menos como candidato a governador, e admite uma aliança com Rollemberg.

Rollemberg quer impedir a candidatura de Izalci e ter o PSDB a seu lado em 2018. Abadia — que foi vice-governadora de Joaquim Roriz, assumiu o governo por nove meses e perdeu a reeleição para José Roberto Arruda — seria a opção para compor a chapa como vice. As alianças partidárias para disputar a presidência da República podem atrapalhar esses planos, pois ainda não se sabe se o PSB de Rollemberg estará coligado com os tucanos. Mas, de qualquer maneira, não há vinculação obrigatória da chapa nacional com as chapas dos estados e do DF.

Tudo é provisório e não existe uma só certeza sobre as eleições de 2018 em Brasília. Mas os velhos políticos, à esquerda, ao centro e à direita, estão se movimentando intensamente.

PS: Assim que soube, pelo Metrópoles, da criação da Secretaria Especial para Abadia, enviei ao governador algumas perguntas, para checar informações. Ainda não tive as respostas.

 

O que ajuda e o que atrapalha a difícil reeleição de Rollemberg

Não dá para dizer que o governo de Rodrigo Rollemberg é de esquerda. Não é nem na composição de sua base política nem nos métodos e no conteúdo das políticas e ações que implementa. Mas também não é um governo de direita, embora tenha tido e mantenha na Câmara Legislativa aliados bem identificados com essa corrente ideológica e extremamente conservadores.

Pode-se concluir então que Rollemberg é uma expressão do centro político, nem esquerda nem direita, mas com viés progressista. A julgar pelas pesquisas, esse perfil centrista e “centrado” é o mais desejado hoje pelos eleitores. Se esse fosse o único fator a pesar na sua reeleição, Rollemberg estaria bem: o perfil centrista poderia ser um trunfo para 2018. Outro trunfo é a percepção popular de que Rollemberg não é corrupto, embora seja colocado no balaio dos políticos tradicionais nos quais o povo não confia.

Mas essas vantagens que o governador tem em relação aos demais candidatos já colocados, à esquerda e à direita, são reduzidas por uma razão simples: seu governo é reprovado por expressiva maioria dos eleitores e seu desempenho pessoal como governador é muito mal avaliado. Embora elevadíssima, essa rejeição não inviabiliza desde já sua reeleição, dependendo de quem serão os demais candidatos, mas será muito difícil para ele manter o posto no Palácio do Buriti.

Além disso, Rollemberg está isolado politicamente: não constituiu uma base de apoio na população e nas entidades da sociedade civil e tem uma base parlamentar fluida e inconfiável, que majoritariamente não deverá apoiá-lo em 2018. Não deverá também estar coligado nem com os partidos mais relevantes à esquerda nem com os à direita, que se movimentam intensamente para derrotá-lo. A Rede Sustentabilidade é uma das poucas alternativas de coligação para o PSB de Rollemberg.

O tempo é muito curto para que Rollemberg possa melhorar sua avaliação, especialmente a pessoal — o governo pode até ser bem avaliado, mas se o governador é rejeitado, a reeleição fica difícil. Rollemberg fixou uma imagem de honesto e bem-intencionado, mas que não sabe administrar nem articular e não tem a coragem e a ousadia necessárias para enfrentar os enormes problemas de Brasília.

Para reverter esse quadro em tão curto prazo, Rollemberg terá de não apenas mostrar realizações de seu governo — e as há, como houve em todos os governos anteriores, até mesmo no de Agnelo Queiroz. Terá de mostrar uma mudança de atitude pessoal e política, passando aos eleitores a ideia clara de que um segundo mandato será diferente, tanto em relação a seu desempenho como governador quanto na adoção de medidas que indiquem a superação de velhos métodos e práticas políticas que fazem com que sua gestão, em essência, seja diferente das anteriores apenas quanto a não haver corrupção sistêmica e endêmica.

Mas não adianta prometer que fará diferente em 2019, pois as promessas de 2014 não se cumpriram. Se vai mudar, tem de ser agora.

 

 

 

É melhor para Izalci tentar se reeleger deputado: talvez garanta o mandato, a verba indenizatória e o foro privilegiado

É voz corrente que o governador Rodrigo Rollemberg conta com a falta de adversários fortes para se reeleger. Há nisso um erro e um acerto: o erro é achar que se ganha eleição por WO e o acerto é que realmente não apareceu até agora nenhum candidato forte para as eleições de 2018. Isso não quer dizer que Rollemberg já ganhou caso permaneça o quadro atual, pelo contrário. O desgaste dele é imenso e ainda é impossível prever como serão as eleições.

Dizem também que a sorte acompanha Rollemberg desde o primeiro mandato de deputado distrital. É inegável que a vida política do governador tem sido facilitada por acontecimentos que o favorecem, e sorte também conta. Mas é óbvio que inúmeros outros fatores políticos e pessoais tiveram peso na ascensão a deputado federal, senador e governador.

De um jeito ou outro, mais um pretenso candidato a governador vê suas já poucas chances de se eleger ainda mais reduzidas. A denúncia por peculato contra o deputado tucano Izalci Lucas dificulta sua eleição, até porque não é a única a que responde. E nem é o único fator a complicar sua vida em 2018.

Izalci, embora tente disfarçar, é o típico político tradicional, no modelo que o eleitorado rejeita. Uma demonstração disso é que de 2011 a 2017, como conta o Jornal de Brasília, em matéria de Francisco Dutra, o deputado gastou R$ 2,1 milhões em verbas indenizatórias. E desse valor, R$ 897,8 mil para pagar o escritório de advocacia que o defende.

A verba indenizatória, inventada pelos parlamentares para aumentar seus rendimentos diretos e indiretos, é uma excrescência que já deveria ter sido extinta. Além disso, nada justifica que o deputado federal pague um escritório de advocacia com dinheiro público a pretexto de “consultoria”. Como diz, na mesma matéria, o secretário-geral da Contas Abertas, Gil Castelo Branco, a Câmara e o Senado “têm excelentes assessores e consultores aprovados nos concursos mais difíceis do país”. Izalci alega que não pode contar com eles.

Izalci acha que pagar seus advogados com a verba indenizatória não é ilegal nem imoral. Ilegal não é mesmo, pois a lei aprovada por deputados e senadores nela interessados permite essa privatização de recursos públicos. Mas é imoral, sim. É imoral receber a verba indenizatória e mais ainda gastar em benefício próprio.

O deputado federal Izalci deveria pensar melhor, pois talvez seja melhor para ele tentar a reeleição. Garante o mandato, a verba indenizatória e o foro privilegiado.