O rombo nas contas aumentou, mas governador anunciou superávit

O governador Rodrigo Rollemberg não perdeu tempo quando foi divulgado o relatório da Secretaria do Tesouro Nacional mostrando que o Distrito Federal fechou 2017 com superávit de R$ 191,64 milhões: publicou a informação nas suas redes sociais. Sítios e autoridades do governo repetiram a notícia. Só que a informação estava errada e, o que é pior, o governador sabia disso. Hoje o Tesouro Nacional divulgou a correção e a verdade é que o Distrito Federal terminou 2017 com déficit de R$ 974, 8 milhões.

O post de Rollemberg era a transcrição da matéria e da tabela publicadas no Correio Braziliense : “O número de estados que não conseguiram fechar as contas entre 2016 e 2017 passou de oito para 14, conforme dados divulgados, nesta segunda-feira (12/03) pelo Tesouro Nacional. Na contramão, ficou o Distrito Federal, o único ente federativo a melhorar as contas, entre os nove deficitários de 2016, e a reverter o rombo”.

O governador, porém, sabia muito bem que o DF não tinha revertido o rombo, pelo contrário: o déficit havia aumentado em quase R$ 300 milhões em relação a 2016, quando foi de R$ 686,18 milhões. Rollemberg conhecia os números levantados pelas suas secretarias de Fazenda e de Planejamento, apontando o déficit real de quase R$ 1 bilhão. Sabia que o Tesouro Nacional estava usando uma metodologia diferente, ou errada, e que o Correio Braziliense, cujo texto copiou, estava se fiando na informação equivocada que constava do relatório do órgão do Ministério da Fazenda.

Rollemberg levou uma chamada da procuradora dos Direitos do Cidadão, Maria Rosynete de Oliveira Lima, que recomendou ao governo que corrigisse as informações falsas que estava difundindo. Até agora, nada.

Em resumo: se a informação real não é boa para o governo, divulgue-se a informação errada, que é boa. Principalmente às vésperas das eleições.

Assim é o velho jeito de governar e de fazer política. E assim é a velha comunicação governamental.

 

O governador vai a São Paulo, mas sua agenda esconde

A agenda pública do governador Rodrigo Rollemberg cita um único compromisso hoje: às 19h, divulgação do balanço do BRB. Mas o governador e o secretário de Comunicação foram a São Paulo para almoçar com diretores da Rede Record, a emissora da Igreja Universal do Reino de Deus. Passaram praticamente todo o dia fora de Brasília.

É óbvio que uma viagem do governador para outra cidade, ainda mais custeada com dinheiro do Estado, tem de estar na agenda pública. Mas transparência e informação não são exatamente uma preocupação dos que seguem a velha política e a velha comunicação.

 

Uma história banal: o secretário apertou o governador — “ou ela ou eu” — e a subsecretária foi demitida

Perguntam-me por que a subsecretária de Publicidade, Thiara Zavaglia, foi demitida pelo governador Rodrigo Rollemberg e o que isso significa para o governo. Acho natural que perguntem: Thiara já trabalhava com Rollemberg no Senado, foi peça importante do núcleo de comunicação na campanha eleitoral que coordenei e comandava a publicidade do governo desde o início do mandato, quando eu era o responsável pela comunicação. Sua queda, é claro, surpreendeu.

Ninguém espera que os veículos de imprensa contem a história além do mero registro, pois quase todos dependem da verba publicitária do governo e temem a caneta de quem armou a queda de Thiara — o secretário de Comunicação, Paulo Fona. Que, ignorando uma das características do líder, detesta a ideia de ter a seu lado alguém mais competente que ele. Outra característica de um líder, aliás, é não gritar histericamente com subordinados, ofendê-los e constrangê-los com frases como “não perguntei sua opinião”.

Os motivos para a demissão da subsecretária de Publicidade são claros: o secretário tem agora o campo totalmente livre para fazer o que quiser na área, pode ajudar os amigos e executar, sem críticas que ferem sua extrema vaidade e afloram sua forte insegurança, as práticas e métodos da velha e superada comunicação governamental da qual é adepto.

Thiara, por diversas vezes, impediu que o secretário fizesse o que a lei e as normas não permitem e mostrou os erros de comunicação e de técnica publicitária que seriam cometidos (e muitos foram) caso prevalecessem as ideias dele. Um dos últimos choques entre eles foi porque os executores do contrato de publicidade, corretamente, notificaram uma das agências contratadas por não estar pagando em dia seus fornecedores. Como se sabe, o secretário, antes de assumir o cargo, trabalhava nessa agência — o que deveria impedi-lo de exercer a função na secretaria contratante.

