A boa política é necessária, os velhos políticos são todos dispensáveis

Há quem considere que a demagogia é inerente à política. Como há quem entenda que sem loteamento de órgãos e cargos seja impossível governar. E que sem mordomias e privilégios não valha a pena assumir uma função pública. Ou, pior: há quem assegure que todo político e todo governante são corruptos, e os que não são fazem vista grossa.

Pois é possível fazer política sem demagogia, governar sem toma lá dá cá, acabar com as mordomias e privilégios e ser político e governante sem se corromper e sem fingir que não vê a corrupção. Os que dizem que a política é assim mesmo e não há como mudar são os que não querem mudar, pois são os que se beneficiam desses males.

O exercício da política é necessário em qualquer sociedade democrática, mas não a política fundada na demagogia, no patrimonialismo, no fisiologismo, nas mordomias e privilégios e na corrupção. Essa é a má política, que precisa ser combatida e expurgada, e as eleições de outubro são uma boa oportunidade para começar esse processo. Os que praticam a má política são hoje os principais inimigos da boa e necessária política, e têm como aliados os que gostariam de substituir a convivência democrática pelo autoritarismo e pelo domínio da “eficiência” tecnocrática a serviço de elites econômicas.

“A política é o único poder ao alcance dos que não têm poder”, escreveu o jornalista e escritor espanhol Josep Ramoneda. “Não há pior fantasia do que uma sociedade sem política”, diz ele. A política não pode ser jogada no lixo porque muitos a sujaram e ainda a sujam. A superação da má política não será obra dos maus políticos, mas dos que estiverem dispostos a enfrentar os obstáculos por eles colocados para impedir que as coisas mudem e percam seus poderes.

A nova e boa política poderá ser implantada por bons políticos já em atividade e por outros que ousarão enfrentar as barreiras e armadilhas colocadas pelos demagogos, fisiológicos e corruptos para impedir a renovação. O filósofo basco Daniel Innerarity escreveu em A política em tempos de indignação: “Ninguém é intruso por ser um desconhecido no sistema político. Aquilo que pode converter alguém num intruso, no pior sentido do termo, é caso ele pretenda comportar-se na política com outra lógica e tente convertê-la num assunto midiático, num exercício de gestão empresarial ou numa atividade justiceira.”

Ele fala da Europa, mas a frase serve para o Brasil e para Brasília.

 

“Direita” vai jogar dinheiro fora com pesquisa para saber que Frejat é seu melhor candidato

Os potenciais candidatos a governador de Brasília oriundos do tronco Roriz-Arruda ainda não decidiram qual deles será o escolhido para disputar as eleições de outubro. Segundo matéria de Francisco Dutra no Jornal de Brasília, vão encomendar uma pesquisa para saber quem está mais bem posicionado perante o eleitorado e esse será o escolhido. Se a pesquisa é para isso, vão jogar dinheiro fora, pois não terão a resposta.

Hoje nem mesmo uma pesquisa qualitativa bem feita, com dez grupos representativos e bem estruturados, seria um bom indicador para escolher o candidato da “direita”. Uma pesquisa quantitativa servirá apenas para dizer que a maioria dos eleitores ainda não tem candidato, ou rejeita os até agora apresentados, e que as intenções de voto para os listados são irrisórias e nada indicam, nem mesmo cruzadas com os índices de rejeição. Se é preciso escolher logo um candidato, é melhor seguir o instinto, o conhecimento da realidade local e o bom senso, que não custam um real.

A história das eleições brasileiras está repleta de exemplos de candidatos que apresentavam 1% em fevereiro e ganharam as eleições, assim como de outros que apareciam como favoritíssimos e não chegaram ao segundo turno. Não será uma pesquisa em fevereiro que indicará o melhor nome da “direita”, ou o que tem mais potencial de crescimento. Para os eleitores, segundo pesquisas qualitativas, todos os apresentados até agora – Jofran Frejat, Ibaneis Rocha, Alberto Fraga, Alírio Neto e Izalci Lucas – são a mesma coisa: velhos políticos, adeptos da velha politicagem e ansiosos para retomar o poder e suas benesses.