Embora tivesse de se submeter às ordens do chefe, Thiara era a derradeira resistência no governo à velha comunicação, irmã da velha política. Era a última integrante da equipe que montei, em 2015, com a disposição e talento para superar os antigos e ultrapassados manuais da comunicação governamental e executar políticas e ações sintonizadas com os novos tempos que vivemos e com a — hoje se sabe enganosa — promessa do governador de ter atitude para mudar. Essa equipe foi mantida pelos  antecessores do secretário, mesmo tendo diferenças de opiniões com o último deles, mas desmontada desde que ele assumiu o posto. Apenas Thiara havia ficado, talvez pela ligação antiga com Rollemberg, pela confiança que ele tinha nela ou porque o secretário pouco entende de publicidade. Mas desde os primeiros momentos no cargo já se armava a queda dela.

O governador Rodrigo Rollemberg durante muitos meses viu a movimentação do secretário para derrubar a subsecretária e nada fez para impedir o desgaste: nem mediava a situação nem ousava, no limite, demitir um dos dois. Parecia acreditar piamente nas mentiras, fofocas e versões que o secretário lhe levava para queimar a subsecretária, mas mesmo assim a mantinha no cargo. Foi preciso muita insistência de alguns amigos que conhecem bem o modo de agir do secretário para que Rollemberg finalmente ouvisse o que Thiara tinha a dizer. Ouviu há duas semanas e até pareceu entender a situação artificial criada pelo secretário, mas acabou cedendo ao ultimato “ela ou eu”.

 

 

 

 

 

Agência Brasília, da propaganda para o jornalismo e de volta à propaganda

O governador Rodrigo Rollemberg deu hoje uma entrevista aos blogueiros de Brasília que se reúnem em uma associação da qual não participo. Estou curioso para ver se alguns deles foram, cara a cara com o governador, tão críticos como são em seus textos. Dos blogueiros comprados com a publicidade oficial não espero nada mesmo.

Tenho, porém, de aguardar os blogs para saber como foi a entrevista, porque a Agência Brasília, do governo, conseguiu produzir uma enorme matéria em que apenas relata o que disse o governador, no já batido e conhecido discurso que faz sobre suas “entregas” (terminologia em moda na tecnocracia) até agora. A agência não reproduz uma só pergunta dos blogueiros, muito menos as respostas.

A Agência Brasília vinha sendo, desde sua criação, um caro instrumento de propaganda de sucessivos governos de Brasília. No início da atual gestão, foi totalmente renovada e organizada para fazer jornalismo, com informações amplas e corretas, deixando a propaganda para a Subsecretaria de Publicidade. Os veículos de comunicação da cidade sabiam que tinham ali informações fidedignas e bem apuradas.

Muita gente no governo estranhou e criticou as mudanças, coerentemente com a visão de velha política e velha comunicação que carregam. Queriam a agência para disseminar informações falsas e ufanistas, fazer autopromoção e badalar autoridades. Agora a Agência Brasília voltou a ser de propaganda, não de jornalismo.

 

Rumo certo não é só piada pronta, é síntese da antiquada política de comunicação de Rollemberg

O governo de Rodrigo Rollemberg optou desde junho de 2016 pela velha comunicação, quando poderia estar executando uma política que incorpora novos conceitos e práticas modernas e adequadas ao momento em que vivemos. Mas há coerência, já que os métodos do governo são os da velha política. A convivência da velha política com a nova comunicação não seria uma contradição insuperável, mas dificilmente a nova política pode conviver com a velha comunicação.

Em linhas gerais, a velha comunicação do governo se caracteriza por uma visão antiquada, superada e, sobretudo, ineficiente nos dias de hoje. Os tempos mudaram, mas os seguidores da velha comunicação desconhecem a realidade e se baseiam na ilusão de que muita publicidade promocional, controle da mídia e intensa agenda de candidato, entre outras práticas antigas, revertem percepções negativas da população e garantem apoio.

Algumas das características da velha comunicação neste governo:

– a predominância da propaganda institucional sobre a educativa e de utilidade pública. O governo gasta a maior parcela da verba publicitária (mais de 60%) com a divulgação e promoção de suas realizações, quando deveria destinar pelo menos 90% dos recursos para campanhas educativas e de utilidade pública. Na campanha eleitoral, aliás, era isso que o então candidato prometia.

– A adoção de um slogan para o governo – a piada pronta “No rumo certo” – mostra que a comunicação ainda se prende a antiquadas fórmulas que confundem campanha eleitoral com gestão de governo. A administração pública não tem de ter slogan, cores próprias e marca publicitária – a marca deve ser a bandeira ou o brasão, as cores são as da bandeira. E slogan é para candidato.

– A Agência Brasília, que foi reestruturada no início do governo para fornecer informação jornalística confiável e de relevância, adota agora linguagem e critérios mais adequados à propaganda, além de tratar de assuntos sem a menor importância. Assim, perdeu a credibilidade conquistada.

– As rodas de conversa abertas à população, inovação adotada com sucesso na campanha eleitoral e que teve continuidade nos primeiros meses de governo, foram abandonadas e substituídas por encontros temáticos, com convidados e em ambiente fechado. Parte-se do princípio de que o governador só pode se expor em ambientes favoráveis.

– As redes sociais do governo não dialogam e interagem com a população, como deveria ser, tornando-se apenas uma extensão mal executada da propaganda institucional. Redes sociais sem interação e diálogo não têm sentido.

– A agenda do governador tem forte viés eleitoreiro, não só no tipo de eventos programados como no seu formato. Além disso, é mantida no gabinete do governador uma equipe de comissionados para mobilizar e arregimentar público, montar claque e agir nas redes sociais como se estivesse em campanha eleitoral. Confunde-se a necessária presença e contato do governador com a população com eventos propagandísticos, repletos de servidores para dar número e garantir aplausos.

– Não há transparência total nas informações e os meios de comunicação não recebem respostas para todas as suas questões, sendo comum agora ler e ouvir que tal órgão do governo, procurado, não se manifestou, o que é inadmissível para uma administração pública.

– Repórteres e editores são questionados com aspereza quando publicam matérias consideradas negativas para o governo. Uma coisa é corrigir informações erradas ou reclamar de mentiras, outra é questionar o direito que os jornalistas e os meios têm de publicar o que apuram e expressar suas análises e opiniões.

O que mudou, em relação aos governos anteriores: a equipe responsável pela publicidade procura, apesar das pressões e dentro de suas limitações, manter critérios técnicos na distribuição da verba publicitária. Há veículos que ganham muito mais do que deveriam, tendo em vista a audiência real que têm, mas pelo menos há critérios.

Bem diferente, por exemplo, do que faz a Câmara Legislativa.

 

Velha comunicação do governo é coerente com a velha política

Na nota publicada ontem arrolei os sete erros estruturais do governo de Rodrigo Rollemberg. Deixei para abordar separadamente o oitavo erro devido a meu envolvimento com o tema — a comunicação do governo — que esteve sob minha responsabilidade de janeiro a junho de 2015, quando chefiei a Casa Civil.

O primeiro motivo para me estender nesse tema é porque ainda é bastante generalizada a incompreensão sobre o papel e as responsabilidades da comunicação em um governo. O segundo é porque enquanto os sete erros já apontados começaram a se revelar ainda no período de transição, indicando a opção pela velha política, foi possível introduzir e manter a “nova comunicação” – com vários percalços — até maio de 2016, quando se optou pelo restabelecimento das velhas práticas e dos velhos métodos de fazer a comunicação de governo.

Vale, porém, uma retificação. Ontem escrevi que a comunicação do atual governo nada difere, em essência, das executadas nos governos de Joaquim Roriz, José Roberto Arruda e Agnelo Queiroz. É mais correto dizer que pouco difere, pois há uma diferença para melhor, na publicidade, e ainda há rescaldos das práticas modernas implantadas até meados de 2016.

A maioria dos que assumem a gestão pública nada entende ou pouco entende de comunicação. Eles entendem menos ainda de comunicação de governo, mas acham que são especialistas. E para piorar, parentes e amigos dos governantes também pensam que sabem tudo sobre comunicação e aproveitam a proximidade física para falar bobagens e dar palpites que são muitas vezes absorvidos como genialidades.

Por isso é muito difícil executar políticas de comunicação de governo. Rejeita-se com frequência sua função estratégica e muitas vezes os responsáveis pela área não são ouvidos e considerados na tomada de decisões. Mas, por outro lado, todos querem dizer o que deve ser feito pela comunicação e atribuem a “erros de comunicação” o que, na verdade, são erros políticos ou de gestão. É uma maneira fácil de transferir responsabilidades.

Vêm daí simplismos como achar que a propaganda massiva resolve todos os problemas de má gestão e imagem negativa, ou que as verbas publicitárias devam ser usadas como instrumentos de pressão contra a imprensa, para assegurar o apoio ao governo. Confunde-se jornalismo com propaganda e órgãos de governo mantêm o silêncio e o sigilo diante de problemas levantados pela população ou pela mídia, deixando de prestar a informação clara e transparente, mesmo que possa ser negativa. Além disso, a promoção pessoal substitui a divulgação institucional.

Essas características típicas da velha comunicação podem ser vistas com naturalidade se defendidas por leigos e curiosos, ou até por amadores que, talvez por terem um título acadêmico, julgam-se profissionais. O problema é quando, no todo ou em parte, são encampadas pelos que têm a responsabilidade de administrar a comunicação do governo.

Esta nota continua.