Aliás, por instinto, conhecimento do ambiente local e bom senso, já se sabe que, dos já colocados, o melhor candidato do tronco rorizista-arrudista é Jofran Frejat. Podem economizar o dinheiro da pesquisa.

Para lembrar: em 1994, já durante a campanha, Cristovam Buarque não subia nas pesquisas e alguns petistas, com o apoio de jornalistas simplistas e superficiais, diziam que o candidato a governador deveria ter sido Chico Vigilante, que tinha no início do ano índices muito melhores, algo como 20%, contra os 3% de Cristovam. O que os petistas e os jornalistas não viam é que Cristovam poderia sair dos 3% para ganhar a eleição, enquanto Vigilante chegaria no máximo a 25%.

 

Velhos políticos brigam pelo metrô e fazem a festa na Secretaria de Justiça

Os velhos políticos são, além de nocivos à sociedade, ridículos. É verdade que se esses políticos fossem apenas ridículos e sem noção não causariam grandes prejuízos à população, mas eles vão muito além: suas práticas e seus métodos são demagógicos, patrimonialistas, fisiológicos e corruptos. Levam à apropriação privada de dinheiro público, ao roubo descarado, à deterioração dos serviços públicos e ao mau atendimento ao povo. A velha política ofende a estética e a ética.

A polêmica em torno da liberação pelo Ministério das Cidades de recursos para o metrô de Brasília é um exemplo triste da atuação de velhos políticos, mas nesse caso ressalta o fato de eles serem ridículos. Já a notícia, publicada pelo Metrópoles, de que o deputado Agaciel Maia distribuiu cargos na Secretaria de Justiça e Cidadania a, entre outros, ex-jogador de futebol, donos de açougue, lava-jato e estacionamento privado e vendedora de produtos de beleza sem qualificação para as funções mostra como a velha política é danosa ao povo.

O governador Rodrigo Rollemberg anunciou como realização sua a liberação da verba pelo Ministério das Cidades. Bateu o bumbo, como se diz entre os que fazem comunicação de governo à moda antiga. Rollemberg já está agindo como candidato à reeleição, na agenda, nos pronunciamentos e nas articulações políticas, o que também é um pecado da velha política, mas menos grave. Venial, digamos.

O bumbo do governador incomodou os que fazem oposição e dois vídeos mostram como é possível a pessoas pretensamente sérias fazer papel de idiotas. No primeiro, o deputado Laerte Bessa, do PR, aparece ao lado do presidente do partido no Distrito Federal para afirmar enfaticamente que o dinheiro não foi liberado e que Rollemberg mentiu. Cita o próprio ministro Alexandre Baldy, aliás um político medíocre — como é a quase totalidade dos ministros de Temer.

No outro vídeo, Baldy desmente Bessa. Ao lado dos estáticos deputados Alberto Fraga (DEM) e Rogério Rosso (PSD) , o ministro diz que a liberação dos recursos deve-se ao apoio da bancada federal ao projeto. Aos dois apatetados parlamentares somou-se o deputado Izalci Lucas na assinatura de uma nota tirando o mérito do governador. Ou seja, Rollemberg não pode “faturar” sozinho. Por trás de toda a palhaçada estão as eleições deste ano, claro. Como estiveram na votação da alteração do orçamento, finalmente concluída ontem.

A briga pela paternidade dos recursos fica no campo do folclore da velha política, pois grave mesmo é a nomeação dos apadrinhados do deputado Agaciel Maia (PR) na Secretaria de Justiça e Cidadania, com a cumplicidade de Rollemberg. Não que isso seja caso único: várias secretarias e todas as administrações regionais foram entregues a parlamentares e políticos em troca de apoio ao governo ou para viabilizar candidaturas. Como disse Jarbas Passarinho em outro contexto, “às favas com todos os escrúpulos”.

O loteamento de órgãos da administração e a nomeação de pessoas não qualificadas e que prestam contas ao político que os indicou prejudica o desempenho administrativo e o atendimento à população e desvaloriza o servidor público de carreira. Essa prática antiga e nefasta, que o atual governo manteve, não é só uma questão ética — é, sobretudo, um mal causado à população que precisa dos serviços que o Estado tem de prestar com eficiência.

 

 

 

Oportunismo e erros dos dois lados na briga dos candidatos Rollemberg e Joe Valle

Não há como apoiar incondicionalmente um dos lados na briga agora travada entre o governo de Rodrigo Rollemberg e a Câmara Legislativa presidida por Joe Valle. Ambos estão errados, embora em alguns aspectos ambos tenham razão. Por trás dos erros, porém, estão o relacionamento equivocado que Rollemberg tem com a Câmara, a postura oportunista de Joe Valle diante do governo e, sobretudo, estão as eleições de 2018 — na qual, muito provavelmente, Rollemberg, pelo PSB, e Joe, pelo PDT, estarão disputando o governo de Brasília.

A derrota de Rollemberg, pelo voto de minerva dado por Joe, na votação da emenda ao Orçamento que garantiria mais R$ 1,2 bilhão ao governo em ano de eleições é, no fundo, uma consequência da opção, pelo governo e pelos distritais, por métodos e práticas da velha política que já deveriam estar sepultados. O relacionamento entre o Executivo e o Legislativo, na base de cooptações em troca de benefícios, leva a situações como essa.

A postura de Joe Valle foi nitidamente oportunista, o que não surpreende. Joe já foi oportunista ao manter com o governo uma relação dúbia, com atitudes de oposição na prática, mas ocupando pessoalmente e depois por um indicado seu uma secretaria importante, ligada à área social e de cidadania e direitos humanos, e centenas de cargos comissionados em todo o governo, especialmente em órgãos do setor de agricultura.

Joe e o PDT só romperam com o governo há poucos meses, diante da proximidade das eleições e tendo em vista a baixa popularidade de Rollemberg. Mesmo assim, ainda mantêm afilhados no governo. Rollemberg, por seu lado, aceitou a postura dúbia de Joe por todo esse tempo, como aceitou, durante muito tempo, a de Celina Leão. Oportunismo, pois, dos dois lados.

Como não tem nenhum interesse em que o governo tenha mais dinheiro em caixa para fazer obras e outras realizações no ano das eleições, Joe articulou contra a emenda e desempatou votando pela rejeição. O argumento de que o governo enviou o projeto à Câmara sem respeitar os trâmites legislativos e sem dar aos distritais tempo para discuti-lo é mero pretexto — embora o governo tenha realmente, mais uma vez, tentado dar uma atropelada nos distritais e errado no procedimento. O erro de Rollemberg serviu de pretexto para Joe.

Rollemberg está colhendo o que plantou desde o início da gestão, ao estabelecer com a Câmara uma relação de toma lá dá cá, em que cede a chantagens dos distritais para ter o apoio em votações e loteia o governo entre eles, fora a concessão de outros benefícios.  Boa parcela da inoperância e da ineficiência do governo de Rollemberg deve-se a ter, em postos chaves, pessoas despreparadas e descompromissadas que lá estão apenas por serem apadrinhadas por distritais.

A cada votação importante o governador tem de distribuir cargos e liberar emendas e outras benesses para deputados. Ontem já havia distritais disputando a administração regional do Itapoã, controlada pelo deputado Robério Negreiros, que votou contra o governo. No alto escalão do Buriti, isso é considerado natural e tratado como rotina. Não interessa o que pensam os moradores do Itapoã, eles não votam na Câmara.

Rollemberg errou também ao ter se intrometido nas duas eleições para a presidência e demais cargos da mesa diretora da Câmara Legislativa. Na primeira, logo após a posse, apoiou Celina Leão, hoje sua ferrenha opositora, em detrimento de Joe Valle. Na segunda, no início deste ano, apoiou Agaciel Maia e foi derrotado por Joe Valle. O governador poderia ter mostrado um novo estilo de governar e fazer política, deixando aos deputados a escolha do presidente e demais dirigentes da Câmara, mas optou pelo velho método intervencionista. Agora tem o presidente da Câmara contra ele.

Tanto o governador quanto Joe Valle, especialmente a partir do momento em que assumiu a presidência da Câmara, erraram por não terem estabelecido uma nova e mais democrática sistemática de discussão do Orçamento, mantendo o debate restrito ao governo e aos distritais e deixando a sociedade de fora. Além disso, é verdade que o governo insiste, desde o início da gestão, em enviar o orçamento, projetos e emendas à Câmara sem dar aos deputados o tempo adequado e necessário às discussões.

Rollemberg tem motivos mais que suficientes para avaliar que está errando com a Câmara desde o início do mandato, no atacado e no varejo. O tipo de relacionamento que instituiu — ou melhor, manteve, pois vem de administrações anteriores — é velho e ultrapassado e causa prejuízos ao governo e, principalmente, à população. E a falta de competência do governador e de seus assessores para articular politicamente é conhecida em todo o meio político brasiliense. Joe Valle sabe se aproveitar disso.

 

 

Cinco coisas que governo e distritais poderiam fazer para melhorar a política e a cidade

É difícil para a maioria dos deputados distritais, preocupados com seus interesses pessoais e imediatos e pensando pequeno, renunciar às práticas da velha política e pensar grande. Não estão nem aí para a instituição parlamentar e para a população. Não adianta dizer que a nova política vai dar prestígio e poder real à Câmara Legislativa e, consequentemente, a eles. Estão preocupados é com cargos e emendas, em beneficiar empresários e corporações e dar continuidade à carreira política.

Governadores também têm dificuldades em entender que governarão melhor e a população será mais bem atendida se mudarem sua relação com a Câmara Legislativa, deixando o toma lá de cá no passado e articulando a aprovação de seus projetos com métodos modernos e republicanos. Em vez de tentarem “comprar” deputados com dinheiro público, como fazem ao distribuir cargos e liberar emendas (é com dinheiro do Tesouro que tudo isso é pago), os governadores deveriam respeitar a Câmara e manter com os distritais e seus partidos negociações transparentes e programáticas.

É possível, sim, basta querer. Haverá reações contrárias, claro, mas que podem ser enfrentadas se a população souber o que acontece e exercer pressão sobre os politiqueiros e se o governo se mantiver firme diante das chantagens e ameaças. Um distrital que pedir algo em troca de um voto e ver esse seu pedido divulgado para a população vai pensar duas vezes antes de reincidir. Mas vai votar contra, dirão. Será? Vale a pena pagar para ver. Quem aceita chantagem acaba sendo extorquido pelo resto da vida e se torna cúmplice do chantagista.

Há cinco coisas que um governador corajoso e distritais limpos e adeptos de novas práticas e métodos na política poderiam estabelecer como atitudes na próxima gestão. A população, o Executivo e a Câmara Legislativa só teriam a ganhar com algumas medidas:

  • O governo não interferir na eleição do presidente e da mesa diretora da Câmara, assim como na escolha dos presidentes de comissões. Esses são assuntos do Legislativo e a intromissão do Executivo colabora para a desmoralização dos dois poderes.
  • O deputado não ser nomeado secretário ou fazer uma só indicação para cargo comissionado na administração ou nas empresas e autarquias. No presidencialismo, os poderes são independentes e se um parlamentar participa do Executivo ou pede nomeações, deixa de ser independente e de ter condições de fiscalizá-lo. Além disso, os suplentes dos deputados nomeados para secretarias são ameaçados com o retorno dos titulares caso não apoiem o governo. No presidencialismo, se um parlamentar quer ter cargo no Executivo tem de renunciar definitivamente ao mandato.
  • O distrital não ser intermediário de interesses empresariais perante o governo, sejam esses interesses seus, de sua família ou de terceiros. É comum deputados pedirem que o governador, secretários e diretores de empresas públicas recebam empresários, e geralmente vão junto nas audiências. É usual também distritais fazerem pedidos para favorecer empresas, como recebimentos de pagamentos atrasados, reajustes em contratos e até fazer lobby pela contratação. Fora os deputados que são sócios de empresas e vão pessoalmente tratar de seus interesses privados.
  • O governo não usar as emendas como moeda de troca para obtenção de apoio dos distritais, estabelecendo critérios transparentes para a liberação. Há um erro fundamental nas emendas parlamentares, que é a destinação de “cota” a cada distrital, quando o correto seria uma discussão maior e mais profunda do orçamento e a apresentação de emendas no processo coletivo. Mas, como o sistema é esse, é preciso tirar seu caráter de pressão contra o parlamentar.
  • Distritais e governador se comprometerem a indicar para o Tribunal de Contas do Distrito Federal apenas procuradores, auditores e técnicos de comprovado conhecimento e idoneidade, não mais fazendo indicações de deputados e políticos para a função de conselheiro.

Essa é a nova política, que melhoraria o governo e valorizaria o Legislativo.

 

Alguns distritais melhores e um governador corajoso podem tirar a Câmara da lama em que se meteu

Não há democracia sem parlamento, sem representação do povo. O papel do parlamento depende do regime e do sistema político de cada país, podendo ser mais ou menos poderoso, representativo ou influente. As casas legislativas existem no parlamentarismo, no presidencialismo e nos regimes híbridos — como o que os amigos e cúmplices Michel Temer e Gilmar Mendes querem implantar no Brasil. Há países em que convivem câmaras alta e baixa, Senado e Câmara com diversas denominações. Há diferentes sistemas eleitorais.

Independentemente de peculiaridades regionais e nacionais, é importante para uma democracia que o parlamento seja respeitado e se faça respeitar, por atitudes, ações, palavras e votos. Uma casa legislativa desmoralizada e sem credibilidade é o que querem os governantes autoritários e os que pretendem implantar uma ditadura, aberta ou disfarçada. Um parlamento não reconhecido pela população como sua legítima representação não exerce seu papel, faz apenas figuração de democracia e só atende a interesses escusos, dos governantes, dos poderosos ou de um segmento da sociedade.

Pois é isso que acontece no Brasil: Câmara dos Deputados e Senado Federal, câmara e assembleias legislativas e câmaras de vereadores são as instituições mais desmoralizadas do país, pela inoperância política e administrativa, pelos gastos excessivos, pela falta de representatividade, pelas mordomias e privilégios e pela corrupção. E, muitas, pela subordinação servil ao Poder Executivo.

Uma saída para essa situação é a população ser mais exigente e cuidadosa ao eleger vereadores, deputados e senadores. Mas melhorar o nível da representação parlamentar não acontecerá em uma ou duas eleições, pois há diversos fatores estruturais — como o alto grau de pobreza e baixo nível educacional — e conjunturais, como a legislação eleitoral, que favorecem o clientelismo, a demagogia e a compra de votos em campanhas eleitorais.

Mesmo que em 2018 a renovação real (não a troca de seis por meia dúzia) seja ainda insuficiente para promover mudanças substanciais na Câmara Legislativa de Brasília e na qualidade de seus integrantes, será possível avançar. Uma “bancada” maior, limpa e disposta a romper com as práticas e métodos da velha política em favor de uma nova postura, somada à pressão da sociedade, ou pelo menos de seus setores organizados, constrangerá os demais parlamentares a aceitar mudanças. E se for eleito um governador com coragem e ousadia para estabelecer um novo patamar nas relações com os distritais, ganharão todos: a população, o Executivo e a Câmara, que finalmente, depois de 17 anos, irá se valorizar e será valorizada.

Esse assunto continua.

 

 

É possível, sim, fazer política sem fisiologismo, compadrio, corrupção e outras práticas nefastas

Quando escrevo ou falo da velha e da nova política há sempre quem venha com argumentos do tipo “não tem outro jeito”, “tem de ser assim”, “sempre foi assim” e outras bobagens no mesmo sentido. Os mais sofisticados ou metidos a sofisticados justificam os métodos falando em “presidencialismo de coalizão” e outros termos inúteis e vazios. De tanto ver proliferar a corrupção, o fisiologismo, o compadrio e as práticas nefastas de nossos velhos políticos, esses conformistas e acomodados acham que tudo isso é normal e não há como mudar. Mesmo que custe muito caro ao país e à população.

Como a prática é o critério da verdade, será preciso que sejam eleitos governantes com coragem para demonstrar que é possível, sim, superar a velha política e adotar novos métodos de relacionamento entre os poderes Executivo e Legislativo. Ao contrário do que alguns entendem ou fingem entender, a nova política, por óbvio e até no termo, não nega a política e a necessidade da negociação política. O que a nova política recusa é a negociata que deforma a política, baseada no fisiologismo, no clientelismo, no patrimonialismo e no chamado toma lá dá cá. Em práticas que, mesmo não envolvendo diretamente o dinheiro público — e quase sempre envolvem — são corruptas.

Não há sistema político perfeito nem imune a críticas, mas há pelo mundo diversos exemplos de negociação política legítima e necessária, baseada em plataformas programáticas e planos e ações de governo, sendo a ocupação de cargos e a participação nas decisões uma decorrência natural dos entendimentos. Mas entenda-se a ocupação de cargos como o exercício de postos importantes no organograma do poder, e não o loteamento desvairado de órgãos públicos com centenas de cargos entregues a pessoas geralmente desqualificadas e com licença para roubar.

No parlamentarismo, em que o governo é exercido pelo Parlamento, é natural que deputados e senadores ocupem ministérios e secretarias, inclusive não se afastando dos mandatos legislativos. Já no presidencialismo, em que há clara divisão de competências entre o Executivo e o Legislativo, parlamentares deveriam ter de renunciar ao mandato para exercerem cargos no governo. É assim, por exemplo, nos Estados Unidos. E jamais comprometerem sua presumível independência com indicações de afilhados.

Em qualquer regime, porém, não se justifica que a participação de um partido no poder seja sinônimo de loteamento do governo com a nomeação de apadrinhados para funções comissionadas, nem que o Executivo beneficie ilicitamente parlamentares que o apoiam. Em países desenvolvidos, ao ser nomeado um ministro ou secretário leva com ele uns poucos assessores pessoais e nomeia servidores de carreira para os cargos de comando e assessoria.

Defender as práticas e os métodos da velha política é ser cúmplice da corrupção.

Velha política não é só corrupção e toma lá dá cá, é demagogia também

A demagogia é um aspecto da velha política que geralmente é colocado em plano secundário, abaixo da corrupção, da troca de favores ilícitos e do loteamento do Estado. Aparentemente inofensiva, a demagogia é um dos fatores do atraso em que vive o Brasil e Brasília, pois simplifica questões importantes e impede que assuntos sérios sejam debatidos com profundidade e seriedade, além de despolitizar a solução dos problemas. A demagogia manifesta-se de diversas maneiras, todas nocivas. Assim como com a corrupção e o toma lá dá cá, quem perde com a demagogia é o povo.

É demagogia, por exemplo, cobrar gastos do governo — com obras, com contratações, com o pagamento de dívidas — sem apontar com clareza de onde devem vir os recursos. É demagogia prometer sem mostrar como será cumprida a promessa, ou depois deixar de cumpri-la. É demagogia anunciar ou exigir ações e medidas, que se sabe serem irrealizáveis, para fazer média com pessoas ou entidades. É demagogia proferir discursos tonitruantes com palavras vazias e frases de efeito, sem qualquer conteúdo.

Embora seja mais característica de políticos de oposição, que não têm a responsabilidade de governar e prestar contas da gestão, a demagogia é praticada também por governantes. São práticas demagógicas as inaugurações festivas, com claques e puxa-sacos a postos para aplaudir. Assim como as “inspeções de obras” em que não há inspeção alguma, mas apenas poses para fotos e filmes. Ou as postagens ufanistas e palavrosas nas redes sociais. Dizem que a demagogia caminha ao lado da simulação de produtividade — há no atual governo excelentes comprovações disso.

Sem falar dos candidatos que já despontam, demagogos por definição ao seguirem os cânones da velha política. Além das promessas e sorrisos ensaiados, candidatos são instruídos a carregar crianças no colo e a apertar o máximo possível de mãos, não se preocupando em ouvir o que essas pessoas têm a dizer. Um ex-deputado brasiliense dizia que um debate com eleitores não vale dez apertos de mãos. Campanhas eleitorais são campo fértil para demagogos.

As pesquisas e a percepção de quem circula pela cidade indicam que os brasilienses estão fartos da demagogia e da velha politicagem e anseiam por mudanças, por novos métodos para governar e fazer política. Os velhos políticos, porém, não serão superados de um dia para o outro. O sistema eleitoral foi montado por eles para facilitar sua permanência no poder, não para que haja renovação. Em uma cidade em que as velhas práticas políticas são adotadas há quase 30 anos e exercidas impunemente pelos atuais governantes e legisladores, não é fácil mudar.

Mas algum avanço haverá, certamente. Hoje é impossível dizer até que ponto, depende ainda de muitas variáveis. Os governistas e oposicionistas à esquerda e à direita que insistem no jeito velho de fazer política  — e os blogueiros e jornalistas que os exaltam e os promovem — deveriam prestar mais atenção às ruas, já que, pelo jeito, não leem as pesquisas. O novo convive com o velho por um tempo, mas logo o velho dá lugar ao novo.

Crises atrapalham, mas para enfrentá-las é preciso coragem, ousadia e determinação

O governo de Rodrigo Rollemberg frustrou as esperanças de mudanças, de um novo estilo de gestão pública, de democracia participativa, de novos métodos e práticas políticas. Não cumpriu compromissos assumidos na campanha. Não mudou, não inovou, não renovou. Isso se reflete nas carências que para a população são as mais relevantes: não existe um projeto de desenvolvimento para o DF e não houve evolução significativa em nenhuma área fundamental: educação, saúde, segurança, cultura, mobilidade, políticas sociais, eliminação da miséria, redução da pobreza. É como se tivéssemos parado no tempo. Em alguns casos, regredido.

O governo não conseguiu melhorar o atendimento à população em nenhum campo, o que não quer dizer que não tenha méritos e tido realizações pontuais e positivas, nessas e em outras áreas. Mas que são absolutamente insuficientes para que a população se sinta atendida e avalie bem o governo. Realizações que estão muito abaixo das possibilidades que existiriam se a gestão tivesse sido moderna, eficiente e competente.

Não se pode desconhecer a crise econômica, política e ética em âmbito nacional e as crises locais, financeira e hídrica, herdadas de gestões anteriores. Claro que foram fatores limitadores para o desempenho do governo. Mas o já lugar-comum de que crise é oportunidade não foi aproveitado para fazer mudanças expressivas, dialogar com a sociedade, elevar a transparência, implantar projetos que ajudariam a gerar trabalho e renda. A sociedade não se sentiu coparticipante do esforço para reduzir os impactos das crises e retomar o desenvolvimento.

Faltaram ao governo visão de futuro, estratégia e posicionamentos políticos claros. Faltaram também coragem, ousadia e determinação. Houve e há muitas vacilações, recuos, falta de rumo, lentidão na execução de medidas, conivência com a politicagem. O momento era adequado para fazer as mudanças e inovar, e a crise não era um impedimento — pelo contrário. A crise financeira, na verdade, não foi totalmente superada, foi empurrada para a frente. A crise hídrica depende de soluções a longo prazo e de muita chuva.

Em uma próxima nota vou mostrar que superar as práticas e métodos da velha política não é só uma questão moral ou ética — é fundamental para que o governo tenha eficiência, preste serviços de qualidade à população, contribua para gerar renda e reduza a desigualdade social.

 

 

 

Rumo certo não é só piada pronta, é síntese da antiquada política de comunicação de Rollemberg

O governo de Rodrigo Rollemberg optou desde junho de 2016 pela velha comunicação, quando poderia estar executando uma política que incorpora novos conceitos e práticas modernas e adequadas ao momento em que vivemos. Mas há coerência, já que os métodos do governo são os da velha política. A convivência da velha política com a nova comunicação não seria uma contradição insuperável, mas dificilmente a nova política pode conviver com a velha comunicação.

Em linhas gerais, a velha comunicação do governo se caracteriza por uma visão antiquada, superada e, sobretudo, ineficiente nos dias de hoje. Os tempos mudaram, mas os seguidores da velha comunicação desconhecem a realidade e se baseiam na ilusão de que muita publicidade promocional, controle da mídia e intensa agenda de candidato, entre outras práticas antigas, revertem percepções negativas da população e garantem apoio.

Algumas das características da velha comunicação neste governo:

– a predominância da propaganda institucional sobre a educativa e de utilidade pública. O governo gasta a maior parcela da verba publicitária (mais de 60%) com a divulgação e promoção de suas realizações, quando deveria destinar pelo menos 90% dos recursos para campanhas educativas e de utilidade pública. Na campanha eleitoral, aliás, era isso que o então candidato prometia.

– A adoção de um slogan para o governo – a piada pronta “No rumo certo” – mostra que a comunicação ainda se prende a antiquadas fórmulas que confundem campanha eleitoral com gestão de governo. A administração pública não tem de ter slogan, cores próprias e marca publicitária – a marca deve ser a bandeira ou o brasão, as cores são as da bandeira. E slogan é para candidato.

– A Agência Brasília, que foi reestruturada no início do governo para fornecer informação jornalística confiável e de relevância, adota agora linguagem e critérios mais adequados à propaganda, além de tratar de assuntos sem a menor importância. Assim, perdeu a credibilidade conquistada.

– As rodas de conversa abertas à população, inovação adotada com sucesso na campanha eleitoral e que teve continuidade nos primeiros meses de governo, foram abandonadas e substituídas por encontros temáticos, com convidados e em ambiente fechado. Parte-se do princípio de que o governador só pode se expor em ambientes favoráveis.

– As redes sociais do governo não dialogam e interagem com a população, como deveria ser, tornando-se apenas uma extensão mal executada da propaganda institucional. Redes sociais sem interação e diálogo não têm sentido.

– A agenda do governador tem forte viés eleitoreiro, não só no tipo de eventos programados como no seu formato. Além disso, é mantida no gabinete do governador uma equipe de comissionados para mobilizar e arregimentar público, montar claque e agir nas redes sociais como se estivesse em campanha eleitoral. Confunde-se a necessária presença e contato do governador com a população com eventos propagandísticos, repletos de servidores para dar número e garantir aplausos.

– Não há transparência total nas informações e os meios de comunicação não recebem respostas para todas as suas questões, sendo comum agora ler e ouvir que tal órgão do governo, procurado, não se manifestou, o que é inadmissível para uma administração pública.

– Repórteres e editores são questionados com aspereza quando publicam matérias consideradas negativas para o governo. Uma coisa é corrigir informações erradas ou reclamar de mentiras, outra é questionar o direito que os jornalistas e os meios têm de publicar o que apuram e expressar suas análises e opiniões.

O que mudou, em relação aos governos anteriores: a equipe responsável pela publicidade procura, apesar das pressões e dentro de suas limitações, manter critérios técnicos na distribuição da verba publicitária. Há veículos que ganham muito mais do que deveriam, tendo em vista a audiência real que têm, mas pelo menos há critérios.

Bem diferente, por exemplo, do que faz a Câmara Legislativa.